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Darkside – Psychic

Há muito que Nicolas Jaar, pelas suas abordagens peculiares e minimalistas à house e ao techno, é um nome quase unânime no panorama mundial da música electrónica. E para isso foi precioso o enorme contributo de Space is only Noise, o registo mais aclamado do músico norte-americano com raízes chilenas. A priori, podíamos já ter como garantia que qualquer coisa que saísse com a sua assinatura não ia defraudar expectativas. Acontece que a ele se juntou Dave Harrington, um senhor que, até à edição de Psychic, o primeiro álbum da dupla, não passava de um mero desconhecido. É mesmo certo: independentemente de como, com quem ou quando, Nicolas Jaar parece nunca desiludir.

Agora a novidade: Psychic não é uma simples confirmação de toda esta premissa; Psychic é, muito possivelmente, o melhor registo longa-duração com o dedo de Nicolas Jaar. A house continua a ser abordada timidamente, como sabe melhor ouvi-la num sítio que não numa pista de dança, e o toque de Dave, nesse aspecto, foi crucial: há mais instrumentação do que aquilo a que Jaar nos tinha aclimado, há trabalho de guitarra lá pelo meio, há batidas que se tentam esquivar dos caminhos mais electrónicos e que soam menos sintéticas, mais reais, tal como um dia os Boards of Canada fizeram com The Campfire Headphase (embora estes últimos tenham optado por uma estética mais chillout, calma e ambiente). Existe também uma panóplia de instrumentos bastante diversificada, desde saxofones a pianos eléctricos, que ajudaram ao conceito de Psychic.

Porém, a densidade conseguida pelos snares, claps e cymbals, que acabam sempre por estar em primeiro plano na génese musical, faz com que alguns pormenores nos acabem por passar ao lado: em primeiro lugar, nota-se uma certa aproximação àquilo que tem definido James Blake como um dos mais talentosos artistas da sua geração. Ouça-se Freak, Go Home e o seu jogo de batidas a la Voyeur. Greek Light, talvez a canção mais concreta na sua real acepção, reflecte uma soberba precipitação de teclas e uma melodia brilhante que fazem com que esta seja talvez a canção mais bela, memorável e de mais fácil digestão do disco. Contudo, acaba por funcionar com uma mera ambiência para o desenlace do disco, feito por Metraton. Note-se que até nas ambiências o disco é soberbo, então.

Avaliando o disco pelas peças, urge dizer que Psychic não tem nenhuma discrepância entre si; todas as suas músicas são de uma categoria invejável. É certo que há momentos mais belos que outros, como Freak, Go Home, o prelúdio alongado, que até se pode entender como uma compactação daquilo que se pode esperar de Psychic, Golden Arrow, a vontade de dançar que nos desperta The Only Shirne I’ve Seen, a sinistra e baladeira Greek Light e Metatron, que quando se começa a reproduzir até nos pode trazer à lembrança os nossos Orelha Negra. Mas a mais pura das verdades é que é quase impossível olhar para Psychic e apontar-lhe defeitos.

O que mais me espanta neste disco? É que ainda existem pessoas que se contentam numa hipotética discoteca a dançar o Random Acess Memories (podem ler a crítica do grande João Morais ao disco aqui), dos Daft Punk ou o Settle, dos Disclosure. Quando dançamos queremos sentir a frescura da música, queremos sentir que ali, tal como na pista, sentem-se as suas vibrações, a sua magia e a sua energia; isso não se consegue através das memórias daquilo que se fez outrora, ou através daquilo que outros têm já vindo a fazer (e melhor!), consegue-se através do próprio engenho, da visão do que está e do que pode dali vir. A abordagem à música dançante é ligeira, mas os Darkside, (semi) inconscientemente, edificaram um dos melhores discos de dança dos últimos tempos.

Nota final: 9.3/10

*Artigo redigido, por opção do autor, ao abrigo do acordo ortográfico de 1945

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