indignu banda 2013

Indignu – Odyssea

Longínquos vão os tempos em que os Indignu existiam sob a forma de Fetus In Fetu, onde salientavam a preocupação das guitarras em distorcer-se, em conferir um certo tom “shoegaze-y” à sua música sem nunca se esquivarem daquilo que lhe dava vida: a fome de intervir (canções como Duzentas promessas para um mundo melhor servem de máxima a esta premissa) e um post-rock digno de, por exemplo, uns God is an Astronaut – banda que, curiosamente, teve os próprios Indignu a abrirem para eles no Hard Club muito recentemente. 

Talvez o cruzamento entre os dois se tenha dado tardiamente; os God is an Astronaut mantêm-se iguais a si mesmos, sempre munidos de paletes de pedais e a comporem um post-rock que, embora seja interessante, não chega, comparando com outras obras do mesmo estilo, à arte de uns Explosions In the Sky, Mogwai ou até mesmo de uns Caspian. Quanto aos Indignu, esses, mudaram bastante sem, para isso, terem saído do seu habitat: se outrora as muralhas de distorção capitaneavam o rumo que a sua música tomava, hoje em dia são, sobretudo, os violinos que o fazem. O mar mantém-se intacto e agitado: ainda é na ondulação do post-rock que os Indignu se sentem melhores. Ainda bem: escrevem-nos agora a sua própria Odyssea.

Olhar para um violino como catalisador vital de ambiências e crescendos do movimento post-rock não constitui novidade nenhuma; não é por acaso que nomes como Dirty Three, os canadianos Godspeed You! Black Emperor (que, dada a sua magnitude política, até parecem ter incutido parte da sua filosofia nestes bracarenses) ou os nipónicos Mono se apoiam na sua ambiguidade para compor. Nos Indignu o caso é similar: há violino nos momentos mais doces e ambientes, mas também o há quando a música rebenta em crescendos dignos de obras como Lift Your Skinny Fists Like Antennas to Heaven, dos próprios GY!BE, ou Maar, de The Evpatoria Raport.

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Além do violino, a panóplia instrumental que foi empregue em Odyssea faz com que os Indignu se aproximem, hoje, de uma “quase orquestra”: há violas d’arcos e violoncelos a fazer o chamariz às composições mais clássicas, há guitarra portuguesa, bem audível em Caravela na ponta dos dedos (que outro simbolismo poderia ser utilizado para introduzir uma guitarra portuguesa que não o de uma caravela?) a conferir um toque bem português, à maneira mais habitué, espalhando-se saudade e tristeza, à sua música.

E nas pontes ligantes de tudo isso continua a permanecer lá aquilo que mais nos siderou nos Indignu em 2010, aquando da edição de Fetus in Fetu: o exímio tratamento que se faz na guitarra. Continua a haver distorção (e shoegaze), ainda que tímida, mas a preocupação actual do quinteto já não passa por fazer barulho ou por edificar muralhas de distorção infindáveis. Os tempos são outros, já nem sequer adianta pregar contra a máquina consumista que nos vai comendo a cada dia; a necessidade de parar para reflectir e ver o que se pode fazer futuramente talvez seja maior e mais urgente do que martelar aquilo que é já um dado adquirido. Odyssea só vem vincar isso, reafirmando os Indignu como reis do trono do post-rock nacional e provando que aqui reside um dos grandes álbuns do ano.

Nota final: 9.0/10

*Artigo redigido, por opção do autor, ao abrigo do acordo ortográfico de 1945

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