Se na noite anterior mal tínhamos espaço para respirar, num MusicBox a rebentar pelas costuras, no segundo dia do Jameson Urban Routes, a sala lisboeta nem a meio-gás chegou. O que dizer quando assim é? Bem, quem não foi é que ficou a perder. Mesmo às moscas, e apesar de mais contida, a festa da música urbana moderna prosseguiu.

Trinta e três vírgula três três três (por aí a fora): foi esta a percentagem de X-Wife a que tivemos direito ontem à noite. Na pele de White Haus, uma das três que está habituado a envergar, João Vieira esteve a borrifar-se para a falta de público. «Podem dançar à vontade. Imaginem que estão numa sala cheia de gente a suar, às cinco da manhã, em Ibiza». De facto, a dimensão da pista era tentadora para aqueles que gostam de guardar o pudor no bolso das calças. Pelo menos, era quase certo que ninguém levaria cotoveladas, o que só de si já é satisfatório.

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João Vieira foi ali para ligar o MusicBox à tomada. Brincou com a robotização da voz, tratou o sintetizador como se de um set de percussão se tratasse e usou e abusou do registo agudo e pseudo-efeminado que lhe é intrínseco. How I Feel mostrou como se faz um bom refogado de ingredientes electro. «Vamos cagar para o computador e tocar na mesma», atirou o frontman dos X-Wife, após alguns minutos a esgrimir com a tecnologia de ponta, que sucumbiu mesmo antes da última música. A destemidez da afirmação valeu-lhe a aprovação entusiástica do pouco público. A forma como fecharam demonstrou que a criatividade humana se sobrepõe à artificialidade da máquina.

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A irreverência da britânica Victoria Hesketh não chegou para compor mais a plateia. Ainda assim, foi o segredo para desenferrujar as pernas. Victoria, aka Little Boots, trouxe-nos a Discotheque pura e dura. Teria sido uma ótima alternativa para os que normalmente avançam um bocadinho mais na Avenida 24 de Julho, nas noites loucas de Lisboa. Um autêntico live show, enriquecido pela onda dance e por um DJ set eclético e nada austero. A predileção pelos vocals ao vivo dá um outro brilho à performance de Little Boots DiscothequeConfusion Shake, temas do novo trabalho de Victoria (Nocturnes), foram levadas à letra pela assistência, que procurou dissipar as dúvidas da britânica, quando esta gritava repetidamente «Lisboa, vocês estão a curtir?».

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Pelo menos 50 anos. Aquele homem que se abanava como se não houvesse amanhã tinha pelo menos 50 anos. A mulher dele parecia mais jovem, mas não lhe ficava atrás em matéria de descontração. A forma como dançavam convenceu aqueles que os fitavam boquiabertos, que a pouco e pouco também se foram deixando levar. Talvez por isso Litte Boots tenha erguido a taça de vinho branco na nossa direção. Sentiu-se um vazio quando deixaram o palco.

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A noite continuou ao som de Xinobi e mais tarde de Mário Valente, que colmatou o cancelamento do belga Child of Lov. O Jameson Urban Routes regressa já esta noite com James FerraroDarkstarThe Haxan Cloak Niagara. Os concertos começam por volta das 23:00h. O custo de entrada é de 13€.

Fotografias por Ana Caeiro.