Agosto pode ser o topo da silly season, mas há efemérides que fazem deste mês bem interessante. Hoje é o Dia Mundial da Fotografia e reunimos aquelas que são as melhores fotografias de sempre para os fotógrafos do Espalha-Factos. Eles, que são quem mostra, na verdade, o que vemos por aqui, partilham escolhas pessoais e que os marcaram na sua carreira. Mostramos-te aqui as eleitas, a sua história e o porquê de terem sido selecionadas.

Desde o surgimento oficial da fotografia, em 1839, que os cliques e olhares fixados, progressivamente mais acessíveis e democráticos, acompanham os momentos mais marcantes da história e da vida de todos os dias. E, por isso, talvez faça sentido começarmos pelo fim, com uma das fotografias em destaque este ano nos prémios World Press Photo, que premeiam o que de melhor se faz no fotojornalismo a nível mundial.

A escolha da equipa

O autor que captou este momento de luz é Daniel Rodrigues e arrecadou o primeiro lugar na categoria Vida Quotidiana. Foi o quarto português a marcar presença no pódio da WPP, depois de Eduardo Gageiro (1974), Carlos Guarita (1994) e Miguel Barriera (2007). É um trabalho de composição e luz impressionantes, a preto e branco, onde raparigas e rapazes aparecem a jogar à bola, num campo em Dulombi, na Guiné Bissau.

Feito ainda mais impressionante se tivermos em conta o contexto em que este fotógrafo se encontrava quando soube que tinha vencido o prémio. O fotojornalista Daniel Rodrigues estava então desempregado. A distinção da WPP trouxe-lhe de volta a máquina que tinha sido obrigado a vender e, claro, grande reconhecimento e oportunidades numa área onde é cada vez mais difícil vingar.

Sónia Pena

São fotos que marcaram o mundo, uma geração e os seus fotógrafos!

A fotógrafa dos mais variados concertos em que estivemos presentes não consegue escolher apenas uma fotografia, por isso elege vários retratos de fotógrafos famosos com as suas mais famosas fotografias. Meta-fotografias, portanto, de fotos dentro de fotos e que pretendem mostrar os homens por detrás da câmara fotográfica, que captaram grandes artistas como Kurt Cobain, Marylin Monroe ou os Beatles, ou ainda grandes momentos da história como a jovem afegã refugiada no Paquistão ou o 11 de setembro no World Trade Center. A ideia e execução é do fotógrafo Tim Mantoani e este é apenas um exemplo do seu extenso trabalho.

David Sineiro

Para mim é impossível escolher ‘a melhor foto de sempre’. Hoje em dia tudo se manipula e se reproduz. Dito isto, sempre fui fascinado por dirigíveis e pelas fotos do acidente de Hindenburg e decidi escolher a que mais me fascina. Talvez porque hoje já não podemos tirar uma foto destas.

A histórica fotografia de Dana Keller,  da queda do dirigível alemão, que se incendiou e explodiu a 6 de maio de 1937 na estação naval norte-americana de Lakehurst, é a escolha do David Sineiro. O choque provocou a morte de 35 pessoas a bordo e uma em terra, sobrevivendo ao desastre 62 pessoas. É verdadeiramente fotojornalismo, real, catastrófico, e a fotografia a preto e branco marca o acontecimento na sua própria época. ‘O Titanic do céu‘, como muitos chamaram a Hindenburg, marcou também o fim da confiança das pessoas nos dirigíveis.

Andreia Martins

Escolher uma fotografia favorita não é fácil – mais fácil é escolher um fotógrafo favorito. E foi por aí que escolhi a obra a juntar a este conjunto de fotografias. Não tanto por ela mesma, mais pela ideia que transporta. Henri Cartier-Bresson foi um dos pais e um dos nomes mais importantes do fotojornalismo mundial, mas a sua concepção da fotografia ultrapassa os vários campos desta arte. Porque ele a concebeu como isso mesmo – uma arte, que depende também do fotógrafo, não tanto da máquina que traz consigo. Depende da sua aptidão para esperar ou encontrar um Momento Decisivo, como aconteceu nesta fotografia de composição e técnica perfeitas, datada de 1932, tirada em França. Um segundo antes ou depois não teria o mesmo este efeito geométrico, em que as mais ínfimas linhas se encontram e guiam o nosso olhar. É certo que nem tudo na fotografia é previsível, ou está sequer nas mãos de quem fotografa a realidade. Compete-nos a nós, fotógrafos ou simples amantes da fotografia, assegurar que temos em mãos tanto quanto podemos. E alguma paciência, para esperar pelo melhor momento.

A nossa fotógrafa Andreia Martins também tem o dom da palavra e não nos deixou nada para acrescentar acerca desta fotografia de Cartier-Bresson, que mostra a magnífica Paris dos anos 30. Sem dúvida um marco na história da fotografia e para os amantes desta arte.

Júlio Eduardo Proença

Não há nada melhor que misturar duas artes que individualmente não são nada: Cinema e Fotografia. Daí esta ser uma das fotos que mais gosto e que mais me marcam. Stanley Kubrick e a sua filha focados e Jack Nicholson desfocado demonstra uma dos factores mais importantes da fotografia: focamos aquilo que realmente queremos e desfocamos aquilo que não queremos que apareça como principal. É um contínuo jogo de escolhas e de momentos e esta fotografia demonstra mais que bem esta arte. Uma fotografia reúne em sim tudo o que o nosso olho vê, mas acima de tudo reúne em si tudo o que queremos que ela mostre. Esta imagem fala por si: o olho vê aquilo que quer ver, mas a fotografia demonstra aquilo que o fotografo quis mostrar.

Pouco resta dizer acerca desta fotografia do realizador Stanley Kubrick, a escolha do nosso mais recente fotógrafo, Júlio Eduardo Proença. Quem diria que uma fotografia tirada numa casa de banho – melhor ainda, uma autopic tirada num espelho de casa de banho! – seria uma das mais famosas e interessantes fotografias de sempre. Em 1980, o realizador e o ator trabalharam juntos no filme The Shining e foi neste contexto que surgiu esta pérola, também ela cinematográfica.

Artigo redigido por Raquel Santos Silva, Andreia Martins, Sónia Pena, David Sineiro e Júlio Eduardo Proença