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Sala demasiado VIP no Teatro da Politécnica

Após uma breve presença na Culturgest, a Sala VIP de Jorge Silva Melo estreia no lugar onde foi produzido, na casa dos Artistas Unidos, para inquietar e confundir os espetadores mais leigos de 4 de setembro a 19 de outubro.

Escrever-vos sobre esta peça torna-se difícil, não por nos deixar sem palavras, fruto de uma encenação soberba e de um texto irrepreensível, mas por ser talvez demasiado complexa, demasiado erudita, demasiado elitista talvez.

Jorge Silva Melo decidiu escrever uma peça após um pedido de Pedro Gil, que a encenou, o que permitiu envolver o autor no próprio processo. Tinha tudo para dar resultado, pois está mais que provado que qualquer produção que conte com o auxílio do autor sai beneficiada. Contudo, surpreendentemente, Jorge Silva Melo, no seu texto, faz mudar abruptamente de erudito a popular, numa fala de poucos segundos. Personagens complicadas, que ou se entendem ou não. O resultado é simples: quem não conhece uma ópera de Puccini, no qual grande parte do espectáculo se baseia, não percebe a maioria das cenas que, entrecortadas umas nas outras, vão compondo uma história.

SALA VIP

São cinco personagens, todas à espera de algo, não se sabe bem o quê. O local também pouco interessa: será um aeroporto internacional ou um hotel? Quatro artistas velhos e cansados cantam a solidão artística, o corriqueiro pagamento dos sentimentos e dos afetos, com uma voz que já ninguém ouve, fechados nalgum local citadino e desértico. E um jovem – que destoa do resto do grupo. A paixão de um outro. A rejeição dele mesmo. Trata-se de mais uma personagem a juntar à peça, mais uma personagem que não se percebe bem o que é nem o que faz – sabe-se que canta, também ator talvez. Talvez a personificação do desejo.

Reina uma palavra neste espetáculo, a palavra da indecisão, da incerteza: talvez. Talvez não fossem precisos tantos adornos, tantas repetições “musicais”.

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As personagens têm uma certa profundeza que não chega a atingir o público. Uma tem medo, outro não sabe do futuro, outro só sabe o passado. Deixa-nos a pensar, como se pretende – mas não nos consegue deixar pistas para uma conclusão lógica. Jorge Silva Melo deixou ao encenador um trabalho muito complicado e Pedro Gil, admita-se, conseguiu simplifica-lo – trabalho árduo. É no olhar das personagens, no tom da fala, num gesto, que se percebe o porquê daquela repetição. Talvez falhe apenas na tentativa falhada de uma estalada ou de um esfaqueamento, que se torna quase cómico quando percebemos perfeitamente que ninguém foi tocado durante uma briga.

Quanto às luzes ou ao som não há muito a dizer. Optou-se por utilizar luminotecnia simples, luzes quase naturais. Uma boa escolha foi também a escolha do cenário. Está bem conseguido, talvez marque presença uma máquina que não é necessária apenas porque se repete, ao longo do espectáculo “a máquina está vazia”, mas no todo, o cenário contribui e de que maneira para a mais simples, e ainda assim complicada, compreensão da narrativa. Elogie-se pois a encenação – embora nos deixe sem palavras para descrever, embora nos deixe sem saber o que dizer pois a compreensão não é a suficiente para dar opiniões, o trabalho de encenação coloca-nos no centro da ação, fruto dos atores que entram e saem por onde o público tenta entender toda aquela narrativa. Tentou-se simplificar o complicado. Uma boa opção, mas ainda assim, não chega ao público como se esperava.

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Se a peça critica a morte de algumas formas de fazer teatro, talvez mais eruditas ou de classe mais elevada, esta contribui com certeza para a continuação da falta de público no teatro. Ainda assim, sabemos que “juventude é o nosso nome, esperança a nossa ideia” e o teatro nunca vai morrer.

Fotografias de Beatriz Nunes

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