O MOTELx está a chegar e traz consigo o Prémio Yorn MOTELx – Melhor Curta de Terror Portuguesa 2013, o único galardão do Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa. A concorrer para este prémio estão nove curtas-metragens nacionais: Bilis Negra, de Nuno Sá Pessoa, Desespero, de Rui Pilão, A Herdade dos Defuntos, de Patrick Mendes, Longe do Éden, de Carlos Amaral, Nico – A Revolta, de Paulo Araújo, O Coveiro, de André Gil Mata, Hair, de João Seiça, Monstro, de Alex Barone, e Sara, de Miguel Ângelo.

O Espalha Factos entrevistou os nove realizadores, que apresentam os seus filmes, e falam sobre o atual estado do cinema português.

Fica hoje a conhecer Rui Pilão e a sua curta-metragem Desespero.

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O que nos traz Desespero?

Rui Pilão – Desespero abre-nos a porta de um lar português e mostra-nos a crise destruir uma família. Infelizmente, a história retratada no filme surge diariamente nos meios de comunicação social; as previsões, como tal, não são as mais positivas. Este filme mostra que o amor pode ser representado de várias formas. Por vezes, os atos trágicos podem não ter origem na maldade mas sim numa forma doentia de amor. São 13 minutos intensos, com uma história densa e com momentos que personificam o estado de desespero. O objetivo era cativar o público, fazê-lo sentir empatia pelos personagens e manter o interesse do início ao fim. Espero atingir essa meta na estreia, sendo muito importante para mim a opinião do público. Vou estar atento aos sinais, de forma a evoluir em cada projeto futuro.

A atual situação económica do país serviu de mote para Desespero. Qual a principal mensagem que pretende passar?

RP – São várias as mensagens, umas relacionadas com a crise, o foco principal, mas outras também relacionadas com o cinema em si, especialmente o português. Estou numa fase inicial em que pretendo encontrar o meu caminho caminhando, melhorar as minhas competências, enfim, tenho ainda uma grande curva de aprendizagem. Sem querer revelar demasiado, procurei explorar uma componente mais psicológica, usando um tema atual e que afeta muitas pessoas. As opções de edição foram escolhidas de forma a prender o público intensamente, criando vários picos de tensão. Acho que, no fundo, o que tenho tentado mostrar continuamente com os meus filmes é que é possível fazer muito com pouco. Que é possível entrar em festivais e competir com curtas financiadas, de maior orçamento, realizadas por pessoas com mais experiência, e mesmo assim ser aceite. Pretendo também mostrar que é possível fazer filmes com história e forte significado, sem aborrecer quem vai assistir. Bem.. assim o espero.

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Será Desespero a prova que a austeridade dá um filme de terror?

RP – Desespero mostra que, em qualquer momento, a nossa vida pode mudar, dar uma reviravolta. Antes da crise, muitas famílias – não digo todas – viviam uma ilusão, viviam acima das suas possibilidades porque alguém alimentava a situação. Vivia-se de fachada ou de acordo com rendimentos pouco sustentados. É óbvio que esta curta-metragem não retrata só esses casos, todos nós estamos a pagar por isso. As medidas de austeridade transformaram o nosso país, criando instabilidade emocional, insegurança. O terror para mim surge sob várias formas, sendo o mundo do sobrenatural a mais recorrente. Mas todos sabemos que a realidade pode ser bem mais cruel e assustadora do que uma mera ficção baseada em superstições. Podemos até viver em negação, mas se não pagarmos as contas a tempo, os bancos ou as finanças vêm cobrar. Essa perspetiva é terrível. Cada dia que passa, mais pessoas sofrem penhoras sobre os seus bens, e isso de certeza que pode provocar uma alteração no estado mental de qualquer um. A angústia é uma dor invisível, temos doentes invisíveis. É algo realmente assustador. O pensarmos que não estamos imunes, que também podemos ser contagiados. São os medos que, de certa forma, nos fazem mover e lutar. Eu, pessoalmente, tenho receio de não conseguir alcançar os meus objetivos, os meus sonhos. Nem consigo imaginar o que será perder tudo, principalmente quando se tem obrigações, despesas, uma família para sustentar, que, felizmente, ainda não é o meu caso. Espero sinceramente que as mentalidades do nosso país mudem. Contudo, não pretendo mudar o mundo, não tenho esses ideais, sou incapaz dessa grandeza. Procuro sensibilizar as pessoas para certos temas. Sou liberal na opinião, todos devemos ter a nossa. Enfim, respeito a fronteira individual de cada um.

Estando a crise económica no centro de Desespero, como vê o estado do cinema português, atualmente, tendo em conta a crescente aclamação internacional, que contrasta com a falta de apoios ou mesmo com a presente situação da Cinemateca Portuguesa?

RP – Se me permitem vou contar uma pequena história: “Era uma vez um cinema chamado Torralta”. Durante toda a minha infância e grande parte da adolescência, esse espaço influenciou a minha paixão por esta arte. Foi lá que vi o meu primeiro filme e também foi lá que vi O Rei Leão e fiz um grande esforço para não chorar à frente dos meus colegas. Mas infelizmente, com a construção de um centro comercial, veio o cinema com várias salas. Fantástico! Tínhamos mais escolha, melhor acústica, salas acolhedoras pela sua dimensão. A minha amada Torralta não resistiu aos tempos de mudança do Cinema Paraíso. Esse grande cinema que estava espalhado um pouco por todo o país acabou por também fechar. Atualmente, Bragança, a minha terra natal, não tem cinema. É dramático, são sinais da crise!

Agora respondendo à sua questão sobre a Cinemateca Portuguesa, realmente é triste quando algo é ameaçado e acaba, mas, honestamente, já estive mais sensibilizado para isso. Uma capital tem “tudo”, pese embora queixar-se que não tem “nada”. Não valorizamos o que temos, até ao momento em que o perdemos. Eu até devia ficar revoltado porque esta história que acabei de lhe contar vai passar ao lado da maioria das pessoas. Infelizmente este país é assim, e não se resume só ao cinema.

Quanto ao estado do cinema português, não sei até que ponto essa aclamação internacional, que acaba por se cingir à Europa por razões óbvias, se torna relevante em termos comerciais. Sim, eu disse a palavra tabu. Será que os “nossos” filmes são amados pelo público em geral? Acreditam honestamente que o público português e internacional realmente deseja ver o nosso cinema? As estatísticas dizem que não, embora haja pontualmente pequenas exceções, mas que só são notadas porque, proporcionalmente, um pequeno pico parece grande comparado com a ausência de interesse geral.

O meu maior desejo como realizador, e gostaria que outros o conseguissem também, era cativar o público português ao ponto de nos tornarmos uma referência inquestionável. As pessoas costumam gostar de listas e tops, por isso não seria ótimo se o público, em geral, tivesse pelo menos um filme português no seu Top 10? Adorava que fosse um filme meu e estou a trabalhar nesse sentido. Aos poucos vou lutando para ter mais meios, aprendendo com erros que faço. Procuro abster-me do ego que todos temos e tento criar algo mais importante que os meus próprios interesses. Acho que é assim que se faz cinema, pelos motivos certos. Concorri este ano pela primeira vez ao ICA e estou à espera do resultado, como muitos outros. Consegui cativar a atenção de uma das principais produtoras nacionais e isso deixou-me feliz, porque contraria todo o negativismo que rodeia este meio. Constantemente oiço falar do ICA como sendo um organismo que só dá o dinheiro a quem tem cunha, que é um jogo de influências, que são sempre os mesmos a receber os apoios. Em relação às grandes produtoras, essas más línguas referem que só se preocupam com o dinheiro, que os realizadores e os seus projetos são só mais um número. Pela pouca experiência que tenho posso dizer que nunca me senti dessa forma e fui muito bem recebido. Em relação ao ICA, prefiro acreditar que, quando se tem um projeto sólido e se mostra que tem talento, alguém vai valorizá-lo. Pode ser que vejam isso em mim e decidam apostar no meu projeto. E isso aplica-se a tudo na vida. Quem trabalha um dia vai ter o seu retorno.

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Inês Moreira Santos