O álbum de estreia de Archy Marshall – verdadeiro nome de Krule –  entra como uma lufada de ar fresco no panorama da música indie rock britânica. Ou será da darkwave?

Difícil de catalogar, a irreverente estética musical de King Krule confere uma dinâmica singular a 6 Feet Beneath the Moon, capaz de nos transportar para ambientes antagónicos. Ora pejados de romantismo, ora impregnados de carga dramática, os temas do álbum encerram um emaranhado de sentimentos e sonoridades invulgares e amplamente originais, sobretudo para um artista com apenas 19 anos de idade.

Quando inquirido numa entrevista sobre o estilo da sua música, King Krule respondeu dizendo que era como pôr todos os géneros que o influenciam num “meat grinder” e “picá-los” no seu cérebro, de onde saíam transformados. Uma resposta compreensível para alguém inspirado por sonoridades tão díspares como o hip-hop ou o jazz. Mas concentremo-nos no álbum. Editado a 24 de Agosto deste ano e co-produzido por Rodaidh McDonald (responsável pela produção do primeiro álbum dos XX), 6 Feet Beneath the Moon refere-se principalmente às vivências de um jovem adulto britânico, assolado pela necessidade de expor as suas paixões e confessar os medos. Um rapaz que aproveita o irreverente e adaptável timbre de voz para bradar sobre as desilusões da vida – Has This Hit? é apanágio da emotividade dramática do álbum -, e logo a seguir, dirigir-se de modo ternurento a uma possível amada, como faz magistralmente na música Baby Blue.

6 feet beneath the moon King Krule

De facto, as particularidades vocais de Marshall marcam todo o registo, sincronizando-se com uma inteligente escolha instrumental onde os singelos acordes da guitarra ganham preponderância, ou não fosse este antigo estudante da British School igualmente influenciado pelo folk e o blues. Na estrutura sonora de 6 Feet Beneath the Moon é ainda de relevar a importância dos sintetizadores e do piano (sem esquecer o baixo), bem patentes em temas como Bathed in Grey e Neptune Estate. O ecletismo de King Krule é tão vasto que podemos facilmente detectar a influência do hip-hop nesta última música, sobretudo pela sua cadência e disposição lírica. Porque, tal como afirmou numa entrevista, o rapper americano J Dilla é também uma referência incontornável do seu imaginário musical. Ainda assim, tal ecletismo não impede que algumas das músicas do disco soem bastante semelhantes, sobretudo por se relegar a vertente instrumental para segundo plano, em benefício do trabalho vocal.

Lizard State tem indubitavelmente uma aura de Arctic Monkeys, mas peca pela agressividade do conteúdo, em parte dedicado a enxovalhar as “fat bitches”. Perpetuar determinados preconceitos e ideias de beleza é bastante negativo, mesmo para um artista que só agora atinge o final da adolescência. Por outro lado, Easy Easy – um dos pontos altos do álbum, a par de Out Getting Ribs – deixa-nos perplexos, principalmente porque a sua simplicidade é, neste caso, antónimo de simplismo.

Embora algo rudimentar do ponto de vista da edição e masterização, 6 Feet Beneath the Moon é sem dúvida um arranque promissor para um jovem que começou por gravar algumas das músicas em casa, com apenas 12 anos. Se a música é feita de transformação, aqui se apresenta King Krule, o rebelde imberbe, pronto a colaborar nessa missão.

Nota final: 8/10

*Este artigo foi escrito, por opção do autor, segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945