Se há coisa que nos consegue transmitir uma ideia de calor na música é aquele tom de guitarra fuzzy e quentinho tão característico do rock psicadélico ou do stoner.  É daquelas coisas que faz festinhas nos ouvidos e foi isso que os Dead Meadow se propuseram a fazer na passada sexta-feira, durante uma hora e meia, na Galeria Zé dos Bois: embalar-nos com as suas cambaleantes, mas belas, composições retiradas de uma qualquer tarde de domingo ensolarada, proporcionando um belo concerto na noite outonal.

Apesar do calor da sua música, os Dead Meadow vêm daquele antro de politiquice que é Washington D.C, que fica mais a norte e onde o tempo é farrusco. Mesmo que a música não fosse dessa natureza isso não importaria, porque as altas temperaturas foram sempre uma constante numa sala cheia que nem os dois aparelhos de ar-condicionado foram capazes de refrigerar.

Debaixo de projecções bem trippy, o trio subiu ao palco e sem grandes demoras lançou-se num desfilar de psicadelismo, assente num ADN bastante vincado no blues e no stoner, começando com uma Greensky Greenlake. Rapidamente nos apercebemos de que não íamos ouvir grande parte das letras, já que Jason Simon não é portador de uma voz estrondosa, mas sim daquelas que, à custa dos efeitos, parece que vem do fundo do túnel. Não foi um problema maior, a melodia ténue das suas cordas vocais serviu como complemento para o que se foi fazendo a nível instrumental.

A grande parte do concerto fez-se numa dicotomia entre um baixo retumbante de Steve Kille, por vezes pouco claro, mas sempre a segurar a banda com mestria e uma guitarra limpa e frágil, que pontualmente se espraiava em solos lamuriantes e envolventes com o wah-wah em força. O ritmo foi quase sempre do lento ao meio-tempo descontraído, levando a um clima hipnótico, como se láudano brotasse das colunas da ZDB, sendo que a falta de interrupções entre as músicas ajudou para formar essa ambiência. Os corpos iam-se balançando com suavidade até a banda disparar uma mais acelerada In The Thicket. Foi aqui que o baterista Mark Laughlin puxou mais dos galões, apesar de ser verdade que tocar devagar e manter o ritmo consegue ser mais complicado do que entrar num frenesim rítmico.

Depois de clássicos como Such Hawks Such Hounds e a groovy At Her Open Door, o concerto teria o seu final com a dupla Rains in the Desert e o opus da banda, Sleepy Silver Door. Apesar de não ser previsto um encore, a populaça queria mais e os Dead Meadow subiram ao palco para mais uma canção. Foi uma prestação relativamente curta, mas conveniente, já que este tipo de psicadelismos não são propícios a tomarem longas durações, pois correm o risco de cansar. Após o concerto, Steve Kille ainda trocou umas palavrinhas junto ao bar, confessando-se fã de Portugal (apesar de vir poucas vezes e das estadias serem curtas) e rindo-se da particularidade da ZDB ter vitrines que dão para a rua da Atalaia, levando com que “velhotes do outro lado estivessem a curtir o concerto, sem estarem a ouvir nada”.

Fotografia de João Pedro Almeida

*Por opção do autor, este artigo foi escrito ao abrigo do Acordo Ortográfico de 1945.