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À conversa com Noiserv

Dezoito horas, escadinhas da Rua Ivens. Três animadas raparigas fumam um charro enquanto falam, de forma despudorada, dos detalhes das suas vidas sexuais (bem aventurados sejam, anos 60, pela revolução sexual da emancipação feminina). David Santos, nome de “civil” de Noiserv, aproxima-se de nós para uma simpática conversa acerca do seu mais recente longa-duração, Almost Visible Orchestra, lançado de forma independente no passado dia 7. Aqui fica a entrevista, sem filtros, de Noiserv para o Espalha Factos.

Espalha Factos: A capa de Almost Visible Orchestra apresenta-se como um curioso puzzle, que nos permite múltiplas combinações de peças e resoluções. De onde veio a ideia para este packaging tão original?

Noiserv: A ideia de base para ter um puzzle veio um bocadinho daquilo que foi, para mim, fazer estas músicas e este disco. Ao contrário dos discos anteriores, em que eu ia fazendo as músicas uma-a-uma e quando acabava uma canção é que pegava na guitarra e começava a fazer uma nova, fazendo do disco uma compilação de várias músicas, neste álbum em específico eu já tinha os rascunhos destas dez músicas antes de pegar em cada uma para fazer os arranjos e a parte da orquestração. E há dois anos atrás, quando olhei para estes dez rascunhos e pensei que talvez pudessem formar um disco, o que eu senti não foi mais do que olhar para as peças de um puzzle desconstruído. Por isso mesmo, quando pensei na capa que poderia ter para o Almost Visible Orchestra, quis criar algo que fizesse com que as pessoas sentissem, ainda que inconscientemente, um bocadinho de como foi o processo de fazer as músicas. Vem sobretudo dessa vontade de criar um paralelismo com a construção deste disco, que me fez perceber que existem múltiplas combinações e hipóteses de o pôr a funcionar.

EF: Qual o significado por detrás do título e do acrónimo (AVO) que este produz?

N: O título tem dois significados. O primeiro está no nome, Almost Visible Orchestra, que é o título que eu achei que melhor se enquadraria com estas músicas, que sendo mais complexas e mais densas do que as canções dos discos anteriores, dão a sensação de terem nelas uma orquestra invisível de 50 pessoas a tocar comigo todos aqueles pequenos instrumentos. A segunda leitura, da “Avó”, intensificada pelo risquinho na placa em cima do “o” na capa do disco, tem a ver com a morte da minha avó e com o facto de o processo de criação deste disco me ter ajudado, durantes estes últimos dois anos, a aceitar isso. Mesmo sem haver nenhuma canção que fale directamente sobre isso e apesar de não ser uma temática recorrente nas músicas, acho que esse acontecimento e essa aceitação de que estas coisas têm de acontecer na nossa vida acabou por, de alguma forma, ficar dentro de todas estas músicas. Por isso, fez-me sentido arranjar um título que, para além de encaixar conceptualmente naquilo que as músicas são, também espelhasse o meu estado de espírito na altura em que fiz o disco.

EF: O que é que inspirou este disco?

N: Eu acho que é sempre muito complicado perceber o que é que inspira uma música em concreto, quanto mais um disco inteiro. Acho que, acima de tudo, aquilo que me inspira são as coisas que me vão acontecendo ao longo da vida, as pessoas que eu vou conhecendo e aquilo que eu vou fazendo. Por isso mesmo, a questão da minha avó poderá fazer parte disso, mas não é a única inspiração. Tudo acaba por ser inspiração, até o estar num sítio qualquer de férias com a guitarra a fazer uma canção e eventualmente colocá-la no disco. Por isso mesmo, não acho que haja uma inspiração nova em relação aos discos anteriores, pois acaba tudo por estar relacionado com a minha vida.

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EF: Para além deste projecto a solo, é bem sabido que o David também participa nos You Can’t Win Charlie Brown, outro nome bastante sonante na música alternativa nacional. Esse projecto paralelo tem alguma influência na música do Noiserv?

N: Há claramente uma separação; num dos projectos sou eu que tenho todas as decisões, e no outro somos seis pessoas que têm de chegar a um consenso para terminar uma música. Acho que, acima de tudo, a grande influência que pode haver é o facto de nós os seis termos estado muito tempo juntos nestes últimos dois anos. Portanto, de alguma forma, nem que seja inconscientemente, isso acabou por me influenciar. Agora, essa influência não é directa. Não houve nenhum instrumento que eu tenha começado a tocar por estar com eles, nem nada assim do género. E em termos de processos, são coisas claramente distintas…

EF: À primeira audição, este Almost Visible Orchestra pareceu-me mais “cheio” e volumoso que os registos anteriores. Houve um esforço consciente nesse sentido?

N: Não foi bem um esforço, mas sim uma necessidade minha de conseguir perceber até que ponto é que eu conseguiria “encher” as músicas sem as estragar. É um bocado complicado de explicar mas, no seguimento dos discos anteriores, e dado que eu me sinto muito mais maduro musicalmente e muito melhor ao nível técnico com todos os instrumentos que tenho, um dos desafios que eu fui formulando na minha cabeça foi de que gostaria que este disco ficasse o mais “cheio” possível, e de que as músicas acabariam quando não houvesse mais espaço para pôr mais nada. Por isso, é normal que essa necessidade que eu senti esteja presente nas músicas, que são claramente mais densas e “cheias” que as anteriores.

EF: Apesar de algumas mudanças, AVO acaba por ser a continuação óbvia do trabalho desenvolvido em One Hundred Miles from Thoughtlessness (2008) e A day in the day of the days (2010). Dedicas os teus álbuns à construção de uma identidade sonora comum, ou este percurso é fruto do acaso?

N: De facto, não há assim nenhuma ruptura. Aliás, até me parece que um disco assim mais complexo acaba por ser a sequência perfeita dos outros dois. Mas, acima de tudo, acho que [o percurso] é fruto do acaso, mas talvez o acaso só aconteça por que eu faço uma procura mais exaustiva… É difícil de explicar, mas eu não tento, de forma alguma, fazer isto de uma maneira diferente dos outros, tento apenas ser o mais honesto e coerente possível com aquilo que me soa bem e que faz sentido para mim. Ver que depois, no fim, isso acaba por criar uma sonoridade mais única deixa-me feliz, mas à partida não é esse o intuito. Mas ainda bem que depois as pessoas conseguem reconhecer que há uma identidade própria; acho que esse é um dos maiores elogios que um músico pode receber.

EF: À excepção dos convidados nas vozes da faixa nº 9 [I was trying to sleep when everyone woke up], todos os instrumentos foram tocados exclusivamente por ti. Esse feito de “auto-suficiência” musical é fruto de alguma escassez de colaboradores, ou é reflexo de alguma obsessão pelo controlo?

N: Eu acho que é mais a segunda opção. Quando isto tudo começou, em 2005, eu tinha até uma banda nessa altura e senti uma necessidade de ter o controlo total sobre algo que eu fosse fazer. E agora, com o passar dos anos, esse controlo quase que se tornou numa coisa normal e parece que já não faz sentido deixar de ser de outra forma. Pelo menos, enquanto Noiserv, o que eu faço é um bocadinho uma autobiografia. Portanto, estar a fazer mais colaborações ou a ter mais pessoas no projecto ia estragar tudo o que levou a que isto começasse. E como eu gosto de ser fiel às primeiras ideias e sensações que tenho, e como sempre gostei que isto fosse uma coisa minha, não faria sentido. Mesmo ao vivo, apesar de por vezes ser uma tarefa complicada, gosto de manter isto apenas meu. Nessa música em específico, apenas fez sentido pôr outras pessoas a acompanharem a cantar por causa do seu conceito, pois fala da importância dos outros na minha vida, não foi por uma necessidade de ter mais alguém para “encher”.

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EF: Este disco foi misturado no Reino Unido e masterizado na Califórnia. Isso faz parte de algum plano para a internacionalização?

N: (Risos) Não, não… Acima de tudo, foi uma consequência, não do acaso, mas das coisas que tenho vindo a fazer. A questão do Reino Unido colocou-se porque a pessoa que fez a mistura do primeiro disco, o José Arantes, entretanto mudou-se para lá, e eu fiz questão que fosse ele a fazer a mistura porque nos entendemos muito bem quando ele estava em Barcelos e achei que seria a pessoa perfeita para perceber aquilo que eu tinha construído no estúdio. A parte da masterização na Califórnia surgiu porque na altura em que fiz o EP A day in the day of the days tive um orçamento por parte da Optimus Discos que me permitiu poder fazer uma masterização, e não ficar apenas com a mistura que eu fizesse no meu estúdio; nessa altura andei a ver uma série de discos com um resultado final que me agradava e esse estúdio na Califórnia tinha feito a masterização de um álbum dos DeVotchKa, que tem uma música que eu acho mais ou menos parecida com aquilo que eu queria que as músicas desse EP, em termos de força, soassem. Por isso decidi fazer a masterização do EP nesse estúdio, na Califórnia, e como na altura fiquei satisfeito, quando chegou a altura de masterizar este disco nem pensei duas vezes e fiz no mesmo sítio.

EF: Qual é a tua canção favorita deste AVO?

N: Eu acho que, à sua maneira, já todas elas foram, em alguma altura, a minha música preferida. Nas últimas semanas, a que me dá mais gozo ouvir quando oiço o disco todo é a última [Don’t say hi if you don’t have time for a nice goodbye], mas lembro-me que em tempos já foi a terceira [It’s easy to be a marathoner even if you are a carpenter], na altura do lançamento do primeiro single [Today is the same as yesterday, but yesterday is not today] achava que era essa, a dos convidados, nos tempos a seguir a tê-la gravado com eles, tornou-se também na minha preferida, por isso… Felizmente, não vejo nenhuma música como o elo mais fraco, acho que todas elas têm o seu valor e aguentam-se bem sozinhas.

EF: Depois deste segundo LP, quais são os planos para o futuro do Noiserv?

N: Agora ainda estamos muito em cima do lançamento, e aquilo que eu penso fazer agora, em termos futuros, é dar o máximo de concertos e iniciativas possível para poder promover o disco, para conseguir que estas dez músicas novas cheguem ao máximo de pessoas possível e, de preferência, a mais gente do que as anteriores tinham chegado. Não consigo olhar muito mais à frente do que isso.

Fotos: Vera Marmelo

*Este artigo foi escrito, por opção do autor, segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945

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