Vota neste artigo como Melhor Crítica TV nos TCN Blog Awards! Aqui.

Chegou ontem ao fim a novela líder em Portugal: Dancin’ Days, da SIC. Foram 340 episódios, exibidos ao longo de quase um ano e quatro meses, com o slogan de lançamento “Vale a Pena Sonhar“.  O Espalha-Factos apresenta-te uma análise ao último episódio e um balanço geral de toda a novela.

A novela poderia ter acabado há mais de 2 semanas mas a SIC optou por esticar ao máximo a trama adaptada por Pedro Lopes do original brasileiro.

Esperar que o último episódio estivesse ao nível da marcante primeira fase da novela e da própria reta final, que trouxe à história um novo ritmo, era o normal para quem acompanhou todos os episódios de Dancin’ Days. Mas, para os fãs da trama, com certeza que aquilo que foi visto ontem à noite deixou muito a desejar.

O episódio começa com um ótimo gancho deixado no final do penúltimo episódio. Depois de colocar uma bomba no carro de Duarte (Albano Jerónimo), Inês (Maya Booth) vê Júlia (Joana Santos) a colocar Martim, o seu filho, dentro do veículo. Transtornada pela possível morte da criança, acaba por avisar o casal de que o carro está armadilhado. É então que a agora vilã da história pega no carro e segue pela estrada, a poucos minutos da bomba explodir.

E começa aqui a sequência final desta personagem, que depois de tanto sofrimento merecia um fim francamente melhor. Inês acaba por se lançar com o veículo por um penhasco e o carro explode no ar. Uma cena bastante clichê e que acabou por estragar toda a linha condutora desta personagem, que sofria de um transtorno psicológico, vinha a ter ao longo da trama, acabando por ser irreal, tanto a nível técnico com a nível narrativo. Era completamente escusado transformar aquela personagem numa verdadeira vilã. Afinal, toda a trama pautou por uma realidade própria de cada pessoa na história, mostrando sempre o seu lado bom e mau. Aqui, o final foi pela via mais simples e previsível.

Valeu pela tensão provocada pelos momentos de viagem que antecederam a morte de Inês e pela reação desesperada de Áurea (Custódia Gallego), a sua mãe, que acabou por receber um telefonema da sua filha para se despedir. E pelo flashback que mostrou, em poucos segundos, todos os momentos fortes da personagem. Depois disso, toda a forma como a cena foi editada e os efeitos especiais aplicados contribuíram para a irrealidade daquele desfecho.

Passam quatro dias na história. A cena que se segue é a mais bem conseguida neste final, desde a realização, às interpretações e aos próprios diálogos. Primeiro, vemos Aníbal (Vítor Norte) a confortar a ex-mulher pela morte da filha do casal e de seguida toda a família mais próxima ali reunida. Uma cena emocionante e que, com poucas palavras, transmitiu a dor de todos. Desde os pais ao irmão, passando pelos avós e também pela tia Carminho (Joana Seixas). Ficou a faltar a presença de Vera (Victória Guerra) que, estando numa viagem de interrail, deveria ter voltado para estar presente no funeral da prima. Afinal, já tinham passado quatro dias.


Mas a maior desilusão deste final está na forma como os núcleos mais cómicos do centro comercial chegaram ao fim. Para terminar as histórias de Ivo (Miguel Costa), Luísa (Sofia Sá da Bandeira), Sónia (Ana Guiomar), Cristóvão (Pedro Diogo), Matilde (Cleia Almeida), Nicole (Rita Lello), Hernâni (João Ricardo), Urbano (Guilherme Filipe) e Isabel (Sílvia Filipe), todas as personagens foram reunidas na esplanada do bar e, numa conversa forçada, revelaram o futuro próximo de cada um. Não vimos nada, não nos foi mostrada de uma forma concreta o final das personagens: tudo foi explicado apenas por ideias e palavras. Depois de tantas aventuras e desventuras ao longo da trama, mereciam todos um maior destaque.

Porque não acabar efetivamente com as imagens de Ivo e Luísa usadas no antepenúltimo episódio, em que aparecem no parque de nudismo? Porque não mostrar Cristóvão e Matilde já na Suíça, com o rapaz a sair de casa, nervoso, de manhã, enquanto a sua namorada e agora noiva o apoia no primeiro dia no CERN? Urbano e Isabel poderiam também surgir durante uma das primeiras ecografias do bebé do casal. E Sónia, não merecia uma cena em grande, depois de tanta ambição durante a novela? Questões que servem de exemplo para o que não foi feito e que deveria ter sido.

Também Babi (Sofia Cerveira) e João (Rui Porto Nunes) têm no último episódio uma aparição curta e que resume os seus papéis ao longo de toda a trama. A primeira sempre se limitou a ser a melhor amiga de Raquel (Soraia Chaves) e o segundo o namorado que apoia incondicionalmente Mariana (Joana Ribeiro). Nunca houve um desenvolvimento destas duas personagens, nunca vimos histórias para além daquelas que se relacionavam com as personagens acima referidas. Eram peças importantes, mas sem grande independência narrativa.

Voltam a passar 6 meses, Júlia e Duarte estão de partida para uma viagem no veleiro e a família reúne-se no cais par a despedida. Mais uma cena clichê e que serviu para reunir todos num só local e acabar rapidamente com a história de cada um deles. João, Mariana, Gui (Sisley Dias), Filipa (Noa) e Raquel juntam-se para se despedirem do casal de protagonistas. Raquel tem depois um final típico de novela: encontra o seu amor na mesma loja de roupa onde havia conhecido Zé Maria no primeiro episódio. Óbvio demais.

Já o final de Jorge (Pedro Laginha) e Carminho conseguiu tornar-se numa boa ideia muito mal executada. A cena era original: depois de tantos problema enquanto casal – e durante a segunda metade dos episódios pouco destaque tiveram – os dois acabam por se casar em Las Vegas, onde estavam em viagem. Mas tal e qual uma produção low cost, foi preferível  passar imagens de arquivo da cidade intercaladas com a cena do casamento, gravada num cenário um tanto ou quanto duvidoso, numa produção a roçar o ridículo. Merecia um melhor cuidado. Também ficou a faltar uma referência à pequena Joana, filha do casal, que de repente desapareceu: onde estaria a menina? Com os avós não estavam, com certeza…

É que Alberto (Igor Sampaio) e Ester (Margarida Carpinteiro) estavam nesse momento a assistir ao casamento de Aníbal e Germano (Paulo Pinto). Tendo em conta que estas duas personagens apenas tiveram destaque nos primeiros cem episódios da trama, o final acabou por ser dos melhores. Numa cena gravada à junto ao rio Tejo, este foi o primeiro casamento homossexual na ficção portuguesa, terminando a cerimónia com um beijo sem preconceitos. Importante ainda o diálogo entre Áurea e o ex-marido, em jeito de balanço e que fechou definitivamente as suas histórias.

Teresa (Cristina Homem de Mello) teve um dos finais mais interessantes, mas podia ser bem melhor. Na sua última cena na trama, vemos a mãe de Duarte a resmungar com os homens que lhe fazem a mudança de casa, porque não conseguem que uma mesa antiga caiba no seu novo prédio, situado num bairro onde passará a morar.

Surge a cena final. Duarte e Júlia no veleiro, iniciam a viagem com o filho Martim. Muito, muito fraco. Podíamos ter um pequeno flashback dos principais momentos do casal… Poderíamos ter um gesto mais simbólico tendo em conta a sua história na trama… Poderíamos ter uma realização mais cuidada. Depois de vermos as fantásticas imagens de Itália, esta cena final ficou a dever muito à realização e montagem. Faltou ainda emoção e era preciso que ela estivesse presente. Afinal, era a vitória de um amor que lutou contra tudo e contra todos ao longo de toda a trama. Mas mais uma vez, optou-se pelo óbvio.

Em termos gerais, o que faltou a este final foi mostrar efetivamente o desfecho das personagens. Em quase todos os casos, optou-se por se ouvir cada um contar como iriam acabar. Um final apressado e que deixa alguma mágoa para aqueles que esperavam uma despedida em grande e marcante das suas personagens preferidas. Faltou emoção, faltou novidade e sobretudo surpresa junto dos espetadores. Mas, por outro lado, será que este é precisamente o retrato mais fiel da vida real? Para quê mostrar um final, quando a vida daquelas pessoas não acaba ali, apenas está a começar?

Ponto positivo para a sequência final no Dancin’, com (quase) todo o elenco a surgir para se despedir da sua personagem. Serviu como uma homenagem a cada um dos atores que fizeram desta novela um sucesso. Faltavam algumas personagens – optaram por não trazer de volta Inês, Hugo (José Fidalgo), Zé Maria (Alexandre Sousa) ou Francisco (Júluo César) – mas a ideia acabou por resultar bastante bem.

Uma coisa é certa: esta novela conseguiu o feito de segurar os espetadores ao longo de todo o período de exibição. Mesmo com tanto tempo em antena, quem assistiu deixou-se encantar pela história de Júlia e Duarte.

As personagens e diálogos próximos da realidade, as histórias bem trabalhadas dentro de cada um dos núcleos e o destaque dado a todos os intervenientes quase por igual – com exceção para os protagonistas que sempre estiveram em primeiro plano – foram alguns dos ingredientes responsáveis pelo sucesso. Valeu a pena sonhar? Claro que valeu, e que muitos irão sentir a falta desta companhia no horário nobre da SIC, disso não há dúvidas.

 Nota geral: 7,5/10 (Pecou pelo grande número de episódios.)

Nota último episódio: 4/10 (É ao mesmo tempo estranha e especial a despedida destas personagens às quais nos habituámos durante tanto tempo. Mas todas elas mereciam mais neste final.)