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Fuzz, de FUZZ

A existência dos FUZZ é ainda curta, mas este seu álbum de estreia levantou já imensa expectativa – porque é (mais) um projecto do Ty Segall, porque, para além do baixista Roland Cosio, o junta com Charles Moonheart, o seu guitarrista dos Ty Segall Band, que lançaram Slaughterhouse o ano passado, e porque o mundo já não sabe para que lado é que Ty se vai virar. Fuzz responde à questão: para todo o lado, como Ian Curtis num campo minado.

Durante os dois primeiros minutos há uma aura melódica a lembrar, quiçá, uns Pink Floyd mais canónicos, mas o que aparece não é a voz do Roger Waters – há uma quebra, Moonheart pisa o pedal e tudo se torna numa locomotiva alimentada a ácidos e Black Sabbath. Os entendidos chamam-lhe heavy psych, também há quem diga que é psych-punk. Qualquer rótulo, aqui, será francamente redutor (assim como o próximo parágrafo).

Porém, tudo isto soa sempre a qualquer coisa, referências tão bem misturadas e usadas de modo tão inteligente que acabam formar uma sonoridade sem par: What’s In My Head? tem os Nirvana daquelas canções que nunca chegaram a ser lançadas em vida (apesar do solo ser pouco conseguido e uma cópia da ponte de Hey Joe, do Hendrix), Loose Sutures tem os Led Zeppelin de Moby Dick (de referir que quem assume a bateria em todo o álbum é o Ty) e HazeMaze consegue juntar o som áspero de Sabbath (a voz ajuda) ao gingar bluesy dos idos gloriosos dos Black Keys e saltar para uma espécie de Ramones, se os Ramones não fossem aborrecidos. Preacher tem dois minutos e vinte segundos e parece que é porque não consegue aguentar com o peso de todo o proto-thrash metal e Sleigh Ride e Raise transpiram Stooges por todos os poros. Assim se reduz um álbum a um parco repertório em esforço de memória e se acaba um parágrafo sem realmente dizer alguma coisa.

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É, realmente, um álbum consistente, para além de surpreendente. A guitarra rude, potente e virtuosa de Moonheart, o baixo como betão armado de Cosio e o renegar bem sucedido de Segall para a bateria é uma soma divina. A voz aguda, sofrida e arranhada, os coros andróginos – tudo o que se consiga enumerar é pouco, uma aproximação. Parece filigrana com sons. Todo o álbum é um frenesim, uma locomotiva sem travões, o Usain Bolt numa trip de cocaína e mescalina. É difícil dissecar em palavras um disco desta envergadura – tem momentos de fazer derreter a cara, ganchos que são murros no estômago e refrões de gritar até cuspir um pulmão, se eles se tivessem decidido a passar por cá na mini-digressão europeia que terminou ontem, em Liverpool.

É uma battle royale de tudo o que se fez em rock n’ roll nos anos 70 e um bocadinho mais que isso. É um álbum de rock à bruta e o que falta no mundo é paz no Médio Oriente e mais álbuns de rock à bruta.

Nota final: 9/10

*Este artigo foi escrito, por opção do autor, segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945

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