Novos ventos chegam ao mercado literário português e um dos sinais mais significativos dessa mudança é a presença de livros de fantasia de escritores portugueses nas estantes das livrarias. Ocupam, bem aos poucos, um lugar de destaque ao lado dos livros internacionais impingidos unicamente por modas e tendências. Inverno de Sombras, da escritora Liliana Lavado, é um dos livros de fantasia publicados no primeiro semestre de 2013. Promete alguns ingredientes fundamentais para um livro de fantasia de qualidade: mistério, magia, aventura e apesar de não ser enumerado, uma pitada de amor entre os protagonistas desta história. E qualidade é palavra de ordem para esta obra com quase 600 páginas.

Pode ser confundido com qualquer outro livro de fantasia escrito por um autor estrangeiro. Escreve como L. C. Lavado e as personagens têm nomes como Andrea, Danton, Pierre até mesmo Isadora, a personagem principal da trama. Mas o ingrediente fundamental para tornar esta história tão nacional é o cenário de fundo: todos os acontecimentos passam-se em Lisboa. A capital portuguesa é colocada como o local onde toda a narrativa decorre, quer seja nas ruas do Chiado quer seja no castelo de S. Jorge, onde se desenrola alguns dos capítulos principais do Inverno de Sombras. O cheiro a nacional começa logo na capa, com um espaço reservado para a ponte 25 de Abril. Para um leitor assíduo de fantasia não é habitual ter os espaços lisboetas como fundo, onde se pode encontrar um toque de magia nos Armazéns do Chiado ou bruxos nas ruas de Lisboa.

Inverno de Sombras dá a conhecer a história de Isadora, Pierre e Danton. O triângulo amoroso começa quando os três se conhecem na faculdade de Belas-Artes da capital. Isadora é um dos últimos membros da família Santa-Bárbara, abastada financeiramente – um dos elementos mais fantasiosos tendo em conta a situação económica do país mas quem se preocupa com esses pormenores num livro direcionado para o entretenimento? – juntamente com o seu tio Garrett, proprietário de uma quinta na zona da Lapa depois de toda a família ter morrido num acidente trágico dois anos antes. Ao conhecer Pierre, suposto estudante francês ao abrigo do programa Erasmus, Isadora abre uma “caixa de Pandora” sobre os segredos da família e todo um universo mágico que necessita de descobrir. A trama é muito mais do que foi descrito, há magia em todos os cantos deste livro, um novo segredo para ser descoberto ao avançar de cada página. Um dos pontos a favor da obra é a incapacidade para ser largada, a sensação de vício que só alguns escritores conseguem colocar nos leitores como acontece na maioria das obras de fantasia.

O ponto desfavorável do Inverno de Sombras é unicamente a quantidade de páginas para o avanço da trama. Pode ser um ponto de qualidade ou defeituoso: os mais curiosos e com gosto avançam furiosamente, os leitores mais cansados poisam a obra em cima da mesa-de-cabeceira e optam por um livro mais leve. Mas um ponto desfavorável trata-se apenas de um pormenor quando colocado ao lado dos pontos positivos deste livro: os segredos têm lógica e revelam muito das personagens, mostradas numa fase inicial como muito puras e sem maldade no coração. Os leitores têm, nas mãos, um livro de fantasia urbana portuguesa de qualidade – como não se via nas livrarias portuguesas há algum tempo. É um ar fresco para os apreciadores do género, finalmente existe uma obra com ruas reconhecíveis aos nossos olhos. Há facilidade na imaginação dos cenários e das cenas.

Podes ler aqui a entrevista realizada a L. C. Lavado e, mais abaixo, um vídeo da escritora sobre o Inverno de Sombras.

8,5/10

Sobre o livro:

Autor: L. C. Lavado

Páginas: 590

Editora: Marcador

Data de lançamento: abril de 2013