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Os Vendavais de Emily Brönte

“Os orgulhosos arranjam desgostos às suas próprias mãos”

Esta frase resume na perfeição a fascinante obra escrita por Emily Jane Brönte na sua curta existência (1818-1848): O Monte dos Vendavais. Este é um livro irrepetível, por isso, é inglória qualquer tentativa de o reproduzir, seja por palavras, como o tento fazer agora, como nas suas versões cinematográficas, que foram aparecendo ao longo dos anos (certamente bem meritórias, como foi o caso da versão de 1939, de William Wyler, da versão de 1992, realizada por Peter Kosminsky, ou ainda da mais recente adaptação, de 2011, de Andrea Arnold).

O que pretendo transparecer sobre este livro é que a essência da escrita da autora apenas pode ser compreendida com a leitura propriamente dita. Este foi o único livro que Emily Brönte publicou na sua vida (em 1847) mas, sem dúvida, foi suficiente para  torná-la imortal 166 anos volvidos.

Wuthering Heights (1939)

O que mais intriga e perturba o leitor é a trama. O nó irreversível que adivinhamos desde o início da narrativa: centrado em Catherine Earnshaw e Heathcliff e no amor impossível que nunca poderá existir nesta terra e que o Monte dos Vendavais testemunhou.

Quem nos narra esta história passada no condado de Yorkshire, em Inglaterra, é Ellen (Nelly) Dean: a governanta sensata da casa de Cathy na Granja e antes aia dela na sua casa de solteira; Esta é a mulher que acompanhou do início o amor de Catherine e Heathcliff e a hesitação que o perseguiu. Nelly conta tudo com pormenores incríveis ao Senhor Lockwood, que chega ao Yorkshire em 1801 e se vê obrigado, numa noite de temporal, a pernoitar na quase assombrada casa do Monte dos Vendavais. É por inúmeras analepses que sabemos, ao mesmo tempo que este novo convidado, toda a história dramática de Cathy e Heathcliff.

Huthering Heights (1992)

Cathy é filha de um homem abastado, tão bondoso ao ponto de adoptar um jovem cigano rude e órfão como seu filho: Heathcliff. Porém, este nunca se consegue sentir parte integrante da família Earnshaw e é constantemente alvo de chacota por parte de Hindley, o irmão de Cathy, que além de sentir ciúmes, não confia na presença deste jovem intruso.

A bondade deveria ser sempre recompensada, pode pensar o leitor, que deseja acreditar no poder dos sentimentos nobres e nas pessoas. Porém, não é isto que acontece. Heathcliff não é representado como um ser sem coração e incapaz de amar nas primeiras páginas deste romance. Pelo contrário, ele ama Cathy e ela sente afeição por ele. Mas há amores que encerram maldições que vivem inquietas sem se conseguir solucionar em vida. Em vez de viver por este amor, Heathcliff cede ao egoísmo e torna-se na personagem mais vil que podíamos ter expectativa de encontrar nestas páginas.

Cathy não casou com Heathcliff mas com Edgar Linton, um personagem rico, de boas famílias mas, sobretudo, um homem bondoso e de acordo com a posição dela perante a sociedade. Não podemos afirmar que Catherine amava Edgar da mesma forma que amou Heathcliff, mas amou-o certamente de forma diferente. O ódio e a sede de vingança de Heathcliff não o deixam superar que “a sua Cathy” o tenha deixado para sempre. Ele persegue-a, leva-a à loucura quando decide fugir e casar com a irmã de Linton, Isabella, apenas para a transtornar e levar à depressão. Cathy acaba por morrer ao dar à luz à sua filha [Catherine Linton].

Wuthering Heights (2011)

A mente odiosa de Heathcliff não deixa de conjecturar. Ele fica cego com a raiva e sente-se incompreendido por ter ficado sem nada e, apesar de ser agora um homem rico, proprietário do Monte dos Vendavais, perdeu a única coisa que lhe importava: Cathy. Persegue possuir todas as pessoas e os bens da família de Cathy e Linton, pois a sua sede de vingança parece infinita… Tudo isto sucede em diálogos bem construídos durante a leitura deste livro.

Nem o seu adoentado filho, o jovem Linton (com sobrenome Heathcliff), escapa ao seu plano maquiavélico, já que este o obriga a manter uma relação de enamorado com Cathy Linton, filha de Catherine e Edgar Linton, a fim de, ao obrigar a realização deste matrimónio, conseguir herdar tudo o que pertencia à sua falecida amada. Heathcliff compreende tarde de mais que esse ódio putreficado afinal não resultou em regozijo para si.  Assombrado em vida pelo fantasma de Cathy, acaba por ser vencido pelo desânimo de se achar sozinho no mundo, imerso numa solidão que ele mesmo procurou. Pois não terá ele mesmo cavado a sua sepultura?

Heathcliff é a prova (ainda que ficcional) de que sempre colhemos as desgraças que semeamos e, se poluirmos o nosso coração, ele morrerá enegrecido. Um coração como este, sem compaixão, mais tarde ou mais cedo cessa de bater.

*Artigo redigido, por opção da autora, ao abrigo do acordo ortográfico de 1945

 LC_3591_O Monte dos Vendavais

10/10

Ficha Técnica:

Título original: Wuthering Heights

Autor: Emily Brönte

Género: Romance

Editora: Civilização Editora

Imagem de Destaque: http://sai_q.webs.com/apps/photos/photo?photoid=110978454

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