43 anos após a morte do maior ícone feminino do rock n’roll,  o Espalha-Factos revisita alguns momentos marcantes de uma efémera mas fulgurante carreira.

O mundo não cabia em si de espanto depois daquela improvável notícia:  a 4 de Outubro de 1970, Janis Lyn Joplin era encontrada morta em casa, na Califórnia. Numa das suas mãos estavam quatro dólares e havia sinais de consumo recente de heroína. Morte acidental ou suicídio? Embora a autópsia tenha concluído tratar-se de uma overdose possivelmente combinada com ingestão de álcool, a dúvida permanece. Certo é que Janis desaparecia com apenas 27 anos, 17 dias depois de Jimi Hendrix, falecido com a mesma idade. À semelhança de Brian Jones (ex-vocalista dos AC/DC), os dois artistas morriam prematuramente, engrossando aquele que viria mais tarde a ser conhecido por Clube dos 27, e do qual fariam também parte nomes como Jim Morrison, Kurt Cobain ou Amy Winehouse.

Mas o espanto que atingia e se difundia pelo mundo tinha profundas razões de ser. Janis Joplin era, à data, uma das mais apreciadas vozes do rock n’roll. Dona de um inconfundível timbre capaz de deleitar milhares de ouvintes, a artista natural do Texas terminara 3 dias antes as gravações de Pearl, álbum feito em conjunto com os Full Tilt Boogie, a sua última banda.

Mesmo sendo editado postumamente, aquele registo discográfico ficaria para a história graças a temas como Cry Baby, Me and Bobby McGee ou Mercedes Benz. Antes disso, nos últimos três anos da década de 1960, Janis Joplin viveria alguns acontecimentos que a fizeram ascender à categoria de estrela.  Um deles deu-se com as duas actuações no incontornável Monterey Pop Festival. Qual terá sido a sensação de, em 1967 – apenas um ano depois de pisar pela primeira vez o palco com a sua banda, os Big Brother and the Holding Company -, actuar num festival daquela envergadura, ao lado de artistas como Jimi Hendrix ou The Who?

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Quem a tivesse conhecido na infância na pequena cidade de Port Arthur, no Estado do Texas, dificilmente acreditaria que Janis viria a tornar-se um autêntico furacão de palco,  uma estrela rock desinibida, comunicativa e exuberante. A artista era uma rapariga tímida, que se isolava num mundo artístico individual. Era também alvo de chacota devido aos seus problemas de peso. «Ela era muito reservada. Passou tempos difíceis no liceu. Insistia em vestir-se e em comportar-se de forma diferente e os colegas odiavam-na por isso. Não havia ninguém com quem ela se pudesse identificar ou com quem pudesse falar. Foi uma das primeiras adolescentes revolucionárias de Port Arthur», declarava em 1972 Seth Joplin, o pai, ao jornal inglês International Times.

Joplin caracterizava-se por ser uma leitora compulsiva, gosto que juntava à paixão pela música. Aos 15 anos, a texana foi conquistada pela sonoridade folk e soul de Lead Belly, mítico cantor do Louisiana, falecido nos anos 1940. Little Richard e Bessie Smith eram também inspiração, e decerto representaram um motivo para Janis aprender a tocar guitarra. Já na Universidade, começaria a tocar em troca de álcool. Era tempo de experimentar, de cometer excessos, de fruir até ao limite. Tinha o hábito de cantar em bares por divertimento e, numa dessas ocasiões, em Austin, seria descoberta por Chet Helms, fundador e agente dos Big Brother and the Holding Company. Contudo, o consumo de drogas atrasaria o processo de integração na banda até à partida definitiva para São Francisco, onde actuaria pela primeira vez em junho de 1966. «Era apenas uma miúda, não tinha roupas da moda nem nada disso, usava aquilo que levava para a faculdade. Entrei em palco e comecei a cantar. Uau! Que trip! Uma trip de droga ao vivo, meu. Não me lembro de nada, só da sensação. Gostei tanto que acabei por dizer “acho que vou ficar, rapazes”», recordaria Joplin.

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A partir de então, a caminhada no mundo do rock n’roll fez-se à velocidade da luz para Janis e os seus comparsas. Em Agosto de 1967, os Big Brother and the Holding Company editavam o álbum homónimo, marcado por temas como The Last Time ou Down on Me. A escalada rumo ao sucesso prosseguiria no ano seguinte com Cheap Thrills, segundo álbum da banda, onde se destacava o tema Piece of My Heart. A tensão era evidente no seio do grupo, que se viria a separar pouco tempo depois. Janis formaria os Kozmic Blues, com quem viajou para a Europa para uma digressão, mas foi sol de pouca dura. Os problemas com as drogas retornaram, e não mais se extinguiram.

O percurso de Janis Joplin é ilustrativo da efemeridade do êxito das estrelas rock, sobretudo quando falamos do contexto específico dos anos 1960, onde a experimentação e os excessos eram parte integrante do quotidiano. Joplin foi, indubitavelmente, uma revolucionária no panorama musical norte-americano e mundial, capaz de pôr em causa o domínio masculino. Mas foi também uma simples jovem, farta dos padrões sociais arcaicos que ainda assomavam as sociedades ocidentais. A texana deixou um contributo indelével para a história do rock n’roll, associado a uma época de ruptura com valores e costumes conservadores que persistiam em toldar o pensamento libertário.

httpv://www.youtube.com/watch?v=iJb7cBfrxbo

*Este artigo foi escrito, por opção do autor, segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945