Último dia de ModaLisboa Ever.Now. O Pátio da Galé e os Paços do Concelho voltaram a encher para receber as propostas para a primavera de Saymyname, Pedro Pedro ou White Tent. O Tiago Loureiro assistiu aos desfiles do último dia da edição Ever.Now e dá-te a conhecer as tendências das coleções primavera-verão 2014.

A marca Saymyname continua a dar cartas aqui e no mercado asiático. Desta vez, Catarina Sequeira trouxe à ModaLisboa uma coleção inspirada em Baye Fall, um subgrupo da irmandade de Mourides, no seio dos sufistas islâmicos no Senegal. Começou com alguma sobriedade, sempre com materiais em contraste e cortes geométricos. Subitamente, um vestido em azul metálico rompeu a seriedade como se um glaciar tivesse caído nos corredos dos Paços do Concelho. Os drapeados parecem uma espécie de origami, originando arestas devido à estrutura do material e aos contrastes de brilhos diferentes. Uma coleção enérgica e muito forte na componente visual. A sublinhar, a colaboração fiel da Xperimental Shoes, de Pêlos Cabelos de Bruno Bessa Cruz e, na banda sonora, Fabulosa Marquise. Pode ser ouvida aqui.

Seguiu-se o estreante da plataforma LAB, Luís Carvalho. O designer deu demasiada ênfase ao styling e acabou por gerar outros contornos que fugiram ao conceito inicial. Shelter era o tema, mas em vez de abrigo, as imagens que criou levaram-nos para um ambiente pop anos oitenta ou para o minimalismo nova-iorquino. Começou com um look soturno e continuou com propostas mais desportivas, mesclando com um clássico minimal,  que resulta bem entre o público português. Introduziu primeiro o padrão de pedra e depois os metálicos, mantendo o jogo de assimetrias e painéis sobrepostos. Não defraudou expetativas no que toca à qualidade do produto que apresentou.

Impossível não referir o calçado, que reproduzia o padrão referido, mas falhou em questões ergonómicas, provocando inúmeros problemas às manequins. Isto acontece, na maior parte das vezes (não sabemos se desta também foi) porque os produtores de calçado adiam constantemente os prazos de pequenas encomendas e entregam os sapatos com erros ou alterações em cima da hora, impossibilitanto o criador de os alterar. Os novos designers vêem-se gregos para conseguir sapatos de qualidade para desfiles, mesmo com uma indústria tão desenvolvida nesta área.

A dupla de designers portugueses, Marques’Almeida abriu a passarele principal neste último dia. No Páteo da Galé revisitaram a coleção que haviam apresentado em Londres, mantendo a estética grunge dos anos 90, das miúdas que não precisam de artifícios para parecerem ‘cool’, das gangas rasgadas e das peças oversized. E, se na última estação se dedicaram a perceber como esta miúda se vestiria numa festa, desta vez apostaram numa descontração mais leve e feminina, investindo em transparências em cores claras e aproximando-se um pouco do trabalho de Calvin Klein há duas décadas atrás (nos tempos áureos da Kate Moss e dos anúncios de jeans). Ana Búrea vestida em pele de vaca malhada e denin foi a melhor imagem do desfile, paralelamente com o conjunto casaco/calças em organza rosa.

Ricardo Preto apostou novamente numa coleção comercial, da qual se destaca a boa confeção e a abordagem arriscada aos padrões. Sem qualquer intervenção inovadora, foi no entanto uma coleção muito segura e apta para qualquer situação, apresentando diversidade e abrangência. No final, aos padrões mármore, Ricardo acrescentou referências à pintura clássica, introduzindo um colorido mais quente, que atingiu o auge no penúltimo coordenado: um vestido transparente plissado que fez recordar os kaftans de Amália Rodrigues nos anos 70.

Pedro Pedro apresentou a melhor coleção do dia, e na nossa opinião, a melhor da ModaLisboa, impecável na escolha dos materiais, nas volumetrias e nas soluções de design que adotou. Ao invés de estampados, o designer recorreu a organzas bordadas com motivos florais ou pailletes para criar contrastes de texturas. Sedas, veludos, peles, tecnológicos e outros materiais enriqueceram plasticamente a coleção. Manteve-se neutral na paleta cromática e adotou silhuetas despojadas, muito descontraídas e todas as peças tinham um aspeto “easy to wear”.

Icarus, uma escultura de Zlata Markov, foi o ponto de partida para Aleksandar Protic, e da ideia de vôo surgiu talvez aquela que é a sua coleção mais limpa e natural, para surpresa do público. Recorrendo a diversas tonalidade de cinza e preto, drapeou diversas peças da frente para trás criando volumetrias nas costas, sem nunca prescindir da fluídez. As peças dialogam com o corpo, envolvendo-o e torneando-o com tecidos nobres e de brilho discreto. Os primeiros looks mantêm uma linguagem desportiva e urbana, evoluindo posteriormente para visuais noturnos, com inserção de alguns encaixes em pele.

“Não há como não gostar de White Tent!” diziam os convidados à saída. A marca de Pedro Noronha Feio e de Evgenia Tabakova continua a executar coleções que, numa perspetiva global, parecem neutrais mas, a pouco e pouco, vão conquistando espaço na indústria e o carinho do público deste evento. Desta vez, à estética minimalista adicionaram folhos. A mulher de White Tent amadureceu, está mais elegante, mas nem por isso menos jovial. A dupla recorreu a padrões criados através de tye-die e a tingimentos naturais e reservaram-se a um espetro de cores reduzido, entre o indigo, o branco e o cinza.

Para terminar em beleza, Nuno Baltazar teve direito a sala cheia. Mantendo o classicismo e as formas esculturais, inspirou-se na Mater Dolorosa e outros ícones da arte sacra para criar um conjunto de looks em tecidos nobres, com brocados, sedas, em cortes fluidos e drapeados, com alguns folhos e assimetrias à mistura.

Este ano a organização da ModaLisboa, em parceria com a Showpress, acertou na mosca. Foram mais de 300 os jornalistas acreditados e pela primeira vez foram mais condescentes em relação a bloggers e outros projetos indepentes, colocando-os ao nível da imprensa nacional. Contra a vontade de muitos convidados Club, a imprensa tinha reservadas na sala principal duas filas, pelo que facilitou em muito o trabalho dos jornalistas acreditados, que, em edições anteriores, se viam a braços com disputas de lugar com quem ia apenas assistir e não para trabalhar. A logística do espaço e a gestão do tempo entre desfiles não falhou e fomos recebidos sempre com sorrisos e disponibilidade, quer da parte da produção quer da incansável equipa de assistentes de sala.

Para o ano há mais uma edição e por agora, daqui a aproximadamente duas semanas, tem início o Portugal Fashion, o evento que comemora há mais de duas décadas a produção de moda no Norte.

Fotografias da coleção de Saymyname por Rui Vasco

Todas as restantes fotografias por Catarina Alves