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Memórias à Deriva

O Teatro Rápido apresenta aos seus espectadores quatro micro peças com o tema, Para onde o sol me levar, que estreiam em Agosto. Cigano de Lisboa; Belo, Feio e Assim, Assim , Barbona e Sol-Ida-Mente…Juntos são os títulos das peças contempladas na programação deste mês, que vão comover o público e com certeza ser “consumidas rapidamente”.

Os laços que unem as quatro obras de vários encenadores são as memórias. No Cigano de Lisboa, a memória do avô plana sobre o espaço escuro e labiríntico, onde uma voz masculina invade a audição de quem está sentado. Quase sem rosto, o ator prende a respiração ao declamar a sua experiência de vida com o avô, o único mecenas da sua inspiração artística. O único homem moderno, adepto dos rituais profanos, que conseguia compreender a sua necessidade de escrita e que acreditava no seu sucesso. Pois neste país os jovens que cá ficam, só se conseguem sustentar com a reforma dos mais velhos. Uma realidade crua, que este pequeno monólogo aponta. Somos todos ciganos à procura de um lugar, vivendo à deriva, com um futuro tão incerto, que deambulamos pela vida sem rumo.

Belo, Feio e Assim Assim explora o sentimento ferido do amor, que foi maldição e dádiva. O homem recorda a musa inspiradora, que o levou a escrever pela primeira vez, como também o despedaçou tal como um papel frágil numa trituradora. A interação constante com o público e o jogo de sombras e luz, tornam a peça muito mais real com um poder de tridimensionalidade perfeito, tal como um filme que capta vários fragmentos da ação em todos os ângulos. Que Deus abençoe os advogados e médicos, mas não foi este o destino reservado ao desesperado homem. Para o mal dos seus pecados, a sua vida é ser escritor!

Com uma tónica mais dramática, Barbona consegue mexer com os sentimentos mais escondidos no ser humano. Aqui o desespero não é só psicológico, mas também habita fisicamente no cenário. Nesse espaço rodeado de lixo, uma mulher sem-abrigo se degladeia com as memórias da sua infância, tentando viver na miséria de nada ter. A loucura observada inicialmente, passa rapidamente por ser justificada. Essa demência aparente é um escape em relação ao tortuoso passado. O encontro com a sua imagem infantil, a faz recuar no tempo em que a sua inocência foi perdida e a culpa a consumiu. Uma pequena história, mas com um grande enredo, digno de ser vista e revista vezes sem conta.

Sol-Ida-Mente…Juntos, é a única peça que puxa pelo humor mais tradicional. A história não traz nada que já não tenhamos visto. Vemos em cena um casal em tempo de crise, discutindo sem cessar e lançando farpas um ao outro. Neste caso, não é da crise do governo e da cultura que a peça trata, mas sim das consequências do cansaço e da rotina conjugal. No fim tudo acaba em bem pois ir apanhar sol, dar uma ida lá fora, faz bem à mente. Com estes argumentos os dois acreditam que há uma esperança de ficarem Sol-Ida-Mente…Juntos. Apesar do guião não surpreender, os atores conseguiram encarnar o papel na perfeição, dando grande credibilidade à cena.

Quatro peças belíssimas, que em poucos minutos nos transportam para a outra dimensão, tratando simultaneamente de assuntos tão atuais, que sentimos bem na pele cada palavra proferida.

Em Agosto à vossa espera no Teatro Rápido.

Fotografias por: Catarina Alves

 

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