O mau tempo ameaçou tramar as primeiras duas noites de Festa das Latas de Coimbra, mas o céu compôs-se a tempo dos concertos de La Roux, Tiago Bettencourt e Quinta do Bill e dos saudáveis excessos de sempre. Mesmo sem grandes exuberâncias, temos Latada.

Sexta-feira: choveu copiosamente durante grande parte da tarde na “cidade dos estudantes” e, ao início da noite, parou. No dia a seguir, a história das nuvens foi praticamente igual. Feitas as contas, foi só mais um pretexto para se prolongarem as jantaradas em casa, patrocinadas pelo supermercado mais próximo. Nunca há pressas, porque a noite é longa e o difícil é convencerem-nos a abandonar o recinto.

Por mais qualidades que se reconheçam em La Roux, há poucas razões para que se ache ser uma boa aposta para um evento destes. E isso ficou provado pelo facto de o concerto ter passado ao lado de grande parte dos estudantes. Tudo bem que é dançável, mas faltam momentos e refrãos galvanizadores, que façam qualquer um abandonar a conversa que está a ter com o amigo novo para ir lá para a frente lutar por um bom lugar. O renascido Tiago Bettencourt conseguiu esse feito: a Canção de Engate era o icebreaker ideal para o início de uma noite de sucesso e atrás dela vieram a Carta, Os Dois ou Canção Simples. Ali, Tiago Bettencourt não foi o artista incompreendido de sempre, mas antes um catalisador de vontades.

Quinta do Bill não vi. Nada, mesmo. Nem sabia que ainda existiam. Por essa hora a tenda electrónica já estava ao seu melhor nível. «1, 2, 3, 4, água de coco» passou umas 20 vezes, mas até se tolera, porque é a da moda. Mas os sets dos dois dias terem sido praticamente iguais é que já causa alguma impressão. Quase tão repetitivos e cansativos foram os autocolantes de pré-campanha para as eleições na AAC. Mobilizemo-nos: temos de ser mais exigentes, mesmo quando estivermos todos encharcados.

Sou suspeito neste reparo, porque não sou estudante de Coimbra, mas vou tentar argumentar com fundamento: sempre que se fala em Coimbra, a primeira expressão que vem ao barulho é “tradição” – a seguir, vêm as histórias do espírito sem igual e do choro das baladas. Mas as tunas atuam perante uma tenda muito despida e, ao mesmo tempo, as atenções centram-se todas nos DJ‘s. Em que ficamos? É que às seis da manhã passam a Balada da Despedida, para picar o ponto e num tom condescendente, mas houve guitarras a gemer durante toda a noite e poucos quiseram saber.

As capas é que já não são só negras de saudade. Mesmo os mais optimistas hão-de concordar que, apesar da confusão habitual, a afluência deste ano está a ser bastante modesta. A parte boa é que se torna mais fácil subir para os balcões dos cursos, mas nem em jeito de piada isso faz esquecer o estado a que estão a confinar o Ensino Superior e os estudantes em Portugal. Há menos alunos e menos alunos com disponibilidade orçamental para viver um dos momentos mais especiais do seu calendário académico.

Durante a tarde não há problemas para encontrar estacionamento e cadeiras de esplanada na Praça da República ou no Largo da Portagem. É quase mecânico: a malta acorda tarde e entra num retiro tal que só volta a ver a rua à noite. Por estes dias, o sol é dispensável para os lados de Coimbra.

*O autor esteve na Festa das Latas e Imposição das Insígnias enquanto espectador, sendo este artigo de opinião um reflexo disso mesmo e não um trabalho de reportagem.