Ruben Alves, o realizador luso-francês de A Gaiola Dourada, está de férias em Portugal e tirou meia hora para falar com o Espalha-Factos. Uma entrevista após o filme já ter registado mais de 200 mil bilhetes vendidos. Falamos do sucesso, da mensagem para portugueses de dentro e de fora, mas também para os franceses. Refletimos ainda sobre o fado que é ser lusitano na crise de hoje. 

Espalha-Factos: O filme [A Gaiola Dourada] alcançou esta semana os 200 mil espectadores e a ZON quer que este seja o filme do ano. Qual é a responsabilidade que um realizador estreante sente com isto?

Ruben Alves: Eu acho que a estreia em Portugal é a cereja no topo do bolo, porque a verdade é que este filme é francês, é uma produção francesa e em França eu estava com muita expectativa, porque se o filme não funcionasse lá era mais complicado para mim. Aqui em Portugal não é a mesma coisa, porque já não tenho responsabilidade perante a produção, a ZON é só um distribuidor que o comprou. Sinto um especial prazer, porque estava com dúvidas sobre a adesão do público português e estou super contente por estarem a ver o filme e a identificarem-se com ele. O filme está a funcionar, só estou a desfrutar o momento.

EF: Os espectadores têm revelado uma emoção genuína a assistir ao filme e algo que se pode ver das reações das pessoas é que algumas saem muito contentes e divertidas, enquanto outras saem bastante mais emocionadas das sessões. Qual acha que é o motivo para o filme tocar tanto as pessoas?

RA: É verdade que este filme pode ter várias leituras. Eu vejo, pelos testemunhos, que há pessoas que vêem o filme para se divertir – “Ah, é muita bom, ri-me às gargalhadas…” – e depois há outras que se comoveram muito, porque este filme é feito do fundo e da forma, como costumo dizer. O fundo não é nada de leve, o que se diz por trás diz respeito aos valores de família, ao desenraizamento, à submissão ao patrão, ao não ter o prazer de desfrutar a vida, só mergulhando no trabalho, a emigração… isto tudo não são temas leves. Por outro lado, a forma é leve – é uma comédia, tem situações para rir. É muito fácil levar-se a história assim, a sorrir, mas na verdade há sempre ‘aquela coisa’ que faz pensar que nestes tempos está tudo mais complicado, em termos da crise e da globalização. A globalização faz as pessoas mais egoístas, mais sozinhas à frente do seu computador. Estes são sentimentos básicos, como o amor de uma família, dos pais pelos filhos, do trabalho para dar uma vida melhor aos filhos. Os filhos, que se calhar ao início não percebem bem, mas depois compreendem os pais e esta dedicação ao trabalho. São valores muito puros e acho que a boa disposição desta família, esta autenticidade e simplicidade, fazem muito bem nestes tempos, fazem bem à alma.

O que se está a passar com este filme é que os atores interpretam com uma grande humanidade, de forma muito verdadeira e as pessoas sentem isso. E aqui em Portugal há esta ideia de que [A Gaiola Dourada] é “o filme francês mais português de sempre”, pela sua portugalidade. Acho que faz muito bem rirmo-nos de nós próprios e ao mesmo tempo podermos emocionar-nos.

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EF: O Ruben é lusodescendente. Como é que se aprende a conhecer e a gostar de um país à distância e, posteriormente, como é que se consegue transmitir tanto de Portugal num filme que, apesar de tudo, é francês?

RA: Como consegui transmitir não sei, acho que foi por observação, por sensibilidade. Desde pequenino que venho a Portugal de férias, como todos os emigrantes. Só que, num certo momento, na adolescência, comecei a crescer e a interessar-me pelo país de forma diferente. Não pelos olhos de um emigrante que vem passar férias e comer gelados. Percebi que tenho um país, as minhas raízes, com uma riqueza muito grande e um peso emocional muito forte, porque Portugal é um sítio onde se podem sentir emoções muito fortes. Então comecei a interessar-me mais, a vir fora do verão e a querer ver o que é Portugal e não só o “Portugal de férias”.

A verdade é que, quando venho aqui, tenho outra vida. Acho que estou muito bem com as minhas duas culturas, com as minhas raízes portuguesas. Em vez de fazer disso um problema, fiz disso uma força. É uma dupla riqueza e acho que assumi isso completamente – assumi a condição dos meus pais trabalharem como operários em Paris. Eu nunca tive vergonha, mas sim orgulho, e acabei por fazer um filme sobre eles, sobre o esforço deles e os valores que me transmitiram. Partilhar isso é uma coisa muito simples, é transmitir o que sinto e vejo. Quando venho aqui estou muito atento a tudo, porque acho que Portugal é um teatro ao ar livre. As pessoas são autênticas, são super castiças, há uma coisa muito pura que eu adoro.

EF: Ainda sobre isto… Esta semana alguns emigrantes referiam, em entrevista ao Público, que falta essa ligação a Portugal, que falta em França e noutros países da emigração o ensino da língua portuguesa. O que é que julga que Portugal podia fazer mais para que as pessoas que são portuguesas mas estão fora do país mantivessem essa ligação?

RA: Eu acho que sim, não é só dizer “Ah, venham investir aqui, a gente faz uns super-contratos no banco”. Isso é muito bom, agora, porque eles estão com problemas e precisam de dinheiro de todo o lado. Lembram-se dos emigrantes, que juntam dinheiro e podem vir aqui, mas isso também podia ser feito antes. Para já era necessário assumir completamente os emigrantes, porque há muita gente que não os assume e gosta de gozar com eles. Todos somos portugueses – há o português que vive cá e o que foi embora, mas todos somos portugueses no coração. Acho que Portugal devia manter mais ligações com o português de fora, não só pelo interesse económico, que é o que tem estado em causa hoje em dia, mas principalmente pela cultura – há muito pouca coisa. Em França há um défice muito grande da cultura portuguesa. No grande público, apenas o futebol está acessível. A identificação portuguesa é só o futebol. Com este filme, houve outra coisa com a qual os portugueses se identificaram – uma obra de arte, um filme, uma coisa acessível a todos. Hoje, também por causa disso, há uma não-assumpção do que é ser emigrante português, o que é uma pena, mas acho que está a mudar, felizmente.

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EF: A imagem que há, em Portugal e na França, dos emigrantes portugueses, às vezes não é coincidente com aquilo que eles são na verdade e existem alguns estereótipos. Acha que A Gaiola Dourada pode contribuir para mudar esta imagem dos emigrantes? Quais foram as reações em França a este filme e o que é que os franceses descobriram sobre os portugueses que ainda não conheciam?

RA: O francês não conhece o português, ou conhece muito pouco. Conhece através do trabalho – muito leal, muito fiável, muito esforçado. Existe uma boa imagem do trabalhador português. Além disso, não conhecem os portugueses. Os portugueses ficam muito fechados entre eles, por terem vindo embora do país numa altura de ditadura, e esforçam-se por ser discretos. Acho que o francês não conhecia e, com este filme, pôde ver quem são mesmo os portugueses.

Relativamente ao impacto em Portugal, espero que seja uma ajuda para mudar a mentalidade dos portugueses sobre os seus emigrantes. Muitas vezes existem estereótipos, mas eu percebo os dois lados. O português emigrante visita Portugal e, de certa forma, é too much na maneira de mostrar, com os carros bons, a casa maior da aldeia… mas os emigrantes são pessoas que fugiram de um país na ditadura e trabalharam muito para terem o que têm e, quando vêm, têm orgulho de mostrar aquilo que alcançaram com o seu esforço. Se calhar é um bocadinho too much, mas temos de valorizar o empenho e a vontade de mostrar que conseguiram com a força do seu trabalho. O português devia dar mais valor a isso. Nisso eu gosto dos americanos porque, vendo um carro melhor, esforçam-se para ter um igual ou melhor. Os portugueses parece que desejam que, para o ano, o ‘vizinho’ não tenha o carro. Ficaria muito feliz se, com o filme, os portugueses percebessem melhor os emigrantes e a alma portuguesa que está presente no filme.

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EF: Neste momento Portugal vive uma nova vaga de emigração e os jovens estão a sair do país. Acha que daqui a 30 anos, por exemplo, haverá condições para fazer uma ‘Gaiola Dourada’ sobre estes novos emigrantes? E qual pensa ser a grande diferença entre estes dois fenómenos de emigração, o de hoje e o do passado?

RA: Para já a diferença é que, hoje em dia, eles emigram porque a situação económica está muito complicada e chegam já formados, à procura de trabalho para viver. Neste momento, em Portugal, há muitas pessoas que não vivem, sobrevivem. Naquela época as coisas eram de outra maneira, até porque a emigração era principalmente de pessoas com pouca formação a fugir de um regime repressivo, que não oferecia independência económica ou intelectual. Isso faz muita diferença, porque quem deixa o país hoje apenas o faz porque, depois de ter feito a sua formação, não consegue arranjar nada na área. Agora, se daqui a 30 anos haverá maneira de fazer um filme sobre isto, isso é que não sei. Daqui a alguns anos poderemos pensar se seria interessante. Mas o português também mudou e está mais aberto para o mundo.

Hoje em dia, com a globalização, todos somos obrigados a virar-nos para os outros. Hoje as pessoas emigram porque é assim que tem de ser, porque não têm outra hipótese. Antigamente havia a hipótese de ficar e aceitar a situação, até porque qualquer coisa se arranjava – “não tens, mas eu dou-te um bocado do meu pão” – e toda a gente sobrevivia assim, de uma forma muito mais leve do que hoje. São coisas que não têm nada a ver, hoje emigrar é muito mais difícil – temos tudo para que Portugal seja um país fantástico e afinal parece que temos mesmo de ir para fora para fazer o que queremos na nossa vida. Isso é um bocado triste, porque Portugal podia ser um país fantástico – que é – e com tudo, mas a verdade é que as coisas estão complicadas para muita gente. As pessoas acabam por ir embora de coração apertado: “Tenho tudo, mas tenho de ir, afinal não me dão a minha possibilidade”.

EF: Um convite para todos aqueles que ainda não foram ver o filme, mas ainda têm oportunidade de ir. Porque é que as pessoas devem ir ver A Gaiola Dourada?

RA: Acho que é um filme que traz sentimentos muito bons. Traz bons momentos, é um medicamento anticrise. Em vez de gastar dinheiro em antidepressivos, os seis euros que se deixam no cinema podem fazer muito bem à alma e ao coração. Depois, este filme tem uma portugalidade muito forte e os portugueses podem sentir qualquer coisa muito agradável. Acho que não há muitos filmes assim em Portugal – tão simples, sem fazer julgamentos ou com mensagens fortes e complicadas. É uma mensagem simples e positiva, de amor e família.