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Plane Ticket: uma banda com a cabeça nas nuvens

O Espalha Factos esteve à conversa, em terra firme, com os Plane Ticket, banda indie rock de Torres Vedras que toca no Bacalhoeiro amanhã, dia 26, e que acaba de lançar o seu primeiro longa-duração, Currents.

Os Plane Ticket são uma cambada de rapazes – Leonel Nunes (bateria), Pedro Manuel Silva (guitarra e voz), João Matias (baixo e voz) e Filipe Damil Vicente (guitarra e voz) – que, de camisas de flanela e gazelle nos pés, se conheceu nos tempos do liceu, nos idos noventas. Em 2011 decidiram juntar-se para “escavacar guitarras”. Reforçam a liberdade criativa e a paixão pela música e não negam a sua ligação ao passado como influência na forma como estão perante a música.

Depois do primeiro EP, Under The Quiet Sky, lançado pela editora independente Cakes & Tapes em 2012, lançaram em agosto último Currents, com o mesmo selo.

Espalha Factos: Como é o “dia-a-dia” dos Plane Ticket (processo criativo, ensaios, gravações, concertos)?

Pedro: Uma luta constante para agendarmos o tempo em que estamos todos juntos: cerca de duas vezes por semana, num total de cinco a seis horas. Os ensaios e a criação partilham o mesmo espaço temporal. É nos ensaios que surgem as novas ideias e ainda bem que assim é, estamos todos envolvidos desde o primeiro instante em que nasce uma nova canção. Na prática acabamos por fazer tudo ao mesmo tempo (criar, ensaiar, gravar e dar concertos), da forma mais equilibrada possível.

Leonel: A banda ensaia duas vezes por semana, numa lógica de assegurar repertório. Nas sessões basta uma progressão de acordes inspirados, seja de guitarras ou baixo, para que surja uma melodia, capaz de desenvolver uma estrutura básica, para que assim se defina um novo tema. Habitualmente, as letras chegam depois da música e, em grande parte, ficam a cargo do Pedro e do Filipe.

Filipe: As sessões de trabalho são como uma pequena fábrica familiar que tem uma reserva de matéria-prima sonora por transformar, algumas canções semi-acabadas e outras canções já na fase de embalagem para entrega ao público. Temos, ainda, o departamento de investigação e desenvolvimento, que trata de criar protótipos que poderão nunca ver a luz do dia mas nos dão um gozo tremendo.

João: Procuramos mostrar a nossa música ao vivo sempre que possível e essa é a razão do nosso constante ziguezague entre a sala de ensaio, o estúdio – onde o Luís Santos funciona como importante quinto elemento na produção – e os palcos/pistas/quintais que nos recebem. Os concertos são o momento em que podemos veicular ao vivo a nossa música. A nossa parte preferida é carregar e descarregar todo o material, especialmente quando há escadarias pelo meio.

EF: Têm feito viagens low cost e de pequeno curso, ou seja, em pequenos espaços locais e a preços simbólicos. Este percurso é fruto do país e das políticas culturais que temos, das vossas próprias vidas ou simplesmente é assim que querem estar? Ambicionariam passar das pequenas salas locais para abrir para bandas ditas grandes ou para tocar num grande festival ou até mesmo no estrangeiro?

J: Curiosamente, à nossa escala, o primeiro voo foi de longo curso, até Vila Verde, Braga. Já tocámos em festivais de menor dimensão, como o SomFest ou o Santa Summer Sounds, cujo espírito foi excelente, onde tivemos oportunidade de partilhar o palco com Linda Martini, The Bourbons e Capitão Galvão. Tendo em conta que ainda não temos uma estrutura de apoio/promoção consolidada, a nossa polí tica de faz-tu-mesmo tem tido resultados interessantes que nos permitem considerar que temos feito um percurso equilibrado e ascendente, desde 2011.

P: Acabámos de completar dois anos de existência. Somos uma banda jovem que se vai conhecendo a si própria e conhecendo o meio cultural/musical envolvente. É uma trajectória natural, de melhoria contínua, sem dar excessiva importância às políticas e estruturas exteriores. Queremos fazer sempre mais e melhor, de modo a chegar o mais longe possível. Não temos qualquer complexo em afirmar que queremos ser reconhecidos e valorizados.

F: A negação da vontade de abrir um concerto de um nome com maior notoriedade seria uma tolice ou, em limite, uma tomada de posição de carácter pretensioso. Esse nome não precisa de estar nas listas de melhores do ano, basta ser um nome com quem a partilha do palco signifique um passo acima no crescimento da banda. Se a malta de Deerhunter estiver a ler isto, já sabe.

L: A promoção vai acontecendo através das redes sociais, óptimo motor para agendar datas em espaços que nos queiram acolher, que queiramos conhecer e até onde consigamos comportar a despesa de deslocação.

EF – O mesmo em relação à edição. Têm contado com o apoio da interessante Cakes & Tapes mas seria importante passarem para uma editora maior? Acham que isso poderia comprometer o tipo de música que fazem, ou não receiam isso? Por exemplo, partilharem o disco para download gratuito se calhar teria de ficar fora dos planos… O que mais vos apraz é mesmo que vos oiçam ou gostavam de fazer disto carreira profissional?

F: Seja qual for a forma de criação, é importante, para quem cria, ter uma estrutura de apoio e de retorno que traduza a importância ou significância da sua actividade criativa. Não há qualquer receio de integrar uma editora que nos permita fazer a música que gostamos de fazer, que nos possibilite realizar mais concertos e alcançar mais público, desde que não constitua um obstáculo à nossa criatividade, por força das leis de mercado. Do mesmo modo, também não negamos que gostaríamos de ter a colaboração de uma promotora para nos apoiar em alguns golpes de asa.

J: No contexto independente, a Cakes & Tapes do Diogo Soares Silva tem sido um óptima parceira. O nosso plano de voo sempre teve como suporte a vontade de mostrar canções. Quem estiver do nosso lado, seja editora ou promotora, terá sempre de ter presente que os concertos são a parte mais importante na vida da banda, na medida em que reflectem, para quem nos ouve e vê ao vivo, todo o trabalho colectivo de bastidores.

L: O apoio que tem havido, tem sido bem vindo. Seria óptimo poder contar com maior apoio, com verbas para investir na música e na promoção! Por agora, vamos seguindo o nosso trajecto, sem pressões ou demasiadas preocupações. Vamos conjugando todas as nossas realidades com a nossa música.

P: Até à data temos contado com o apoio da Cakes & Tapes – à qual estamos inteiramente gratos –, mas não fechamos portas a um eventual interesse de uma dita “editora maior”. Estamos conscientes dos riscos e vantagens inerentes a uma ligação contratual com uma editora maior, mas tudo se negoceia!

EF: Há algumas referências claras no vosso trabalho, sobretudo do som dos anos 90. Quais são os nomes que mais vos marcaram? E em termos de bandas mais recentes o que andam a ouvir?

L: Sem dúvida que a referência do rock dos 90 se faz ouvir nos temas. Cada um de nós tem múltiplas influências, havendo talvez a confluência no rock alternativo ou indie, como cada um queira designar. De qualquer modo, a título de curiosidade, posso referir Stone Temple Pilots e Faith No More como nomes que acompanho há muito tempo e discos de Daft Punk e The Doups como audições mais recentes.

J: Grande parte das nossas referências sonoras são norte-americanas. No meu leitor de discos, Soundgarden e Smashing Pumpkins foram presenças frequentes que continuam a ter o seu espaço. Recentemente tenho escutado discos de Daughter e The Villagers.

P: O final da década de 80 e os anos 90 correspondem, de certa forma, ao nosso despertar para a escuta musical. Sem dúvida que uma grande parte das minhas influências musicais se centram nesse período e no universo da altura, como Jeff Buckley ou Alice in Chains. A nossa sonoridade rock revela isso mesmo, não se inclui no campo do rock tradicional. Quanto a bandas recentes: para ser sincero, não ando a ouvir muitas novidades musicais de momento. Embora possa referir Cloud Nothings e Damien Jurado como escutas recentes, talvez ande mais ocupado na redescoberta das bandas do passado.

F: Na minha perspectiva, as referências musicais com que fomos crescendo, principalmente, nos anos 90, marcam sobretudo pelas camisas de flanela e pelas guitarras escavacadas. Pavement é uma das minhas referências, Belle and Sebastian é um vício, acompanho desde 2004 o trabalho dos The National e às vezes apetecia-me ter o talento de Bill Callahan.

Os Plane Ticket tocam amanhã, dia 26 de outubro, no Bacalhoeiro Cooletivo Cooltural.

Podem ser seguidos aqui:

Facebook da banda
https://www.facebook.com/planeticket

Bandcamp
http://planeticket.bandcamp.com

Canal no YouTube
http://youtube.com/PlaneTicketOfficial

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