Era um temporal, mas não era um temporal qualquer. A enxurrada que assolou Lisboa durante algumas horas, na noite passada, foi um presságio do que se viria a passar no Music Box. Um autêntico cabo das tormentas regido por quatro guardiões de cajado na mão, a quem podemos chamar de adamastores. The Haxan CloakDarkstarJames Ferraro Niagara protagonizaram a noite mais psicadélica do Jameson Urban Routes até ao momento. O ambiente ideal para pactuar com o demo. 

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Comparativamente à noite pretérita, cresceu a afluência de público, o qual, claramente, sabia para o que ia. The Haxan Cloak iniciou debaixo de um jogo de luzes impróprio para epiléticos. Autor de uma eletrónica mórbida, Bobby Krlic fez estremecer os pilares do edifício. O epicentro do sismo veio da maquinaria do britânico, que permanentemente exalava samples firmados na enfatização dos graves, num registo profundamente catártico. A estrutura linear e rígida das composições, completamente despida de elementos melódicos ou vocais, não pareceu intimidar e, muito menos, desagradar os presentes.

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Um som sórdido e nada dançável que, no fundo, é produzido para fritar literalmente a pipoca. Proporcionou-se um ambiente macabro, poluído pela alucinação dos corpos em estado corruptível. Em alguns casos, urgia um exorcismo. Poderia ter sumariado tudo isto da seguinte forma: quase uma hora de um berbequim a atravessar o meu crânio. Contudo, como fui o único a não ser endrominado, não posso dizer que tenha sido mau. Talvez esteja mal acostumado. Talvez não tenha um ouvido ensinável quando se trata de música inconvencional. Eu entrei sadio e saí com uma enxaqueca, Bobby Krlic entrou mudo e saiu calado.

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Darkstar veio amainar o caos e facilitar a navegação no cabo. Ainda assim, o odor a negrume não desapareceu. O trio bretão desembainhou uma eletrónica com um semblante mais poppejada de efeitos de ecos e delay. Foi ao som de Deadness que se viveu um dos momentos de maior musicalidade, muito por culpa do timbre versátil do vocalista de Darkstar. Conforme a ocasião, a sua voz poderia alcançar um registo mais angelical ou outro mais viril. Talvez a explicação para o paradoxo da “estrela negra” resida no contraste entre essa voz que reluz e o seu meio de inserção, inequivocamente cheio de trevas.

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Seguiram-se James Ferraro Niagaranuma toada mais ligeira, mais colorida e, sobretudo, mais facilmente degustável. A música regressa já esta noite, no quarto dia de Jameson Urban Routes, com Octa Push, The Field, Romare e Ramboiage.

Fotografias por Ana Caeiro