Linda Martini

Linda Martini na Sala Tejo – 10 anos de Casas Ocupadas

Foi uma Sala Tejo cheia que recebeu os Linda Martini para a apresentação de Turbo Lento, o seu mais recente álbum. Mas nem só de novidades se fez o especial concerto, enriquecido com temas de Casa Ocupada e Olhos de Mongol.

Quem vai pela primeira vez a um concerto de Linda Martini, pode ficar com a sensação que chegou a um evento proibido a maiores de 30 anos. A explicação para a (falsa) ideia é instantânea. A legião de fãs do grupo lisboeta é quase exclusivamente composta por adolescentes e jovens adultos que não ultrapassam aquela faixa etária. Embora vários factores possam justificar tal fenómeno, há um que rapidamente ganha preponderância: a importância adquirida pela sonoridade dos Linda Martini nos últimos anos no universo rock nacional, sincronizada com a formação musical de uma nova geração. À porta da Sala Tejo, as gargantas afinam-se com o auxílio das primeiras imperiais. As indumentárias incluem T-Shirts de artistas como Pearl Jam, Greenday ou Ornatos Violeta, sinal do cuidado com que foram escolhidas. “Tragam a Cláudia”, ouve-se já no interior de uma sala cheia de pessoas e de expectativas.

As luzes apagam-se e os quatro alinham-se em palco atirando-se a Ninguém Tropeça nos Dias, logo  seguida de Juarez, música dona do registo mais punk de Turbo Lento, onde sobressaem a intensidade e pujança instrumental, ao estilo daquilo a que fomos habituados noutros álbuns. “Muito sucintamente, obrigado. A próxima é para as pessoas que estiveram aqui à espera desde a uma da tarde”, afiança o baterista Hélio Morais, antes de se ouvirem os primeiros acordes de Panteão, um dos mais badalados temas do novo trabalho. A alternância das luzes harmoniza-se com o ritmo da música, e os Linda Martini garantem o início de mais uma viagem, desta feita na cidade que os viu nascer. Por trás dos músicos avistam-se imagens circulares alusivas a Turbo Lento, com destaque para os contornos ondulados que ilustram a capa do disco.

Linda Martini conjunto

Os fãs das primeiras filas mostram conhecer as letras das novas canções, num sinal de devoção e afecto. Mas nem só de novidade se faz um concerto de apresentação, e eis que chega altura de resgatar dois temas de Casa Ocupada. Durante Nós os Outros entoa-se a plenos pulmões “Espero- te chegar se me vier”, enquanto Juventude Sónica remete para o ambiente onde nos encontramos, já que “não temos aulas amanhã”. Os Linda Martini parecem dar tudo de si em palco, em todas as ocasiões. Uma energia contagiante penetra e expande-se gradualmente pelo público. Hélio Morais sonda a plateia com duas perguntas. “Quem já comprou o álbum?” e “Quem sacou o álbum?”. A semelhança no número dos que escolhem cada uma das opções demonstra talvez a forma como a crise obriga a reduzir a compra de CD’s. Mas o baterista não parece muito preocupado com a quantidade de downloads, e o concerto prossegue com tranquilidade, ao som de Pirâmica e Sapatos Bravos.

Embora dotado de um rigoroso trabalho instrumental, onde de músicas como Sapatos Bravos emanam poderosos riffs, a sonoridade de Turbo Lento parece, por vezes, excessivamente límpida, talvez menos aguerrida e frenética do que noutros tempos. Tal diferença notou-se durante o espectáculo, sobretudo porque os momentos de maior fôlego surgiram em músicas como Belarmino (altura em que se deu a primeira tentativa de crowd surfing) ou Mulher-a-Dias (houve crowd surfing e até se ensaiou um circle pit). Decerto que esta mutação na sonoridade é propositada, mas talvez não agrade aos fãs mais ortodoxos. Ou talvez não lhes agrade apenas por ainda estarem a entranhá-la… E entranharam mais um pouco com Ratos, tocada pouco antes de Volta. Esta última foi digna de uma homenagem especial às gentes da Cova do Vapor, onde os Linda Martini gravaram o respectivo vídeo há poucas semanas. No meio das duas, espaço para Hélio Morais desafiar os presentes a correrem 100 metros até ao fundo da sala, introduzindo o clássico 100 Metros Sereia, outro que foi, tal como é hábito, um dos pontos altos do concerto.

Helio Linda Martini

Caminhamos para a recta final na companhia de Este Mar, instrumental cuja harmonia das guitarras, do baixo e da bateria acelera um processo de transe colectivo. “Nunca pensámos encher esta sala, é estranho para nós, 10 anos depois, depois deste último disco…” afirmaria André Henriques, o frontman, antes de avançar para O Amor é não haver Polícia, que precederia um monumental crowdsurfing de Hélio Morais no meio da plateia, como forma de agradecimento pelo apoio proporcionado.  Os músicos retiram-se, mas o fervor dos presentes impele-os a voltar. André vê-se obrigado a pedir a palheta de volta a um fã da primeira fila. “Nós somos muito fáceis”, diria Cláudia Guerreiro instantes antes do início de Dá-me a tua melhor faca, que marcou o final de uma actuação, no mínimo, bem conseguida. No exterior da sala, junto à banca do merchandising, há já uma fila considerável, cujo concerto contribuiu, certamente, para engrossar. Cá fora, no meio de muitos desabafos, um sonoro “Curti, pá!” estrutura a bitola do concerto de uma banda com uma década de vida. Porque Linda Martini são 10 anos de histórias para contar. Ou porque “o fado agora quer ser samba”.

Claudia Linda Martini   Fotografias: Rita Carmo Blitz

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