Marina Albuquerque

Marina Albuquerque: «É muito duro ser actriz em Portugal»

Atriz há duas décadas, Marina Albuquerque é um dos rostos mais conhecidos da comédia em Portugal. Nascida em Lisboa há 44 anos, notabilizou-se com a participação em várias séries e novelas televisivas, como Morangos com Açúcar, Ana e os Sete ou Malucos do Riso. Participou em mais de 10 filmes, mas é no teatro que centra atualmente as energias. Recentemente fez parte do elenco das peças O Grande Salão e Toc-Toc, que esteve em cena até ao passado sábado no Teatro Sá da Bandeira, no Porto. Num percurso revisitado na primeira pessoa, a artista dá conta das dificuldades que hoje se abatem sobre a profissão, agravadas pela diminuição das receitas orçamentais destinadas à cultura.

Comecemos pelo início. Como se deu a tua entrada no mundo da representação?

Foi algo que eu quase sempre soube que gostava. Fui muito ao teatro em miúda, os meus pais tinham amigos actores e amigos inseridos no meio teatral. Também íamos ao cinema e ao bailado. Depois lembro-me de no 9º ano ter visto um anúncio de aulas de teatro, e de me ter imediatamente interessado. Esse gosto foi crescendo e, quando acabei o liceu, fui para o Conservatório [actual Escola Superior de Teatro e Cinema]. Não conhecia o meio, por isso era uma boa alternativa. Como tinha média ainda ponderei ir para Direito, mas acabei por enveredar pelo caminho da representação.

Nesse momento compreendeste que o teatro era mais do que um hobbie?

Sim, que gostaria que fosse a minha profissão. Aquele era o único curso superior que tínhamos em Portugal, e na minha altura até era só bacharelato. Tive a sorte de ainda fazer a escola no Bairro Alto, no edifício escolhido pelo Almeida Garrett. Hoje, a Escola Superior de Teatro e Cinema é na Amadora, localização com que discordo, porque acho que devia estar no centro da cidade, junto dos teatros e da vida cultural. Mas foi um curso muito interessante. Há vários ensinamentos que me ficaram, e que ainda hoje utilizo.

A maior parte da tua carreira foi e é composta por papéis cómicos. Aborrece-te que te associem apenas a esse género?

Não, até porque a comédia é uma arte que eu considero difícil e superior. Parece mais fácil do que o drama, mas é uma arte que eu admiro muito, e há grandes comediantes espalhados pelo mundo. Eu adoro os ingleses, é de se lhes “tirar o chapéu”. Quase nos conseguimos rir de nós próprios. No fundo, o comediante tem que ter essa capacidade. Mas acho que essa conotação aumentou depois de eu ter começado a fazer televisão. Porque, depois de terminar os estudos no Conservatório, e com a formação do grupo Teatro do Século, fiz vários papéis dramáticos.

Falavas dos autores ingleses e da forma como influenciam a comédia. Quais são as tuas grandes referências?

São várias. Em relação ao humor, acho o humor britânico absolutamente fabuloso. Séries como o The Office ou os célebres Monty Python, que eu cresci a ver. Mas também os grandes dramaturgos clássicos e contemporâneos. Os Ingleses escrevem muito bem. Uma referência é o Tom Stoppard, que ainda hoje escreve. Também o Martin Sherman, com peças contemporâneas a partir das quais já foram realizados filmes. Depois o catalão Sergi Belbel, que quase fez uma escola de escrita, reflectindo sobre os problemas sérios da sociedade através de uma indissociável comicidade. O mundo da dramaturgia fascina-me, embora em Portugal não tenhamos muitas pessoas a escrever. Mas sempre li e continuo a ler teatro.

Participaste recentemente no programa de humor e entretenimento “Feitos ao Bife”, da RTP. Como foi essa experiência?

Foi muito agradável. Até porque não se cingiu à componente humorística, também introduzimos outro tipo de textos. É um programa com 6 actores e cada um tinha uma prova diferente. Utilizámos textos desde Fernando Pessoa a Chico Buarque, e outras coisas que as pessoas não estão tão habituadas a ver em televisão, e que eu senti que tinham saudades. Por exemplo, o Mário Viegas fazia muitos programas de televisão só a declamar poesia, e creio que os momentos que nós conseguimos criar estavam ausentes da televisão desde essa altura. Foi um programa que se afastou da lógica dos reality shows desprovidos de valor cultural, que agora estão mais em voga.

Por falar em reality shows. O formato televisivo parece cada vez mais preso aos ditames do mercado. Consideras, tal como muitas vozes apregoam, que a televisão portuguesa começa a ser monopolizada por um entretenimento despojado de conteúdo?

Sim, infelizmente isso tem vindo a acontecer. Sobretudo devido à questão económica. Hoje pareceque vale tudo. Para os publicitários investirem e as cadeias de televisão terem mais dinheiro, o principal são as audiências. Qualquer dia estamos a ver pessoas a serem agredidas ou mortas em directo… É perigoso e é pena, porque acho que se pode fazer muito boa televisão, ao contrário do que possa parecer. As séries norte-americanas e as séries britânicas de época são prova disso. O público gosta do que lhe dão e, ao contrário do que se possa pensar, gosta de qualidade. Creio que a televisão tem de ter um dever educativo, em detrimento da componente economicista.

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Participaste em filmes como A Konspiração dos Mil Tímpanos, ou O Barão, ambos realizados por Edgar Pêra. Quais são os maiores desafios proporcionados pelo cinema?

O cinema é incrível. É uma arte maior, quase como a pintura, e por isso também requer um engenho maior. Envolve muito trabalho. Infelizmente em Portugal também não há muito cinema. É pena, porque é uma arte fabulosa, de que toda a gente gosta. O meu percurso cinematográfico tem sido interessante. Lembro-me, por exemplo, de um dos primeiros filmes em que participei, o Ilhéu de Contenda, rodado na Ilha do Fogo, em Cabo Verde. Estivemos lá durante um mês e foi uma maravilha, sobretudo pelas experiências proporcionadas. O facto de estares noutro país, os locais onde se realizam as filmagens, a descoberta das pessoas da ilha e das suas histórias… Foi uma aventura, e constituiu o meu primeiro “flash” com o cinema. Depois disso já tive várias outras experiências, mas não é o aspecto principal da carreira de um actor em Portugal, porque fazemos mais teatro e televisão. A produção de cinema nacional ainda é, de facto, muito escassa.

Na peça Toc-Toc padecias de palilália e ecolália, obsessões compulsivas que te levavam a repetir todas as frases. Dados os seus contornos maníacos, esta personagem requeriu alguma preparação especial?

Requeriu alguma investigação, sim. Esta peça abordava os traumas obessesivo-compulsivos de uma forma light, brincando com os problemas de cada personagem. A minha personagem tinha problemas em exprimir-se. Repetia as frases proferidas pelas pessoas, ou então as últimas palavras de cada frase. Isto obrigou-me a algum trabalho de investigação. Fui saber quem eram estas pessoas, e descobri que estes tiques se manifestam sobretudo em crianças e autistas.

Como foi a recepção do público?

O espectáculo foi bem recebido. Estivemos cerca de dois meses em cartaz, e deu muito gozo ver que todas as noites o teatro tinha gente para se rir e se divertir. Creio que esta política é mais acertada do que a de outros espectáculos em que participei, e em que só actuávamos durante uma semana. É preciso mantê-los em cartaz, para o público ter oportunidade de ver e garantirmos alguma sustentabilidade financeira. Não só nas comédias, mas no teatro em geral. Esta comédia, em particular, foi uma aposta de algo que nunca se fez muito em Portugal: o teatro comercial, como há em Londres ou Paris. Deu-me realmente um grande gozo, e foi uma óptima escola, porque trabalhei com grandes comediantes como o Manuel Marques ou o António Machado.

Em Dezembro do ano passado apresentaste o espectáculo Diz-me Rápido, uma peça de 15 minutos que decorreu no Teatro Rápido, no Chiado. Esta peça tinha um conteúdo marcadamente político, em que criticavas o rumo do país e recorrias a textos de autores como Eça de Queirós, que já no século XIX falava da decadência dos povos do Sul da Europa. O teatro pode ser um modo de consciencialização e desenvolvimento de espírito crítico?

Sim, obviamente. E é-o desde os seus primórdios. Os gregos já usavam o teatro para explicar aos cidadãos como seria a organização da democracia. E acho que, fundamentalmente, continuamos a ter essa função. Já foi levada mais longe ainda com Bertold Brecht, que dizia que o teatro devia ter uma função política e de consciencialização. As pessoas tinham de ir para casa a pensar, caso contrário de nada valeria estar a fazer teatro. Acho que essa concepção continua a vingar entre os actores e os encenadores. Nós como criadores temos essa urgência, qualquer artista tem. E a cultura é um bem que permite denunciar o que nos rodeia, o que nos preocupa, o que se está a passar neste momento. O teatro pode contribuir para tomarmos uma consciência colectiva. Temos que tomar uma outra consciência humana, em detrimento da económica, que hoje prevalece.

Brecht dizia também que o teatro podia ter uma componente didática e ao, mesmo tempo, ser bom teatro e divertir.

Absolutamente. E ele tem grandes momentos de comédia nas suas peças e de sátira ao ridículo da sociedade. Fazia quase um cabaret de figuras e personagens que iam passando, um painel de gente, com problemas distintos. Acaba por ser um alto entretenimento, falando de assuntos sérios.

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Como é ser actriz em Portugal nos dias de hoje?

É absolutamente ridículo. Infelizmente acaba por ser uma profissão praticamente ridícula, porque quase não é considerada enquanto tal. É coisa de cidadão de 2ª ou 3ª categoria, que é como eu me sinto. Sempre trabalhei a recibos verdes e nunca tive subsídio de férias nem de natal. Não há uma consciencialização de classe, não há uma defesa dos nossos direitos. Portanto ainda é muito duro ser actriz em Portugal, porque é preciso muito endurance. É preciso ter sorte, é preciso trabalhar muito e às vezes inventar. Também é desafiante, porque está tudo por fazer. Há inúmeros projectos que se podem criar, há vários espaços devolutos em Lisboa que podiam ser usados com um fim cultural. Mas, tirando isso, ser actriz é verdadeiramente difícil.

Esse panorama tem ligação ao momento atribulado vivido pelo teatro em Portugal, agravado pela diminuição das receitas orçamentais canalizadas para a Cultura. Quais são as principais feridas abertas por esta escassez de apoios?

Em primeiro lugar, a extinção do Ministério da Cultura fez-nos andar para trás. Não se percebe como é que isto pôde acontecer. Actualmente não vejo nenhuma política cultural promovida pelos secretários de estado da área. Não compreendo, não se sente. No geral as orientações são de cortes, e a cultura tem sido altamente penalizada. Este até é um dos ramos que cresceu a nível de importância no PIB [Produto Interno Bruto], por isso devia ser-lhe dado um outro tratamento. Mas não é valorizado. Por outro lado, os cortes reflectem-se no número de teatros. Por todo o país há espaços que fecharam, outros foram deitados abaixo, outros não são recuperados… É já uma luta antiga. Ao mesmo tempo começou a recuperar-se uma pequena rede de teatros na província, mas estão destituídos de verbas e de um quadro de continuidade, que é fundamental. Mesmo assim acho que é importante fazermos cá [em Portugal], não temos de emigrar. Temos é de fazer, porque cá não existe. Há que arranjar alternativas, não ficar a depender do Estado para conseguir trabalhar.

Depois de duas décadas dedicadas à representação nos mais diversos campos, ainda tens projectos por realizar?

Claro. E tem que ver também com a idade. Agora posso fazer outro tipo de papéis que não poderia quando tinha 20. Tem também que ver com o peso enquanto pessoa, e isso reflecte-se nos actores. Agora tenho peso para fazer um certo tipo de personagens que aqui há uns anos não seria capaz. Não é que vá fazer a Lady MacBeth [risos], mas é também esse tipo de peso, e o desafio do actor é esse. Nunca paramos. Temos sempre diferentes cargas para pôr aos 20, aos 30, e agora aos 40. É um período de descoberta, de representação de mulheres mais maduras, mais fortes. Vai-se ganhando experiência. Mas há certamente muitas personagens que ainda gostaria de assumir.

Onde é que te imaginas daqui a 10 anos?

Não sei, não sei [risos]. Mas talvez parecido com hoje. Espero que melhor, porque gosto de ser optimista. Imagino-me a fazer teatro com os meus colegas, com os meus amigos, com as pessoas em quem acredito, com encenadores que admiro. E se conseguissemos criar um espaço de trabalho comum, ainda melhor. Vejo-me um bocado assim, e espero que seja esse o futuro. Um futuro de maior união.

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