Vencedor do Prémio Leya 2012, Debaixo de Algum Céu, de Nuno Camarneiro foi, para mim, um livro que não me impressionou. Sem elementos fortes, é, no entanto, de notar a “elasticidade mental” do próprio autor que conseguiu criar várias personagens, todas diferentes e iguais entre elas, e dar-lhes voz em apenas 199 páginas.

Passado em apenas oito dias, Nuno Camarneiro dá-nos uma visão da vida dos habitantes de um prémio junto à praia, e logo no início do livro, o autor deixa-nos um cheirinho daquilo que podemos esperar. “A história é contada em oito dias, os últimos sete de um ano e o primeiro de outro. Nada saberemos do futuro e pouco do passado”.

De leitura fácil, as várias páginas estão repletas de histórias diferentes das diferentes personagens e os capítulos são uma espécie de “voz própria” de cada uma delas, incluindo o narrador. Num estilo bastante auto-reflexivo, Nuno Camarneiro tenta colocar o leitor na pele de cada um dos intervenientes da história, sejam eles Março Moço, Adriano, Constança, Joana, Daniel, entre outros. No entanto, pareceu-me que essa “atribuição”, se é que essa era a intenção do autor, não resultou da melhor maneira. Ao ler os diversos capítulos, não me consegui identificar com nenhuma das personagens e, a meu ver, num tipo de literatura como esta, com uma história que tem que estar, supostamente, interligada a todos os níveis, é fundamental haver uma personagem predileta. Mas a mim, isso não aconteceu.

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Acabei por me sentir perdida num jogo de vozes e vidas, sem nunca conseguir encontrar a saída. Sem descurar a qualidade da escrita do autor e a facilidade com os nossos olhos percorrem as palavras, o que senti foi um vazio, um desprendimento em relação à história, cheia de pensamentos soltos, com pouca densidade e fracas características de romance que, certamente, ajudariam o leitor a ter uma ligação mais forte com o livro.

Talvez haja uma justificação para isso: “A vida dos homens estica e encolhe, enche-se de rugas, pregas no espaço e no tempo, no que pensamos ou sentidos. Quando uma parte das vidas se encontra com outra, dizemos que lembramos, ou sonhamos, ou revivemos. Quando se encontra com a vida de outra pessoa, chamamos-lhe coincidência ou sorte. (…) São vários os encontros de um morador consigo e com outros. No mesmo lugar ao mesmo tempo, o mesmo pensamento em duas cabeças, um gesto em duas mãos”, escreveu Nuno Camarneiro.

Para quem espera uma leitura mais envolvente, emotiva, com uma história forte, acho que não a encontra neste livro. Porém, quem quer uma leitura suave, sem muitos altos e baixos e aventuras, então este é o livro ideal.

Apesar de, para mim, Debaixo de Algum Céu não ter sido um livro de que tenha realmente gostado, que me tenha desiludido pelas personagens soltas num prédio à beira-mar, a escrita simples do autor cativou-me e, por isso, anseio ler o seu outro livro, No Meu Peito Não Cabem Pássaros.

5/10