O Espalha-Factos continua a cobertura da maior semana de moda nacional e a apoiar os criadores portugueses. Os destaques do segundo dia foram Os Burgueses, Ricardo Dourado e Nuno Gama.

O dia de desfiles começou às 12h com a apresentação da coleção de Luís Buchinho. O criador sedeado no Porto trouxe a Lisboa a coleção que apresentou em Paris. A Praça do Município, com toda a sua candura, conferiu à coleção a clareza necessária para valorizar cada página deste trabalho. Buchinho manteve-se fiel à sua fórmula: peças estruturadas repentinamente desconstruíadas e drapeados assimétricos, abraçando com subtileza um estilo minimal e paralelamente muito feminino.

Depois da pausa para almoço, Valentim Quaresma fez as honras da casa e levou aos corredores dos Paços do Concelho uma coleção de acessórios em malha metálica e padrões geométricos, com referências claras a armaduras medievais, ao barroco e outros estilos que o criador desconstruiu e fundiu, originando um conjunto de contrapontos.

No mesmo espaço, e a contrariar os últimos trabalhos, Os Burgueses deixaram a plateia animada com uma coleção cujo mote foram “bananas”. A música contrastou com o andar plácido da primeira manequim. Com um claro pendor retro, a dupla de Mia e Eleutério voltou a investir na camisaria e em peças estruturadas, explorando intensamente bananas e conjuntos de frutos nos padrões. Na medida certa, acrescentaram detalhes mais leves e femininos, como pequenos folhos, assim como diversas peças em malha tricotada, sempre em sólidos blocos de cor, entre o azul, o laranja, amarelo, entre outras tonalidades. O desfile terminou com todos os modelos a simularem chamadas telefónicas com bananas.

Novamente no exterior, Dourado foi o melhor do dia. O trabalho de Gus van Sant e de Larry Clarke foi o ponto de partida para uma coleção de streetwear em que o fato-de-treino old school é redesenhado com novos cortes e materiais mais pesados. A seriedade criada pela estrutura é imediatamente cortada pela suavidade da cor. Em entrevista ao Daily ModaLisboa, Ricardo refere que esta será talvez a sua coleção mais colorida, com branco, azul, rosa, amarelo lima e o preto, sendo que os metálicos compõem também um grupo importante dentro do line-up. A banda sonora não fugiu à regra e continua a revelar um designer atual e assertivo quando se fala de cultura urbana.

Com 2D, Dino Alves opõe-se à sofisticação da tecnologia 3D. Desta forma, a maior parte das peças parte de moldes planos quadrados ou retangulares que, vestindo o corpo, convertem-se em peças de vestuário às quais são adicionados grafismos. Dino assume os ombros estruturados e as peças caem fluídas até à baínha. As cores em bloco ceifam-lhe a fluidez e a naturalidade. O destaque vai também para os acessórios, com diversas carteiras de base quadrada, com vários bolsos embutidos, assumindo o diálogo entre planos e volumetrias.

Em continuação, o designer polaco Kamil Sobczyk, investiu essencialmente no menswear, entrecortando com algumas propostas de senhora. A coleção chama-se Yaeger, em homenagem a Chuck Yaeger, um piloto automobilístico de exceção. A ideia de perfeição é perseguida por Kamil com cortes simples e cores claras e bons acabamentos, principalmente, ao nível da alfaiataria. Cada look foi complementado com várias molas de pressão brilhantes.

Cia Marítima veio mais uma vez à ModaLisboa mostrar as suas propostas de beachwear, com padrões intensos e tecidos fluídos a clamar o verão na passarela.

Alexandra Moura apresentou uma coleção discreta. Primeiro a água… Depois a luz marca uma reflexão sobre a sua coleção anterior, partindo do vácuo, do negro para um caminho em que descobre a luz, o sol. Alexandra inicia a coleção com vários coordenados negros que, a pouco e pouco, mescla com tonalidades claras, finalizando com amarelo. A solidez das silhuetas, retas e tubulares, é ocasionalmente ceifada por volumetrias inesperadas, mantendo uma estética minimalista e funcional com a delicadeza e doçura que lhe são habituais.

Miguel Vieira continua a comemoração dos 25 anos da sua marca. O desfile teve início com a reprodução de um vídeo em que vários manequins e celebridades lhe cantavam os parabéns. Nesta coleção, Miguel manteve-se fiel ao seu estilo, procurando silhuetas simples e claras, com cortes irrepreensíveis. O styling e as pedrarias exageradas bordadas nos vestidos necessitam claramente de edição. Para surpresa do público, surgiu uma menina na passarela, apresentando a sua linha de vestuário infantil. Apelando ao enternecimento do público, o ritmo do desfile foi várias vezes cortado por aquilo que se tornou quase um ritual. “Desfila criança, segue-se mar de aplausos” e assim até ao fim. Na passarela, não faltaram veteranos, desde Milena Cardoso, Rúben Rua, Dariia Makarova e até a angolana Naíma.

A encerrar a noite, quando a maioria da imprensa e convidados já davam claros sinais de exaustão, Nuno Gama surpreendeu com uma coleção em que o espetáculo habitual não retirou a atenção às peças masculinas que exibiram corte e confeção perfeitos, um investimento cada vez maior em materiais de grande qualidade e fitting irrepreensível. O espírito retro transpareceu, quer na banda sonora, quer no penteado que deu lugar a uma headpiece de loiça azul e branca. Nuno mostrou mais uma vez que no seu trabalho não há margem para erros e que tudo é planeado milimetricamente. A encerrar uma série de manequins apelando à linha de beachwear da marca, mundos de capacetes, colocou a plateia ao rubro.

A ModaLisboa prossegue amanhã, último dia do certame.

Fotografias por Catarina Alves