Vagabundo

Festival Vagabundo: pela estrada fora entre Torres Vedras e Aveiro

Apesar das temperaturas invulgarmente quentes desta semana, está oficialmente aberta a época outono/inverno de concertos e festivais. O festival Vagabundo é disso um bom exemplo, com a sua primeira edição a ter deambulado por Aveiro, Torres Novas e Torres Vedras nos passados dias 10, 11 e 12 de outubro.

– 11 de outubro

Teatro-Cine de Torres Vedras

A primeira noite de concertos começou a meio-gás, com pouca adesão do público. A responsabilidade de ser o primeiro a pisar o palco do festival foi entregue ao músico cabo-verdiano Lula’s, que nos contagiou com as boas vibrações da sua “cachupa psicadélica”. Sozinho em palco, com a sua guitarra elétrica e um jogo de luzes minimalista mas perfeitamente adequado às melodias que se iam ouvindo, Lula’s fez-nos viajar até terras africanas, em temas como Amor de Laranjeira, Lambe Lambe ou Carnaval Tradição.

Lula’s veio representar a geração de músicos cabo-verdianos nascidos na década de 80, dizendo que tem um grande sentimento de dever para com a sua cultura. “Vemo-nos por aí, mais não seja no céu, um dia”, despediu-se Lula’s depois da viagem que foi o seu espetáculo.

De seguida, esperava-se Josephine Foster, mas é o espanhol Victor Herrero, seu guitarrista que sobe ao palco, anunciando-nos que iria tocar um tema da sua autoria. Enquanto a melodia castelhana nos embalava, estranhava-se o atraso de Josephine, uma vez que o também seu marido tocou, não um, mas seis temas, entre os quais alguns clássicos da tradição castelhana e basca.

Sem explicações, a cantora do Colorado subiu ao palco e sentou-se ao piano para interpretar alguns dos seus temas. Se ao mesmo tempo que ficávamos maravilhados com a sua figura alta e esbelta, a sua elegância e o seu timbre agudo extremamente afinado, não pudemos não ficar desiludidos com a sua atitude distante (foram muito poucas as palavras que dirigiu ao público) e pela má escolha do alinhamento, uma vez que foram escolhidos temas muito idênticos entre si. Só nos últimos três temas esta tendência foi contrariada, mas não houve sequer direito a um encore.

Josephine Fister

Teatro Aveirense

Em Aveiro, o Festival Vagabundo abriu as hostes com Emmy Curl, artista que tem despertado a atenção dos portugueses desde o lançamento do seu terceiro EPOrigins. Catarina, nascida em Trás-os-Montes, mas agora a residir em Aveiro, sentiu-se a jogar em casa e por isso esteve animada e conversadora, partilhando as histórias das músicas que cantou. Com um bonito cenário a servir-lhe de fundo, conseguiu arrancar arrepios com a magnífica versão de Maio Maduro Maio e No Moon, a única música original cantada em português.

Emmy Curl _1

De seguida aconteceria aquele que foi para nós o melhor concerto do festival; Howe Gelb, o timoneiro dos Giant Sand, dispensa apresentações no mundo indie country. Dono de uma das vozes mais sexy do século XX, Gelb já editou meia centena de discos e inscreveu o seu nome na história da música americana. Apresentou-se no Vagabundo com contrabaixo e apresentou alguns dos temas do novo disco, The Coincidentalist (sai a 4 de novembro), que transparece os sons do deserto onde foi gravado. Ora na guitarra, ora no piano (ou mesmo nos dois), passou também por temas dos Giant Sand, como Chunk of Coal de Blurry Blue Mountain (2010), fazendo as delícias dos conhecedores da banda.

Howe Gelb_1

– 12 de outubro

Teatro-Cine de Torres Vedras

Apesar da concorrência futebolística do Portugal x Israel, o segundo dia de festival Vagabundo contou um Teatro-Cine ligeiramente mais preenchido para ver os torreenses Fox & The Red Velvets e o americano Howe Gelb.

“Se quiserem gritar golo de vez em quando estão à vontade”, brincou Telmo Martins, vocalista e guitarrista dos Fox & The Red Velvets no início do concerto. Acompanhado de baixo (Manuel Gomes) e de bateria (Pedro Fortunato), Telmo Martins (aka Fox) presenteou-nos com vários temas folk/rock, que nos fizeram abanar a cabeça. Impossível foi deixar de notar as (boas) influências de, por exemplo, Editors ou The National nas suas sonoridades. Mais de um ano após a sua primeira passagem pelo Teatro-Cine da sua terra natal, os Fox & The Red Velvets convenceram os presentes com temas como Levity ou Perfect Light.

Howe Gelb chegaria de seguida, acompanhado pelo contrabaixista dinamarquês Thoger Lund. O músico dos Giant Sand, envergando um chapéu comprado “numa rua ao pé do teatro”, presenteou-nos com o charme da sua voz grave e do seu folk e quis as luzes da sala acesas para conseguir ver aqueles que assistiam ao seu espectáculo (“let’s keep it more real!”). Com uma interação com o público exímia e um sentido de humor excepcional, Howe Gelb interpretou alguns temas do seu mais recente álbum Dust Ball, mas também da sua banda Giant Sand. No final do concerto, Howe tentou cumprimentar individualmente todos os elementos da plateia, mas rapidamente se “cansou”.

Howe Gelb_2

Teatro Aveirense

JP Simões voltou ao Aveirense 14 anos depois, conta-nos o músico. E o Vagabundo hoje está claramente mais cheio para o receber (e ao seu companheiro da noite, Mark Kozelek). Como há 14 anos atrás, continua a fala de amor nas suas canções, mas agora, mais maduro (ou não), em modo quase stand up (que ofereceu gargalhadas a muitos e suspiros de cansaço a outros tantos), apresentou-se mordaz. Falou de amor, claro, de sexo, de drogas, mas também fez muitas críticas ao país onde se encontra. Pelo meio, a música. Acompanhado pelo paulista Gabriel Godói, apresentou as músicas do seu novo disco, Roma, mas houve também espaço para belíssimas versões de La Javanaise de Serge Gainsbourg e All the Lonely People dos The Beatles.

JP_2

A desconcertante noite estava ainda a começar. Mark Kozelek não é conhecido pelos fãs por ser o músico mais simpático ou sequer o mais amistoso. E sim, ele tem bastantes fãs até, e foi por isso esta a noite mais concorrida do Vagabundo. No nosso país, pelo qual já passou variadas vezes, o cérebro dos Red House Painters e dos Sun Kill Moon tem um rol de episódios que permite confirmar esses “maus fígados”.

A passagem pelo festival Vagabundo em Aveiro também não foi discreta. Aborrecido com a iluminação, com os sussurros de alguém na primeira fila, com as horas que fez de viagem, com o facto de estar a tocar em sítios – cujo nome desconhecia – longe de Lisboa e não em Lisboa, revelou-se, no trato das pessoas, desagradável e insensível.

Mark Kozelek_1

Mas o que conta é a música e o certo é que sempre que, após afinar incessantemente a guitarra, Kozelek começava a tocar e a cantar, tudo se esquecia. Passou sobretudo pelas músicas dos discos editados este ano, Perils from the Sea (com Jimmy LaValle de The Album Leaf e Mark Kozelek & Desert Shore) com temas depressivos, intimistas, que vão desde as memórias de infância, às amizades e aos laços familiares. Apresentou também avanço para Benji, a ser editado em fevereiro de 2014 com os Sun Kill Moon e acedeu até, já no encore, a tocar a belíssima Alesund que o público lhe pediu.

No fim, as opiniões dividiram-se da seguinte forma: quem gostou, amou; quem não gostou, odiou. Kozelek nunca será consensual.

#13 de outubro

Teatro-Cine de Torres Vedras

No terceiro e último dia de festival Vagabundo, a audiência em Torres Vedras aumentou exponencialmente (mais do dobro dos dias anteriores), atraída pelos nomes de JP Simões e Mark Kozelek.

JP Simões, acompanhado por violão brasileiro, tal como em Aveiro, mostrou-se o excelente contador de histórias que já conhecemos, deixando Mark Kozelek (que assistiu ao concerto sem perceber português) preplexo com o seu espectáculo: “Is he a singer? Is he a talker? What does he do?”.

Implorando constantemente por uma cerveja (que só apareceu quase no final do espetáculo), JP Simões tocou-nos temas do seu mais recente Roma (como No dia em que vi o meu bem ou A Million songs of yesterday, mas deixando em falta Rio-me de Janeiro ou Carnaval Radioactivo, talvez pela necessidade que estes temas têm de acompanhamento de banda), de discos mais antigos (como a magnífica Ela vem e vai), mas também alguns covers, como a já habitual Eleanor Rigby dos The Beatles. Com vários momentos extremamente cómicos (tais como uma performance de dança contemporânea), JP encantou o público torreense, acabando o concerto com o single Gosto de me drogar e com A volta do Malandro, de Chico Buarque.

Por fim, Mark Kozelek sobe ao palco. O músico dos Red House Painters presenteou-nos com o seu humor-depressivo e as suas canções narrativas como Livingstone Bramble, Katowice or Cologne ou Hey You Bastard I’m Still Here. Entre pedidos de músicas por parte do público e pausas para afinar a guitarra de uma forma bastante peculiar, Mark Kozelek espantou-se com o facto de “ninguém viver em Torres Vedras” (fizera o mesmo reparo sobre Torres Novas) mas encantou a cidade onde só há “uns quantos cães a ladrar”.

Teatro Aveirense

A última noite de vagabundagem recebeu em Aveiro o cantautor iraniano-português Mazgani, que apresentou os temas do seu mais recente disco, Common Ground (gravado em Bristol e produzido por John Parish e Mick Harvey). No intimismo da guitarra acústica, conseguiu também na elétrica oferecer a mesma melancolia nos temas delicodoces como  Hold me a while ou a raiva de temas mais rasgados como Dog at your door, ou ainda um misto entre fragilidade e fúria na fabulosa Blow Wind. À parte o som estar com alguns pequenos defeitos, foi um belíssimo concerto.

Mazgani_1

O encerramento do festival ficou a cargo de Josephine Foster. De uma delicadeza extrema nos gestos, dotada de uma voz peculiar (começou a carreira a atuar em casamentos e funerais), a cantautora ofereceu um espectro musical distinto do que o festival Vagabundo tinha apresentado até então. Na bagagem, o disco Blood Rushing, editado o ano passado, serviu como cartão de visita.

Assombrosa, quase fantasmagórica, a sua música oferece tons de imaginário medieval, aos quais Foster, de guitarra em punho, foi juntando músicos e instrumentos como se de ingredientes se tratassem. O primeiro a pisar o palco foi o seu marido, o guitarrista espanhol Victor Herrera (guitarra portuguesa, acústica e elétrica), seguindo-se-lhe a fabulosa violoncelista islandesa Gyða Valtýsdóttir. Se por vezes a receita foi estranha, muitas vezes foi saborosa.

Josephine Foster_1

Apesar da discreta adesão do público português (só Mark Kozelek movimentou mais melómanos), o festival Vagabundo acaba com nota positiva, quer pelo seu caráter original, quer pela aposta na descentralização na escolha das cidades. Esperemos vagabundear novamente para o ano.

Texto:
Joana Esperança Andrade (Torres Vedras)
Alexandra Silva (Aveiro)

Fotos:
Cátia Duarte Silva

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