2009_Fuck-Buttons

Fuck Buttons – Slow Focus

A procura, a descoberta, a exploração, o fascínio, o orgasmo, a exploração, a descoberta e a procura. Música que vive consoante esta sequência não é uma música qualquer, é algo único, desafiante, inovador e arriscado; os Fuck Buttons, dupla de música electrónica de origem britânica, são uma banda que habita num universo bem distante de todas as outras. Slow Focus, o terceiro LP da sua obra discográfica, só vem comprovar isso mesmo. 

Saía, com alguns meses de antecedência em relação a Slow Focus, o primeiro single extraído do terceiro longa-duração dos britânicos. Ouvia-se, então, a versão single edit de The Red Wing, com a duração de três minutos e pico. Ouviu-se uma vez. Ouviram-se duas vezes. Três, quatro… E tudo o que parecia que ia acontecer era que a dupla iria mudar a sua sonoridade uma forma não radical, mas bastante significativa: em primeiro lugar, três minutos sabiam a pouco, tendo em conta aquilo que a dupla nos tinha aclimado (mesmo sabendo que se tratava um single edit). E em segundo e último lugar, todos aqueles whooooooooos metidos lá pelo meio davam-nos a certeza que ia existir algo de novo na música dos britânicos; não iriam ser apenas drones infindavelmente crus a preencher o esqueleto das suas composições. Mas enfim.

Leakou Recebemos promos do Slow Focus. Ouvimo-lo uma vez, estranhámos. Ouvimo-lo duas vezes, gostámos. Ouvimos três, delirámos. E o gosto pelo registo cresce a cada audição que lhe concedemos. O seu porquê é relativamente fácil de explicar: se há palavra que possa timbrar aquilo que os Fuck Buttons fazem, essa palavra nada mais é senão «descoberta». Não conseguimos formalizar uma opinião acerca de uma qualquer música dos britânicos a menos que a tenhamos ouvido um bom par de vezes e com uma atenção maior que o mundo (porém, esta segunda condição é irrelevante, visto que os próprios FB conseguem captar-nos a atenção de uma maneira irrepreensível). Gosta-se, detesta-se, não há meio termo. Por cá gosta-se. Bastante.

E gosta-se bastante logo à primeira faixa, de título Brainfreeze (seria possível arranjar um melhor nome para chamar a esta música?). É oficial: estes são os Fuck Buttons e este é o seu próprio mundo: o mundo da anti-melodia, o mundo de drones que se somam à medida que o tempo vai encurtando a duração das suas faixas, o mundo em que o clímax das suas composições é um autêntico bombardeamento para os ouvidos; o fruto da acumulação de sons infindavelmente repetidos. Os ouvidos quase choram de prazer, a sensação é arrebatadora, é orgásmica. E desculpem-me ser tão pouco imparcial, mas não dá: pedirem-me para tentar esquivar-me de um mundo tão mágico, ser-lhe indiferente, esquecer-me do que ele me desperta. Não dá, simplesmente. Okay, let’s talk about magic.

Se a versão do single de The Red Wing soava estranha, esqueçam tudo: a versão de álbum conta com oito minutos de duração. E mais do mesmo: mais sobreposição sem fim à vista de drones até que se dê a ansiada explosão. Não será tudo isto tão chato? Quer-se dizer, o facto das composições seguirem maioritariamente sempre o mesmo esquema (salvo as excepções onde a vertente de Blanck Mass Sentients e Prince’s Prize olá -, uma onda muito menos preocupada na noise e mais trabalhada em estética ambiente, se revela mais proeminente) não cansa? Não, jamais cansará. E jamais cansará porque a cada momento descobrimos um novo toque, um novo som, uma coisa que antes não estava lá. É a tal descoberta. Sabe tão bem…

No entanto, importa referir uma coisa: a viagem de Slow Focus só consegue ser tão maravilhosa pela sua parte final; Stalker e Hidden XS dão uma vida nova, causam estupefacção. São irremediavelmente, juntamente com Brainfreeze, os pontos altos do registo. E se é verdade que este é o disco mais heterogéneo de Fuck Buttons até à data, é-o em muito devido à transição Stalker/Hidden XS. Passar de Stalker, uma música embriagada em enigmas sónicos e que, por isso, é uma faixa bastante indirecta e fria (ouça-se aquele prolongamento a partir dos cinco minutos) para Hidden XS, que assume uma identidade totalmente diferente da anterior, é brincar com o fogo, é desafiar as próprias crenças da estética sonora da banda. É tudo e mais alguma coisa, mas quase faltam palavras para descrever o que se passa ali naqueles vinte minutos que juntam as duas faixas. É o melhor dos desenlaces possíveis e ainda imagino pessoas a dançar ao som de Hidden XS, dada a sua vertente dançável. Será um aviso do que vem aí futuramente?

Em suma, estes são os Fuck Buttons na sua praia, no seu próprio mundo; num mundo que os difere de qualquer outra banda. Slow Focus é, por ser o menos directo, o melhor registo da dupla britânica até ao momento. Está quase tudo no limiar da perfeição. O escape à melodia, o abraço ao abstraccionismo, confluem-se drones em esquemas à la post-rock, mas mais que isso, o que acaba por confluir são as duas coisas que mais interessam: nós e a própria música. E por cada vez que a ouvimos o embate ainda é mais saboroso, mais robusto, mais siderante. Quanto à experiência da viagem, cabe a cada um de nós vivê-la; mas que se ecoe uma coisa nas vossas cabeças: que estrondeira, meus caros.

Classificação final: 9.6/10

*Este artigo foi redigido, por opção do autor, ao abrigo do acordo ortográfico de 1943

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