Comunidade ©Filipe Ferreira_3

A (des)construção de uma ‘Comunidade’ no D. Maria

Na sala estúdio do Teatro Nacional está em cena um convite à reflexão da alma, de nós próprios ou de alguém que nunca podemos ser. Uma sala modificada, não apenas pela diferente disposição da plateia, convidada a presenciar o momento de perto, mas também pelo ambiente nela criado. Comunidade está em cena no D. Maria II até 3 de novembro.

Teatro e poesia, numa união simples e tão complexa. Duas mãos que quase nos tocam pelo poder de (des)construção de uma comunidade lamacenta, mísera e completa de nada. Para a Arte acontecer é preciso quase nada e, neste caso, só um texto e três elementos conseguem colocar-nos entre o limbo da realidade ou da objecção da mesma. Uma comunidade é construída ali, mesmo à nossa frente: com uma conclusão inexistente que é tanta coisa.

Um sorriso à morte e à família. Um sorriso à reprodução, à promiscuidade de dois corpos que se tocam, e onde é feita a narrativa de uma vida deambulatória. Um texto que se ouve do escuro, do fundo daquele poço que todos nós construímos com nossas próprias mãos tantas vezes sujas de lama ou barro, à medida que a água do oceano se escurece também.

Há um “bicho poderoso” no texto de Luiz Pacheco difícil de interpretar, mas tão fácil de entranhar: “Parece uma explosão que atingiu um grupo de gente parada e, agora, o que está ali são restos de corpos mutilados”.

Parados, mutilados e sujos, assistimos à construção de uma comunidade a que somos exteriores e que nunca se conclui: apenas se vai criando, sempre diferente, cada vez mais harmónica. Somos todos um sem-rosto à espera de ser reconstruido, ensina-nos esta encenação.

De súbito, silêncio: a melhor música de todas que mais nos enche o peito, a respiração que vem bem do fundo, do poço ou de nós, de uma torre inexistente. Dois olhos que se fecham para escutar o nada – o sono, “eu gosto do sono”, a ante-câmara da morte, porventura.

A obra exposta na sala é nada mais que uma reflexão de nós próprios, é uma voz interior que clama, chama de uma alma resistente a tudo. Em tanta palavra ouvida, parece que o que nos fica é um molde de alguma coisa que ninguém sabe o que é: nós talvez, espectadores de nós próprios e dos outros.

Uma comunidade em que todos nós somos convidados a integrar. Um silêncio cheio de palavras que devem ser ouvidas, enquanto permanecerem no palco, o melhor local para a descoberta de todos nós. Entremos então na Comunidade de espírito aberto e olhos fechados, para que as palavras nos fiquem, não enquanto palavras, mas sentimento de algo que não se sabe o que é.

Fotografias por Filipe Ferreira

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