Formados em Cincinatti, Ohio, em 1999 pelas mãos de Matt Berninger, em conjunto com Aaron e Bryce Dessner e Scott e Bryan Devendorf, os The National são um dos grupos que mais amores desperta nos corações dos fãs da música independente, fenómeno directamente relacionado com o estrondoso sucesso de Alligator (2005) e Boxer (2007), excelentes obras-primas de um alternative rock apaixonante, semi-alinhado com o post-punk revival de meados da década passada. Passados 3 anos de espera pelo sucessor de High Violet (2010), quinto disco de originais do grupo, o quinteto está de volta com um novo registo; intitulado de Trouble Will Find Me, o LP foi lançado a 17 de Maio e conta com o mui nobre selo da 4AD.

Se excluirmos a priori os Arcade Fire, os Animal Collective e os “defuntos” LCD Soundsystem (paz à sua alma), podemos afirmar com segurança que nenhuma banda no circuito indie consegue causar, com o lançamento de um novo disco, tanta comoção e aparato como os The National, uma autêntica instituição musical movida por letras tristes, melodias melancólicas e inspirações saudavelmente “roubadas” a nomes como Joy Division, Wilco ou The Afghan Whigs.

Não é de estranhar, portanto, que a esse culto fervoroso esteja sempre associada, tanto por parte dos fãs como da crítica, uma tremenda expectativa para todos os novos registos do grupo, e Trouble Will Find Me não foi excepção, tendo sido ansiosamente aguardado por muitos (eu incluído) desde que foi anunciado o seu lançamento, em inícios do ano. E a verdade é que, apesar da quantidade imensa de pressão que pendia sobre eles, os The National conseguiram estar, mais uma vez, à altura do momento e lançar mais um belíssimo álbum.

Em termos de sonoridade, Trouble Will Find Me traz-nos os The National a “jogar em casa” e a fazerem aquilo que melhor sabem, apresentando neste seu sexto disco mais uma fornada de canções encorpadas e potentes, sombriamente banhadas por uma negrura muito post-punk (em grande parte graças à maravilhosa secção rítmica dos irmãos Devendorf) e repletas de refrães emotivos que facilmente se entranham nos ouvidos e na garganta. Apesar de algumas alterações na instrumentação (existe um incremento notório da utilização do piano e da guitarra acústica) e na produção (os irmãos Dessner, repetentes na posição de produtores, regressam a uma estética mais polida, reminiscente de Boxer, por oposição à rugosidade de High Violet), a verdade é que, em termos sonoros, Trouble Will Find Me segue por territórios já cartografados e em que, atrevo-me a dizê-lo, os The National já nos fizeram muito felizes.

troublewillfindme

No departamento lírico, também não se pode dizer que tenhamos grandes alterações: em Trouble Will Find Me, as letras de Matt Berninger permanecem tão desoladoras e dignas de compaixão como sempre, cronicando de forma exímia desamores e infortúnios que nos são sempre tristemente familiares. Esta poesia triste, quando aliada ao registo vocal de barítono, grave e solene, de Berninger, consegue transmitir ao ouvinte, a cada palavra cantada e declamada, um peso enorme que, à semelhança da componente sonora, nos assola e se instala dentro de nós.

Contudo, apesar da repetição da “fórmula” ser sempre bem-vinda e conseguir produzir resultados muito satisfatórios (especialmente para os ouvidos dos fãs), a verdade é que me é impossível deixar passar em branco a enorme sensação de déjà vu que os 55 minutos de Trouble Will Find Me me transmitiram; todas as receitas presentes no sexto disco dos The National começam a parecer-me, ao fim destas obras todas, demasiado parecidas com tudo o que a banda tem vindo a fazer desde Alligator, e essa previsibilidade acaba por ser, na minha opinião, algo prejudicial para a qualidade geral do registo.

Quanto às “pérolas” individuais deste álbum, devo destacar a reconfortante Don’t Swallow the Cap, a penetrante Fireproof, a explosiva Sea of Love, a enternecedora Graceless e a delicada Humiliation como as melhores peças do registo. Pela negativa sobressaem, na minha opinião, Demons, Heavenfaced e Slipped, canções mortiças e desinteressantes que acabam por retirar algum do brilho de Trouble Will Find Me.

Resumindo, com o seu sexto álbum os The National apresentam-se iguais a si mesmos, trazendo até nós uma colecção de canções que transpira, a cada nota, toda a identidade musical que os norte-americanos têm vindo a criar ao longo dos últimos anos. Apesar de não estar à altura dos seus antecessores (convenhamos, a bitola é demasiado elevada) e de demonstrar uma previsibilidade que indica falta de inovação, Trouble Will Find Me consegue ser, acima de tudo, um excelente álbum e mais uma prova de grande consistência e solidez por parte daquela que é, cada vez mais, uma das melhores bandas da actualidade.

Nota final: 8.2/10

*Este artigo foi escrito, por opção do autor, segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945