O coração partido de Scout Niblett subiu ontem ao palco do Teatro Maria Matos na companhia de uma banda de apoio, para apresentar os temas do frágil e devorador It’s Up to Emma, editado este ano.

Scout Niblett (Emma Louis Niblett de seu nome) está madura. Acabou de completar 40 anos e isso nota-se. Quer dizer, nota-se na música porque Scout apresenta o mesmo ar frágil de uma menina colegial. E é assim que se apresenta em palco: vestido e meias de colegial, rosinha (vermelha) que dá capa ao disco, sorriso tímido e uma garrafa de vinho tinto.

Noutras passagens pelo nosso país (Passos Manuel no Porto, Mercado Negro em Aveiro, Galeria Zé dos Bois, em Lisboa, por exemplo) habituou-nos às suas performances minimalistas, com a presença apenas da sua voz e da sua guitarra. E foi assim que começou.

It’s Time, My Beloved, longa música, com um silêncio quase sepulcral na sala, deu o mote, seguindo-se Duke of Anxiety de The Calcination of Scout Niblett (2010)canções de uma fragilidade e de uma ira aparentemente inconjugáveis mas que assoberbam.

A primeira abordagem ao ainda mais raivoso novo disco, dá-se com All Nigh Long e a entrada do baterista  Jan Philipp Janzen (que toca também com os The Field) em palco. Logo de seguida, Gun apresenta o segundo guitarrista, Miguel Ortiz Caturani, e as músicas tomam a forma de um furacão em descontrolo, com Niblett a fustigar as cordas com todo o ímpeto.

Em Can’t Fool  Me Now, segundo tema do disco, a inglesa recebe a companhia dos portugueses Carlos Santa Clara, no violino, e Joana Guerra, no violoncelo, que tornam a melodia mais doce e ternurenta, igualmente sofrida. It’s Up to Emma é um disco de separação, de alguém que foi enganado e Second Chance Dreams fala-nos disso, de querermos desligar e não conseguirmos, de alguém que nos enleia e não nos quer. Com a voz sofrida, Scout Niblett consegue por vezes atingir tons épicos e sublimes. Arrepia.

De seguida, dose tripla para This Fool Can Die Now (2007) com Your Last Chariot, NevadaLet Thine Heart Be Warned. Durante todo este tempo, Scout Niblett não fita o público, concentra-se antes no vazio, com os seus olhos por vezes a emanarem faíscas (como na capa de This Fool Can Die Now). Mas, de repente, pergunta se alguém tem questões a fazer e do público alguém pergunta se voltará a gravar com Steve Albini [Shellac, que produziu quatro dos seus seis álbuns]. «Não sei!», responde.

E continua com as músicas de It’s Up to Emma, que a própria produziu, músicas em que se questiona também – Could This Possibly Be? e What Can I do? – de novo com violoncelo e violino em palco. Fantásticas, atordoantes.

Após uma breve saída de palco, Scout Niblett, regressa debaixo de muitas palmas do público, com a fabulosa Kiss (que cantou com Will Oldham em This Fool Can Die Now) para, por fim, se despedir com a soberba Hot To Death de Kidnapped By Neptune (2005).

Scout Niblett estará em residência artística na Galeria Zé dos Bois, onde pretende estudar o fado português. Adivinha-se mais dor.