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Festa do Avante!, dia 7: ‘A vida são dois dias e a Festa são três’

A vida são dois dias e a Festa são três. A diversão reinava quando chegámos, na tarde de ontem, à Quinta da Atalaia. Enquanto degustava uns saborosos lombinhos no pão da Organização Regional do Alentejo (cheers, camaradas!), observei um dos maiores motivos de entretenimento do fim de tarde – um bebedouro com demasiada pressão na água. Entre autênticos repuxos, banhos insólitos e conversas sobre a técnica possível para conseguir saciar sede, estava na hora de ir ao trabalho.

Acreditar numa terra de fraternidade

Os sons moderno-tradicionais dos Dazkarieh já invadiam o recinto do Palco 25 de Abril, com Olhos de Maré a ter honras de abertura. (Ir)Real, do álbum do ano passado, seguiu-se, em provas de maestria instrumental numa perfeita ligação entre os instrumentos tradicionais e o rock português mais moderno. Primeiro Olhar, um tema sobre a perda da inocência e o contacto com a realidade do mundo, completa o alinhamento inicial. A vocalista, claramente a viver o momento, acrescentou em sedução aquilo que, em muitas situações, lhe faltou em domínio vocal.

E estamos no sítio do país onde se encontram mais boinas militares à Che por km2, ou onde ainda se veem camisolas da seleção nacional da antiga URSS. É possível também ver o comunismo como uma coisa vintage, uma memória dos saudosos anos 80. E, neste sentido, é interessante notar que as coisas antigas estão na moda. Será o comunismo uma delas?

Segue-se Senhora da Azenha, uma música sobre acreditar. E é disso que se fala a seguir – “Se construímos isto tudo [a festa do Avante!], é possível construir muito mais”. O público faz primeiros treinos para a Carvalhesa.

O concerto entretanto termina e seguimos para uma breve visita ao Espaço Internacional. O Partido Comunista de Espanha passa Grândola Vila Morena, e que sítio melhor para o fazer que esta terra de fraternidade?

O julgamento da história

O espaço do Avanteatro foi pequeno para receber todos os que quiseram ver a encenação d’O Julgamento de Álvaro Cunhal pela Companhia de Teatro de Almada. Para conseguir entrar, apenas a carteira de jornalista valeu de alguma coisa, perante o protesto de pelo menos um dos elementos do público.

A peça é uma homenagem sentida ao eterno líder do comunismo nacional, sendo que é inquietante a atualidade do enredo. A interpretação de Luís Vicente, no papel de Cunhal, é muito convincente, de uma força e de um caráter notáveis e faz nos querer (crer) estar mesmo na presença do antigo secretário-geral. Angústia total no quanto as palavras de outrora e as acusações ao Estado Novo podiam encaixar nos dias de hoje, num Portugal de dependência económica e política, que não explora os seus próprios recursos, que se deixa canibalizar por monopólios. Um país de menos liberdades individuais e de desrespeito aberto pela lei fundamental e pelas instituições democráticas.

O público encerra a peça com quatro fortíssimas salvas de palmas e de punho cerrado gritando ‘A luta continua’. Comunista ou não, foi impossível sair da sala indiferente e sem lágrimas nos olhos e arrepios na espinha.

Noite de estrelas

Sérgio Godinho já tocava no Palco 25 de Abril quando nós chegámos. A performance foi boa e vocalmente irrepreensível. Um dos génios da música contemporânea nacional, fez um desfile de êxitos e satisfez um público que já o tem como alguém da casa. O Primeiro Dia, Com um Brilhozinho nos Olhos ou A Noite Passada foram hits que passaram por lá, entremeados com alguns sucessos mais atuais, como Acesso Bloqueado e Bomba Relógio.

A noite abriu com um dos ídolos da geração mais experiente nestas coisas da Festa, mas prosseguiu depois com Primitive Reason, que confessamos que trocámos por uma bela vitela de Vila Real e, depois, momento aguardado da noite: Expensive Soul.

Subiram ao palco 15 minutos depois da hora marcada e com o recinto à pinha. Mr. Dow Jones é a escolhida para abrir as hostilidades e não podia haver tema mais adequado, tendo em conta o recinto. O nervosismo dos mercados, o espirro em Nova Iorque que constipa o planeta. Uma reflexão interessante sobre os dias de hoje.

Depois seguem-se hits em barda, numa ordem que em tantos saltos e danças pode ter ficado baralhada. Dou-te Nada, Sete Mulheres, Cupido, Sara ou ainda uma surpreendente versão da Machadinha, num plenário que aprovou os rapazes de Leça da Palmeira com unanimidade e aclamação. No encore, com as t-shirts no ar e as hormonas em agitação, Falas Disso e Eu Não Sei.

Aplausos e gritos foram muitos, mas o grande sucesso ainda estava por tocar. O recinto imobilizou-se numa espera emocionante pela grande melodia do Avante!. É com êxtase e muita poeira que toca A Carvalhesa. Há momentos que não se esquecem, e se eu fosse estrangeiro julgava que estava perante uma espécie de hino nacional, tal a reação das pessoas. Hoje, o último dia. A vida são dois e a Festa são três. Não podemos prolongar esta vida em Festa?

As fotos da autoria do Espalha-Factos serão adicionadas durante o dia de amanhã, por impedimentos logísticos que não possibilitaram a finalização normal da reportagem de ontem.

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