Festa do Avante!, dia 8: ‘A luta é alegria!’

Tudo o que é bom tem um fim, por mais que seja difícil admiti-lo. O domingo foi o terceiro dia da Festa, com uma autêntica celebração da família comunista. E a verdade é que “there’s no party like communist party”!

O dia encheu-se de cor, bandeiras e tambores para fazer honras de fecho na 37.ª Festa do Avante!. Nunca nos pareceu tão oportuna a frase “A luta é alegria!”, e, como disse José Casanova, «a festa é o partido e o partido está na festa». E estes comunistas são tão bons a contestar como a comemorar.

O comício de encerramento serviu bem para demonstrar a diferença existente entre a militância de um comunista e a de um membro de outro qualquer partido nacional. É um recinto cheio para assistir ao único “festival de verão” que consegue ter, com sucesso, Jerónimo de Sousa como cabeça de cartaz.

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O líder da força vermelha que se fez sentir de forma retumbante na Quinta da Atalaia só pode estar orgulhoso desta sua rentrée. Eu nem tenho nada a ver com o assunto e guardei para mim o direito de sentir orgulho por tudo o que aquelas pessoas construíram.

Concerto marcante da tarde ficou a cargo de um coro de milhares, apesar da setlist curta: Avante Camarada, A Internacional e Carvalhesa deram corpo a tudo o que sentimos nestes dias e a todo o impacto que tem, em qualquer pessoa, a alma com que tudo se vive por ali. Confesso: não fosse eu uma pessoa segura das minhas ideias e estava a um passinho de aceitar o convite da loirinha que me queria filiar na Juventude Comunista.

Toda a gente Fon Fon Fon!

Deolinda sobem ao palco perante um recinto que está cheio e continua a encher. Um Contra o Outro e Clandestino estão na ponta da língua, sendo que Ana Bacalhau está numa noite sim – soa límpida, cristalina e oportuna. A presença em palco é contagiante, cheia de nuances interpretativas. A noite é tão limpa e feliz como o que se vive em palco e, por isso mesmo, toda a gente Fon Fon Fon com algum romantismo. Novos coros em Fado Toninho, que deve ter sido a música com mais decibéis do concerto. Um som para multidões.

Doidos deixa a loucura instalar-se, numa letra “que diz que o corpo não se privatiza”. E por aqui, nada deixou a propriedade pública, numa coletivização da histeria e do encantamento. Realmente há coisas que devem ser sempre de todos. O sentimento de ter que mudar o que está mal é uma dessas coisas. “Parva que sou” entra a matar e soa a exclamação e grito de luta, em novo consenso da assembleia. “E, se é para mudar alguma coisa, (…) que seja agora!”, diz Ana Bacalhau. Este é um êxito de verão e até é o tema do vídeo da CDU nas Autarquias, e a toada enérgica não para. Movimento Perpétuo Associativo encaixa ali como uma luva e surge colada à Musiquinha.

A Musiquinha é tocada com os Xutos & Pontapés. O rock e a tradição misturam-se, num palco também preenchido de admiração mútua. Tim peca pela falta de ensaios, mas Gui e João Cabeleira escondem bem as falhas do vocalista, em momentos de brilhantismo instrumental.

Saímos em corrida para honrar António Zambujo, hoje relegado para o Auditório 1.º de Maio. Fica a dúvida do porquê de não ter merecido a presença no Palco 25 de Abril, ao mesmo tempo que se revela impossível entrar. Ouvimos, bem ao longe, aquele fado slow com cheiro a Alentejo. Guia foi a única que conseguimos distinguir bem. Podemos dizer que tentámos… certo?

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Gente a pontapé

O recinto em frente ao palco principal tanto encheu que transbordou. Quando nós lá chegámos, a energia esticava-se desde a frente de palco até às primeiras barraquinhas mais próximas da relva.

Circo de Feras e Perfeito Vazio mantiveram as gargantas afinadas. As mesmas que bem se esforçaram para dar as boas vindas a Ana Bacalhau, num novo mash-up entre as duas principais bandas da noite. Desta feita para uma interpretação de Dia de São Receber em que quase substituiu Tim. No meio, a citação politicamente (in)correta – “Ai coelhinho, se eu fosse como tu, pegava na troika e enfiava-a no…”. Uma interpretação ao jeito de Bacalhau que foi logo seguida por À Minha Maneira, Chuva Dissolvente e Contentores. A Minha Casinha encerrou um quarteto de músicas da zona de conforto da banda nacional, interpretadas do início ao fim, em conjunto com o público.

Sei que ultimamente não é fixe dizer bem dos Xutos, mas será absolutamente autista ignorar a sua capacidade de mobilizar multidões e o seu papel importante – e inegável – na construção do rock português. O encore chega com Maria, a relembrar, ainda mais que o PCP, o que ainda falta fazer pela rede de transportes portuguesa – 9 horas de Bragança a Lisboa!

A noite termina em apoteose e encerram-se três dias de grandes emoções, pelo menos deste que vos escreve. Cá fora, já no caminho de regresso a casa, ouvimos um velho camarada – “e agora são as eleições, vamos lá a labutar”. Há uns tempos, o jornal I escrevia que os comunistas são «a tribo que resiste». Não haja dúvidas, eles são resistentes e estão para ficar.