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Bruno Nogueira e Manuela Azevedo deixaram o Pimba em paz… ou talvez não

O passado sábado, 28 de setembro e dia de reflexão, vai certamente ficar para a história como o dia em que passou as ser aceitável gostar-se de música pimba, sem ser “às escondidas, para não parecer mal”. O texto de apresentação do espetáculo defendia a tese de que o pimba é “unificador”, sendo o único género musical capaz de fazer dançar e cantar os refrães (sim, Bruno Nogueira ensinou-nos nos primeiros minutos de espetáculo que o plural de refrão é refrães ou refrãos, nunca refrões) a plenos pulmões, seja numa festa na Quinta da Marinha ou num churrasco em Massamá. Foi apenas com este mote que se esgotou o Teatro São Luiz.

“Pusémo-nos giros (dentro do género) e fomos até ao São Luiz” sem saber bem o que nos esperava. Seria um concerto? Seria um espectáculo de comédia? Seria um leitmotiv? Seria um musical com o objetivo de restituir o encanto e o discernimento que a música pimba nunca teve? Ou seria que íamos perder 3 ou 4 horas da nossa vida que ninguém nos vai restituir a ouvir música pimba? Foi tudo isto que nos passou pela cabeça durante a espera na longa fila para entrar no teatro e que Bruno Nogueira perguntou, em jeito de teste americano, no início deste espetáculo homónimo de uma canção de Graciano Saga.

Ao entrar na sala via-se no palco um piano, um contrabaixo, elementos de percussão e de eletrónica, dando a sensação de que iríamos assistir a um concerto de uma qualquer banda da nossa eleição. Não foi exatamente isso, mas sim uma ode aos nossos guilty pleasures musicais. Pouco passava da hora marcada para o início do espetáculo quando Bruno Nogueira, Manuela Azevedo (que não podia ter sido melhor escolhida para integrar este projeto, ou não fosse uma artista tão multifacetada e uma das melhores vozes femininas do país), Filipe Melo, Nuno Rafael e Nelson Carvalho subiram ao palco, vestidos a rigor. Depois de um breve monólogo de stand-up de Bruno Nogueira (ou não fosse exatamente essa a sua praia) ou basicamente um chorrilho de mentiras, a música começou. O primeiro tema pimba a ser reinventado foi de José Malhoa, 24 rosas, e logo aí pudemos não só perceber melhor como é que iria ser o espetáculo, mas também ficar rendidos com as qualidades musicais de Bruno Nogueira. Mas o melhor ainda estaria para vir. As primeiras notas do tema seguinte pareciam de um tango e o contrabaixo fazia lembrar Rodrigo Leão…mas não, era Sozinha, de Ágata, cantada dramaticamente por Manuela Azevedo.

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A cada novo tema que surgia, não parávamos de nos supreender. Afinal, por trás de todo o folclore da música pimba, existem histórias complexas e um grande potencial musical. Afinal de contas não foi à toa que íamos cantarolando as letras, ainda que envergonhadamente por sabê-las de cor. Ao menos, quase toda a gente no São Luiz fazia o mesmo.

A primeira participação especial da noite foi a de Camané, ainda que virtualmente por estar em “Paris de França” para dar um concerto e não ter o dom da ubiquidade. Numa tela atrás dos músicos, o fadista reclamou com os caracteres pequenos da letra que lhe mandaram, pôs os seus óculos e cantou um tema de César Morgado.

Seguir-se-ia um dos melhores momentos da noite. Começa a soar uma batida de hip hop e surge a inquietação de “hum, o que é que vem daí?!”. Era nada mais, nada menos do que Vem devagar Emigrante, de Graciano Saga, provavelmente a música mais dramática alguma vez escrita, agora transformada num rap. Não poderia ter resultado melhor.

Quem também participou no espetáculo e mostrou saber rir de si próprio foi Marante, que subiu ao palco do São Luiz para interpretar o seu próprio tema Som de Cristal (que pelo acompanhamento musical mais parecia ser um tema de António Zambujo).

Pelo meio ouviram-se outros temas nossos conhecidos: Comunhão de Bens, de Ágata, Na minha cama com ela, de Mónica Sintra, a rapidez alucinante de Ninguém Ninguém, de Marco Paulo, ou a cacofonia de Leonel Nunes em Porque não tem talo o nabo (numa versão que, ironicamente, mais parecia de uma canção infantil).

Outra das participações especiais da noite foi a de Nuno Markl, que demonstrou o seu talento para cantar músicas de trás para a frente, aquando do tempo dos vinis e da sua adolescência quando “não tinha atividade sexual e tinha que fazer qualquer coisa para passar o tempo”. De facto, é um talento surpreendente e que serviu para Sensual, de Toy. Nuno Markl acompanhou o tema com um strip-tease, mas não vamos entrar em pormenores porque “só quem lá esteve é que sabe”.

A garagem da vizinha, de Quim Barreiros, interpretada apenas pela voz de Bruno Nogueira e pela guitarra de Nuno Rafael (transformando-a num tema quase folk), foi a canção que deu origem a todo o projeto, quando Bruno a decidiu interpretar num espetáculo seu de stand-up, enquadrado no The Famous Humour Fest.

Para o fim do espetáculo estavam guardados a emblemática Taras e Manias, de Marco Paulo, canção que serviu de single por já andar a circular na Internet na semana que antecedeu o espetáculo, e um medley arrebatador de temas de Quim Barreiros.

Apesar da curta duração do espetáculo e de terem faltado alguns artistas emblemáticos do pimba português (como por exemplo Dino Meira, Clemente ou Rosinha), Bruno Nogueira conseguiu algo nunca antes feito: ter pessoas de diferentes idades, géneros e classes sociais a deliciarem-se com as reinvenções de música pimba, numa sala tão emblemática como o São Luiz. Fundir um arraial académico, com uma festa de um clube de golfe ou com os santos populares parece uma missão impossível. Mas nada que a força unificadora do pimba não resolva.

Deixem o pimba em paz estará em cena dia 29 de setembro, ainda no São Luiz, para duas sessões (já esgotadas), dias 2 e 3 de outubro no Teatro Sá da Bandeira no Porto e dia 31 de outubro no Teatro Aveirense, em Aveiro.

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