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Portugal Fashion: O rescaldo do primeiro dia

O Portugal Fashion teve início no passado dia 23, na estação de metro do Cais do Sodré. Sob o signo dos azulejos de António Dacosta, desfilaram, primeiro, as propostas dos jovens designers do BLOOM e depois Storytailors. A Estufa Fria de Lisboa recebeu as coleções seguintes, de TM Collection by Teresa Martins e Alves/Gonçalves.

Com um atraso considerável, o evento começou com a apresentação das coleções de Andreia Lexim e Gonçalo Páscoa. Andreia virou a página e das dobragens, riscos e rabiscos surgiu uma coleção cuja modelagem derivou da dobragem do papel. Dos moldes neste material passou aos moldes em tecido. Destacou-se o padrão, uma profusão de riscos azuis, e um debate entre a estrutura e a descontrução das peças, sendo que as mais clean e minimalistas foram as que resultaram melhor em desfile.

Gonçalo Páscoa estreou-se em nome individual (já havia participado na recente edição do Sangue Novo na ModaLisboa Ever.Now, através da HIBU). Com Astroman, o designer lisboeta misturou os códigos base do sportswear e do streetwear para criar uma personagem, um astronauta, um herói, como o descreve. Apostando em diversas layers e num espectro de cores reduzido, quase circunstancial, criou peças despojadas e descontraídas, onde se nota um intenso trabalho sobre a silhueta, num jogo de assimetrias, de camadas fluidas em malha e de paineis estruturados criados pela borracha transparente.

Gonçalo Páscoa estreou-se em nome individual. © Maria Meyer

Continua a colaboração com Conan Osiris, dos Powny Lamb, na banda-sonora, como já havia acontecido no desfile da HIBU, e o tema pode ser ouvido aqui. Para os mais desatentos, esta dupla mistura eletrónica com kuduro e outros géneros musicais e tem sido presença regular em eventos de moda, desde o DEMO 2013 à ModaLisboa.

Após a pausa, a passarela recebeu a coleção que melhor se prendia com o tema do certame, Abstrart. Depois do sucesso da apresentação de Uncountable no DEMO 2013, O SIMONE complementou a coleção com novos coordenados e acessórios. Com perspicácia, o ruído das impressoras offset soou na estação para acompanhar uma coleção onde sobressai a estrutura numa abordagem superficial e que surpreende numa observação detalhada. Todas as peças são criadas a partir de uma única peça de material, todos os cortes foram efetuados a laser e as costuras dão lugar a argolas de encadernação e sistemas de encaixe. Fernando Domingues, o designer por trás do alter-ego que dá nome à marca, expõe desta forma uma reflexão irónica sobre o sistema de moda atual, sobre a tendência fast, a massificação e consequente perda de significado dos produtos.

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Elos de ligação cortados a laser compõe a estrutura deste vestido de O SIMONE. © Maria Meyer
Detalhes de Uncountable, de O SIMONE. © Maria Meyer

João Melo Costa foi o designer que se seguiu. Depois da festa, a volubilidade serve de reflexão. E é isso que o designer nos dá a entender quando procura em cada elemento dessa “festa” uma ausência que motive um novo caminho a seguir. Assertivo na procura de uma silhueta clara e relativamente linear, o cinza e o branco dão lugar a brilhos ligeiros, transparências e, a meio, o estampado que remetia para o fogo de artifício e aplicações a reproduzir a mesma forma. As cores fortes, o vermelhão, o laranja e o rosa são novamente atenuados com tonalidades de cinzento a terminar a coleção.

Os bastidores de João Melo Costa. © Maria Meyer

Ainda na Estação, desfilou a coleção da dupla Storytailors. A comemorar dez anos de existência, dedicaram a Lisboa, à sua luz e à sua feminilidade esta coeção que, sem surpresas, nos trouxe mais corpetes, folhos, tule e outros elementos do ADN da marca. A iconografia da cidade não foi deixada de lado, desde as figuras religiosas aos pássaros.

Sob um intenso temporal, não foi fácil chegar à Estufa Fria. TM Collection começou com uma performance: bailarinos pegavam em peças suspensas por fios e envergavam-nas em camadas, ao mesmo tempo que dançavam com a simplicidade e alegria de quem encontra a sua segunda pele. É este o tema desta coleção que apela ao regresso às origens. Teresa Martins apresenta, uma vez mais, um trabalho onde o carácter artesanal e a unicidade das peças assumem o papel de maior relevo. Sem rodeios, a designer volta a apostar num look deliberadamente campestre, que se traduz em silhuetas largas, soltas e de cair reto ou fluido, numa espiral de cores fortes e de padrões bucólicos ou geométricos e acessórios de notória qualidade.

O trabalho de Teresa Martins é imediatamente reconhecível, quer pela estética fortemente diferenciada dos restantes designers portugueses, quer por colocar em debate questões como a intemporalidade do design, a feminilidade e a sensualidade.

O backstage de TM Collection by Teresa Martins. © Maria Meyer
Rica em padrões e texturas e a apelar a um senso pela naturalidade, Teresa Martins apresentou a coleção SecondSkin na Estufa Fria de Lisboa. © Maria Meyer

A sala compôs-se de editores, stylistsbloggers e celebridades para receber aquela que é uma das duplas consagradas da moda nacional, Alves/Gonçalves. Silhuetas longuilíneas com um twist desportivo dialogam com peças amplas e rodadas, de cores intensas, padrões de inspiração étnica e florais estilizados. A enveredar por um registo mais artesanal, pouco habitual na marca, as peças mais esguias exibiam ricas texturas criadas pela aplicação de cordões de algodão, por vezes balanceados com atilhos e outras passamanarias, numa insinuação de feminilidade latente. Na vertente mais desportiva ou de pendor mais clássico, a dupla manteve um apelo fulgurante à cor, ao corpo da mulher e mantem-se impecavelmente chique e elegante.

Milena Cardoso nos bastidores de Alves/Gonçalves. © Maria Meyer
Fora do registo habitual, Alves/Gonçalves piscaram o olho a uma abordagem mais naturalista e artesanal e a apelar à readaptação de alguns materiais, como o cordão de algodão. © Maria Meyer
Textura, brilho e padrão, tudo reunido num único coordenado, por Alves/Gonçalves. © Maria Meyer

A escolha dos locais foi surpreendente e a Estação de Metro do Cais do Sodré revelou-se um bom espaço para este tipo de eventos, contemporâneo, dinâmico e desafogado. A Estufa Fria, apesar dos acessos difíceis em dia de chuva, também acolheu bem o evento e, em ambos os locais, o ambiente acolhedor e quase familiar nos bastidores conta muito na boa imagem que este certame mantem junto da imprensa e convidados.

O resto do evento decorre no Porto, com várias iniciativas simultâneas aos desfiles, como o showroom colectivo Brand Up.

Fotografias de Maria Meyer, em exclusivo para o Espalha-Factos.

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