Arraial do Técnico (dia 5): Tecnicamente perfeito

Sábado. 5 de Outubro. 21:30h. Temperatura: Ideal. Vento: Fraco ou Nulo. Humidade: 75% de cerveja, 15% de sangria, 5% de shots, 3% de coca-cola, 1% de água e 1% de sangue. Desgaste físico: 150%. Os Capitão Fausto capitanearam a embarcação durante os primeiros momentos de arraial, seguidos do punk frenético de Tara Perdida, e de Netsky.

Tenho de começar, desde já, por demonstrar a minha revolta. Deveria ser estritamente proibido que o Arraial do Técnico se realizasse uma única vez por ano. Já nem peço todas as semanas. Mas, pelo menos, três ou quatro arraiais do Técnico por ano letivo caíam que nem ginja. Não se trata apenas da música e da desbunda. Trata-se de um gesto de hospitalidade do Técnico, e da cidade de Lisboa, para com estudantes que vêm de todo o país. Trata-se de uma forma fácil e eficaz de cruzar experiências e gerar um convívio que, dali em diante, será determinante para a integração dos estudantes no seio académico.

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Nesse âmbito, todos os artistas que passaram pela Alameda D. Afonso Henriques nos dias 4 e 5 de outubro procuraram enturmar o público ao máximo. O novo registo de estúdio dos Capitão Fausto está aí à espreita, mas, até lá, temos que ir gramando com Gazela. Não se pode dizer que o façamos com sacrifício, até porque, em circunstâncias como esta, a rapidez e tumulto da Gazela são como cafeína para os mais acomodados. «Tens suor nas costas, mas consegues ter as pernas a tremer», são palavras de Supernova, que inspiraram aqueles que optaram por não criar raízes e que, nos casos mais agudos, se desfizeram das t-shirts. A ligeireza das composições dos Capitão Fausto facilitou bastante a cumplicidade entre a banda e a plateia. Um início de noite fausto.

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De facto, o estado de alguns corpos era tão cadavérico que os podíamos considerar tara perdida. Na altura em que estávamos prestes a proceder à recolha do lixo, os Tara Perdida subiram ao palco e disseram alto lá. A expressão não poderia ter sido «alto e pára o baile», porque foi precisamente ali que o baile começou a sério. “Baile” talvez seja uma palavra demasiado arcaica para esta situação. Pelo som, parecia que estávamos trancados numa garagem. Pela maluqueira desmedida, parecia que estávamos numa largada de touros em Pamplona. Houve gente colhida. Houve sapatos pelo ar, telemóveis despedaçados. A única diferença entre isto e a largada de Pamplona é que na largada de Pamplona há touros e pessoas. No concerto de Tara Perdida, tudo era touro. O 1% de sangue que falei acima refere-se a alguns joelhos esfolados, entre outros.

É conhecido o estereótipo (e não estou necessariamente de acordo com ele) que diz que, no IST, 95% dos alunos são do sexo masculino e apenas 5% do sexo feminino. A conclusão do estereótipo é que, desses 5%, 4.9%  são tara perdida. Portanto, esperemos que a malta que estuda no Técnico não tenha levado a peito quando se cantou «És mesmo muita muita feia», até porque me pareceu, sinceramente, ver muitos homens satisfeitos com a abundância e variedade mulheris. Claro que o estado de embriaguez também contribuiu para algumas observações extrapoladas.

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Tirando o facto de não haver multibanco disponível no interior do recinto, o que limitou muita gente no sentido do consumo (por não se poder sair do recinto e regressar), este foi um arraial tecnicamente perfeito.

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