Apesar de ser a primeira semana de Setembro e de os calores de Verão não serem os mais convidativos para um concerto indoor, os Built to Spill foram capazes de atrair, no passado dia 4, uma quantidade generosa de fãs ao Lux Frágil. A recompensa foi, para os aventureiros, um belíssimo concerto, rico em canções intensas e uma distorção ensurdecedora.

A abrir a noite, por volta das 22 horas, estiveram os helvéticos Disco Doom, grupo encabeçado por Gabriele de Mario e Anita Rufer. Nas mãos, para além do peso de uma carreira com mais de 15 anos, os suíços trouxeram um novo single, Ex Teenager, avanço para um disco futuro, a ser lançado ainda este ano.

Em pouco mais de meia hora a banda foi destilando, com mestria, canções com uma sonoridade retirada do baú do alternative rock norte-americano dos anos 90 (ignoremos o facto de virem de Zurique), numa actuação impressionante e ruidosa que, confesso, me deu vontade de os ver em nome próprio por estas bandas. Gabriele até confessou adorar as vistas marítimas de Lisboa, o que me faz pensar que ficaríamos todos a ganhar com um regresso dos Disco Doom a solo nacional.

Faltavam poucos minutos para as 11 da noite quando Doug Martsch (voz/guitarra), Brett Netson (guitarra), Jim Roth (guitarra), Steve Gere (bateria) e Jason Albertini (baixo) findaram os preparativos e deram início ao concerto. Abrindo com a encorpada e viciante Goin’ Against Your Mind, seguida da explosiva Conventional Wisdom, ambas retiradas de You in Reverse (2006), os Built to Spill deram logo o mote para o que seria uma actuação dedicada, sobretudo, a uma revisão de catálogo.

Volume no 11, distorção e feedback a rodos e riffs e solos rasgados, foram estas as maravilhosas armas usadas pelas três guitarras do grupo para atacar os ouvidos dos presentes (como se o excelente PA do Lux Frágil não fizesse esse trabalho sozinho), numa notável demonstração de vitalidade por parte daquela que é uma das últimas grandes instituições indie norte-americanas ainda activas.

A atitude de Doug Martsch, afável e simpática (vimo-lo a conversar despreocupadamente com alguns fãs antes do show) mas sempre com um toque de estranheza e timidez (não são assim todos os “alternativos” que se prezem?), complementou de forma perfeita as canções que têm preenchido o imaginário de miúdos e graúdos inadaptados que encontraram nas arestas do lo-fi e no ruído do alternative rock um conforto e uma salvação.

Center of the Universe e Sidewalk, saídas de Keep it Like a Secret (disco de 1999, discutivelmente o melhor dos Built to Spill), levaram grande parte da plateia a trautear os agridoces ganchos de guitarra. Depois de Wherever You Go, seguiu-se um dos pontos mais altos da noite, com a magnífica versão de Here, canção dos míticos Pavement, a deixar estarrecidos muitos dos presentes (eu sei que fiquei com lágrimas nos olhos).

Planting Seeds (de There is No Enemy, de 2009) e Carry the Zero (mais uma de excelente colheita de 1999) sublinharam a ouro o corpo principal do espectáculo. Porém, a pouco convincente saída de palco do grupo fez adivinhar um encore que se revelou delicioso, devido à mistura de covers e “raridades” do grupo. (Don’t Fear) The Reaper, dos Blue Öyster Cult, Stop the Show, Joyride e a estonteante How Soon Is Now?, “roubada” aos The Smiths, encerraram uma noite onde só faltou atender aos inúmeros pedidos por Car, o “quase-hit” do grupo. Mas bem feitas as contas, a verdade é que a passagem dos Built to Spill por Lisboa foi, apesar de tardia, nada menos do que esplêndida.

*Este artigo foi escrito, por opção do autor, segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945