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Doclisboa’13: dois retratos da criação artística brasileira

A 11ª edição do Doclisboa já começou na passada quinta-feira, e por isso aqui fica uma breve análise dos filmes vistos nos dois primeiros dias do festival, duas escolhas semelhantes na temática mas diferentes na abordagem. Enquanto na sessão de abertura passava Pays Barbare, a escolha recaiu sobre Hélio Oiticia, do sobrinho do artista, César Oiticica Filho, e na sexta-feira o retratado foi Ney Matogrosso, no filme Olho Nu de Joel Pizzini.

Hélio Oiticica

Antes de vermos o filme, César Oiticica Filho, presente na sessão, deixa a mensagem de que este é um filme contra o preconceito e contra a hipocrisia, e antes do final percebemos que de facto o é. O filme experimental que ganhou o Prémio Caligari no Festival de Berlim em 2013, é um ensaio visual sobre o artista, na primeira pessoa, feito com material de arquivo e com uma montagem que unifica harmoniosamente todos os materiais.

Logo no início, Oiticica afirma-se como um interessado pela arte devido ao seu pai, fotógrafo e, a par da influência familiar na sua sensibilidade artística, fala também das influências políticas, ligadas ao anarquismo e transmitidas pelo seu avô. De uma forma bastante cronológica, a sua obra e vida são revisitadas, passando por momentos importantes, como a vida em Londres, Nova Iorque e o regresso ao Rio de Janeiro. Sobre a obra, mostrada, fala-nos com paixão, sobre a criação dos objectos, como os parangolés e os penetráveis, sempre a partir de uma ideia.

Nas memórias do artista falecido em 1980, surgem nomes como Bressane Neville d’Almeida, na área do cinema. Incontornavelmente, passamos pelo Tropicalismo, movimento ao qual deu o nome com uma obra sua. Como diz o próprio, este não era só o nome de uma obra mas toda a afirmação de um movimento artístico que  teve maior expressão na música, com os nomes e as figuras de Caetano Veloso e Gilberto Gil a surgirem também naturalmente.

helio_oiticica_17

Um retrato muito conseguido graças aos materiais utilizados, como as tapes, “historical tapes“, como refere Oiticica, gravações de pensamentos e ideias enviadas posteriormente a outros artistas. Ideias sobre arte, liberdade sexual e política expostas sem filtros, ligando o homem e a sua arte, tudo muito bem conjugado por César Oiticia Filho.

8/10

Olhu Nu

 Na abertura da secção Heart Beat e com uma sala cheia foi exibido o filme de Joel Pizzini que, apesar do título, não nos deixa com a sensação de termos visto Ney Matogrosso através de um olho totalmente nu. O filme procura apresentar o cantor brasileiro em duas vertentes, como artista e performer e num outro nível, simplesmente como homem. Entre avanços e recuos cronológicos, temos imagens da sua carreira e actuações, assim como imagens da actualidade, reflexões do próprio e da sua mãe e um elemento importante em todo o filme, a Natureza.

olho nu

Repetindo o mesmo esquema narrativo de intercalar imagens de arquivo e actuações com imagens da actualidade, sentimos por vezes que o filme poderia ficar por ali.

Descobrimos ou  simplesmente reforçamos a ideia de que Ney Matogrosso é uma figura de muito interesse, ele próprio que também se assume como “uma consequência do Tropicalismo”.

7/10

Em comum, Hélio Oiticica e Olho Nu têm o facto de serem retratos, de artistas brasileiros de alguma forma associados ao movimento do Tropicalismo e nos quais encontramos alguns pontos de contacto. Dois filmes que são também, cada um à sua maneira e com algumas semelhanças, odes à liberdade à abolição do preconceito.

*Por opção da autora, este artigo foi escrito segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945

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