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Bangerz: o grito de Ipiranga de Miley Cyrus

Para elaborar Bangerz, Cyrus mudou de editora discográfica (RCA Records), de estilo visual, de atitude e, principalmente, de dança. Introduziu o twerk às massas, fazendo tremer a web com demasiado rabo a mexer. Artigos intermináveis sobre as atuações, as polémicas fotos e as escandalosas atitudes de Miley. Pôs toda a gente a falar dela e, com isso, conseguiu que Bangerz chegasse ao 1.º lugar do top de vendas.

Após toda a polémica (ruído), assim que a poeira assentou – obrigado Ivete Sangalo? -, ouvi o novo álbum de Miley Cyrus. Sim, pessoas, a profissão dela está relacionada com a música, não com alegrar os vossos dias com mais .gifs epiléticos. Nesta tentativa de alcançar um distanciamento crítico de todo o buzz criado à volta de Cyrus, aqui vai também uma tentativa de opinião ao seu novo trabalho.

Adore You dá o pontapé de saída: uma envolvente balada que nos leva a escutar o lado romântico e frágil da Miss Twerk. A sonoridade é simples, quase zen, o que resulta numa Cyrus libertada do ritmo alucinante que domina este independente disco. Este início calmo é logo interrompido pelo hino à festa: We Can’t Stop já ecoa na mente, apodera-se de nós e, apesar de extremamente catchy, não deixa de ser uma excelente música pop. Provocadora como a intérprete, esta canção é um verdadeiro hino aos festejos mas sobretudo à liberdade: “Hands in the air like we don’t care/Cause we came to have so much fun now“.

Britney Spears faz a sua aparição em SMS (Bangerz) e, tal como seria de esperar, esta é a música mais pop do álbum. Miley experimenta o rap à medida que nos revela… isto:“they ask me how I keep a man, I keep a battery pack”. Desinteressante e monótona, SMS é para ouvir uma vez e passar à próxima. Bem mais interessante é a quarta faixa, 4×4, em que Miley se junta ao rapper Nelly para dar um grito feminino: “I’m a female rebel, can’t you tell?” Um refrão viciante e um instrumental com ritmo e bem construído dão um sabor especial a esta 4×4 – logo vi que isto era obra do Pharrel Williams. Em seguida ouvimos uma das melhores músicas de Bangerz: o rapper Future alia-se a Cyrus para um My Darlin’ bastante inspirador. Uma canção para ouvir várias vezes, não fossem estes dos melhores vocais do disco. Miley também é simplicidade: “Why don’t you stand?/Stand by me/Oh my darlin’/Stand by me”.

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Wrecking Ball dá continuidade ao álbum: tem força mas não me convence (então ao vivo, tirem o microfone de frente da moça). Já a continuidade da vida intensa de Cyrus é metaforizada por Love, Money, Party. Certamente repetitiva e irritante para alguns, mas este tributo à irreverência não me desagrada, assim como a presença de Big Sean. Mais uma boa vibe produzida por Pharrel a caminho: #GETITRIGHT é aquilo que pretende ser, certo? “Don’t you want to feel this fire before it’s gone”. Cheia de lugares comuns e demasiado balada americana, Drive não traz nada de novo, é irrelevante neste Bangerz (menos a parte em que a jovem diz “been there, done that”, porque isso nós sabemos, não é “Molly?” A próxima música, FU, junta Miley a Montana

Calma: junta Miley a French Montana. Uma boa sonoridade mas, mais relevante do que isso, são os bons vocais de French e Cyrus que resultam muito bem. Logo de seguida, para se declarar 100% independente, Miley Cyrus atira uma hipnotizante Do My Thang: “Bang bang/I’mma shoot ‘em down baby/Look at me, I’m high up off the ground baby” – pode até ser uma espécie de guilty pleasure, mas não deixa de ser uma das melhores do álbum. Maybe You’re Right é a penúltima canção de Bangerz e a mais esganiçada da cantora. Sofrimento não só da intérprete como de quem ouve. O álbum termina com uma reciclagem inteligente da Who Owns My Heart. A última faixa, Someone Else, avança com o último suspiro de Cyrus – um final satisfatório ao som de “I’ve turned into someone else” porque, na verdade, esta foi a grande conclusão de Bangerz.

Miley Cyrus, a independente, é outra pessoa. Não é a filha de Billy Ray Cyrus, cantor country. Não é a célebre Hannah Montana. Não é a Miley adolescente. É a Miley Cyrus mais humana do que nunca, não fabricada, cheia de erros e sofrimentos, cheia de alegria e festejos – o paradoxo que Bangerz encarna.

Nota final: 7/10

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