PalcoVIceporMiguelRefresco1_zpsb002a5f1

MdF 2013 – Dia 28 – Um Final Feliz

Se nos primeiros dias a chuva tinha feito meras ameaças, estas concretizaram-se na madrugada do dia 28. Chegou a prever-se uma catástrofe para este último dia do Milhões de Festa mas acabou por haver um final feliz, onde os Dirty Beaches foram mestres da hipnose e os Orange Goblin da catarse pela via do peso. Os Zombie Zombie instigaram danças cósmicas, Jibóia Experience fechou o palco Milhões em clima de celebração e Mykki Blanco foi uma ligeira desilusão.

É necessário apontar que o Parque da Cidade, como já foi referido, não é um parque de campismo, mas sim municipal. Havendo uma área de relva diminuta e com grande parte dos campistas instalados em terra batida (daquela que empapa), já se pode prever o resultado caso haja chuva, especialmente se forem aguaceiros fortes (uma pista, é mau). Num clima de balbúrdia, era ver na manhãzinha do dia 28 campistas a mudarem as tendas inundadas de sítio ou pura e simplesmente a arrumarem-nas e a desistirem de dormir. À porta do parque, os seguranças (que, fique aqui registado, são os mais prestáveis que se pode encontrar num festival, avé à G Protect) revelaram que foram muitos os que saíram com as malas feitas, não se sabendo se foram arrumá-las ao carro ou se se foram embora.

Estava portanto instalada a dúvida: Como é que o festival poderia prosseguir com as cargas de águas infernais que iam ocorrendo periodicamente? Com uma sorte dos diabos, já que depois da hora de almoço a chuva já tinha amainado, mas também com mérito da organização, que trabalhou afincadamente para garantir que os palcos diurnos não apanhavam chuva (em especial o Taina, que até então estava totalmente descoberto). No entanto o mau tempo obrigou os concertos a começarem pelas 16:00 horas em vez da hora originalmente estabelecida. Isto obrigou os concertos a seguirem-se a um ritmo muito rápido para compensar o tempo perdido.

copyPauloCunhaMartins-Piscina020_zpseb2ac158

Já estavam pessoas a ir para a Piscina (que chegou a ter um número avultado de festivaleiros, mas sem chegar aos pés dos dias anteriores) quando nos dirigimos para o Taina para ver Malcriada. Ainda chovia quando o projecto instrumental, formado músicos de bandas como Larkin e Burning Man, fez ecoar as primeiras notas com uma qualidade de som sofrível. Com peso mas também sensibilidade melódica, o quarteto mostrou bons pronúncios do que pode vir a fazer. Quanto a melodia, não a peçam aos Vai-te Foder que os bracarenses não estão para isso. Portadora de um violento Crust, a banda fez as delicias aos punks, que já eram habitués naquele palco, com Viciados nos 80’s ou Bófia de Merda, apesar do som estar mau e quase não se ouvirem as palavras de ódio cuspidas.

Talvez tenha sido coincidência, talvez destino, mas quando os Evols começaram a tocar, o sol raiou outra vez em Barcelos. E faz sentido, porque a sua sonoridade é perfeita para uma tarde de domingo no Verão, é para se estar sentado junto dos seus a fazer a fotossíntese. Tranquilizantes mas não aborrecidos, os Evols estabeleceram um contraponto perfeito depois dos Vai-te Foder. E pelo que pareceu, o dia 28 foi mesmo o dia das famílias, qual Rock in Rio, já que eram muitos os pais, munidos de suas crianças, a vir ver o concerto dos locais Biarooz. Parte-electrónica, parte-Pós-Rock e quejandos, os Biarooz foram perfeitos para o fim de tarde, melancolicamente nostalgicos, a fazer lembrar de amores de Verão passados, mas também de que outros virão.

Quando entrámos no recinto, já estavam a tocar os The Partisan Seed. O singer-songwriter Filipe Miranda, acompanhado de vários músicos, manteve os níveis emocionais em alta (para quem veio do Taina pelo menos) com o material do recente SpiritWalking a servir de pano de fundo. Variando entre o registo mais acústico e despido e a utilização do órgão e de mais percussão, foi um bom arranque para o recinto, pecando apenas por às vezes cair na monotonia já a voz de Filipe não apresenta muita variação. Foi por isso mesmo que a recta final surpreendeu, tanto pela inclusão da vocalista Helena (que agitou as coisas) como pela maior intensidade das músicas.

PalcoVIceporMiguelRefresco2_zps431b8173

Dirty Beaches

Um dos concertos mais aguardados de todo o festival ocorreria de seguida. Canadiano mas de sangue taiwanês, Alex Zhang Hungtai, mais conhecido por Dirty Beaches, deu a missa no Vice. As batidas repetitivas, a voz ora sussurrada ora gritada, a guitarra cheia de efeitos, as teclas que preenchem os espaços, tudo se alinha para criar um ambiente noir, decadente, digno de um filme onde o protagonista se aventura pela noite para cometer actos devassos. Dotada de uma qualidade onírica, a música de Dirty Beaches não é suposto ser dançada, pelo menos não efusivamente, sendo daquela electrónica ambiente que deve deixar a mente e não o corpo em transe. Não será, portanto, de estranhar que apesar de quase ninguém se ter mexido durante o concerto, cada final de música era acompanhado por uma explosão de aplausos, como que se a plateia tivesse acordado do coma induzido.

Naquele que foi o dia mais “Pós” do festival, os Riding Pânico encaixaram que nem uma luva. Promovida do Vice (onde tocaram no ano passado) para o Milhões, a banda lisboeta gozou de boa adesão, com muita gente para os ver. O seu Pós-Rock instrumental balança bem entre o suave, com as múltiplas guitarras a criarem diferentes planos de melodia, e o pesado, onde as ditas se tornam úteis em criar um gravilhão. O seu set foi quase exclusivamente composto pelo novo álbum Homem Elefante, cujas músicas resultam melhor ao vivo pelo seu imediatismo, começando com Blueberry Surprise e supostamente terminando com Monge Mau mas a banda teve outros planos. Perante a reacção positiva do público, a banda decidiu tocar ainda mais uma música, que demorou um bocado porque a rapaziada nunca mais conseguia afinar os instrumentos. Finalmente, Volvo, do álbum Lady Cobra, caiu que nem um pedregulho e findou uma grande prestação.

Voltando ao Vice está um duo espanhol no palco. Espera aí… nós já não tínhamos visto isto ontem? Foram os Za! certo? Sim, mas este é outro projecto composto por dois elementos que se revezam entre guitarras, bateria, efeitos de voz e teclas, tudo sobreposto em loops. São os Siesta, vindos de Valência. Sem a exuberância cacofónica dos seus hermanos da noite anterior, os Siesta pautam-se mais pela repetição rítmica e pelo uso muito agradável das teclas. Infelizmente, devido às várias propostas desta índole, os Siesta não se conseguiram diferenciar muito do resto do cartaz, ficando uma prestação boa mas não muito memorável. Também não abonou nada a seu favor a debandada que se verificou para o palco Milhões e o facto de na última música terem falhado os tempos e a música ter ficado irremediavelmente perdida.

PalcoMilhoesporMiguelRefresco9_zps1495466f

Orange Goblin

Os Orange Goblin quase que estiveram para falhar o seu compromisso. Com um dos guitarristas a ficar lesionado e a carrinha de digressão a dar o berro, foi preciso um extra-esforço para virem a Barcelos, e ainda bem que o fizeram, já que para muitos foi o melhor concerto do Milhões. Depois de tantas atribulações, os Orange Goblin pegaram no touro pelos cornos e deram um concertaço, comandados pelo taberneiro infernal de seu nome Ben Ward. Com riffs que causam crescimento espontâneo de pilosidades no peito (sim, até às mulheres, e não era poucas), a prestação dos Orange Goblin foi formidável, tornada ainda mais impressionante pelo facto do guitarrista Neil Kingsbury ter aprendido todas as músicas em menos de 24 horas. Houve mosh, houve crowdsurfing, houve grandes músicas como Blue Snow, Ballad of Solomon Eagle e Cities of Frost, mas acima de tudo, houve dedicação por parte de uma banda que já faz isto há 18 anos, num concerto onde o pecado capital foi não abanar a cabeça até os parafusos saltarem. Ben Ward pareceu genuinamente feliz pela recepção lusa, provando que os “filthy and the few” que cá moram recomendam-se e pedem por um concerto a solo.

Depois deste chavascal de Stoner Rock, até que custou voltar a outras paisagens, mas os Zombie Zombie não se sentiram intimidados. O duo parisiense composto por Etienne Jaumet e por Cosmic Neman conseguiu com as suas duas baterias obrigar todo o pessoal a gingar ao som de melodias que podiam estar num qualquer filme sci-fi ou de terror (ou os dois).  Mas eles não estavam sós, o Dr. Shanbury estava lá atrás na manipulação electrónica a dar uma mãozinha, tendo até sacado do saxofone. Os Zombie Zombie levaram-nos até Venus no Rocket #9 (onde o saxofone teve um papel delicioso) e lá encontrámos um Black Paradise que nos chegou a causar alucinações. Durante tudo isto, estava o pessoal de Dirty Beaches a curtir no meio do público, e assim é que deve ser.

PalcoMilhoesporMiguelRefresco1_zps6dfc5674

Jibóia Experience

Outro projecto que recebeu um grande boost da edição do ano passado para esta foi Jibóia. Orquestrados por Óscar Silva, “o Jibóia original”, os Jibóia Experience são como que uma versão desse projecto com esteróides, contando com um ensemble de vários músicos “da casa” na bateria, percussão, saxofone, guitarras e baixo. Se as composições originais já tinham aquele encanto oriental tocados apenas com guitarra e pad, aqui ganham contornos enormes, com a música do viajante errante a transfigurar-se numa caravana colorida para as Índias. A bateria, em particular, dotou as músicas de um poder notável, verdadeiramente bombástico. Já nas vozes, para além de Óscar, o projecto contou com energia de Ana Miró. Num misto entre músicas do reportório de Jibóia e outras preparadas de propósito para o Milhões de Festa, o saldo é de celebração e consagração de um músico que tem vindo a explodir.

Explosiva era como se esperava a actuação de Mykki Blanco e o hype era muito à volta deste concerto. Foi concretizado? Bem… mais ou menos. Quando toda a gente esperava que a “princesa iluminati” fosse para o palco, eis que chega Psycho Egyptian, um rapper da sua crew, o que deixou o público algo surpreso. Ainda para mais, Psycho ainda não tem andança para estas coisas, o seu flow é sloppy e tem um tom de voz que chega a ser irritante (especialmente quando se põe a berrar “Freedom”. Mas o gabinete de curiosidades não estava fechado e eis que entra em palco Boy Child (ficámos sem perceber se era um homem ou uma mulher) com uma performance de dança bastante avant-garde (ou qualquer coisa assim). Finalmente chega Mykki e a malta entra em êxtase. Alter-ego feminino de Michael Quattlebaum Jr., Mykki Blanco é uma personagem de grande interesse, já que se envolve no típico bragadoccio do Hip-Hop sendo ao mesmo tempo um orgulhoso homossexual, característica que ainda hoje em dia é atípica nessa esfera musical. O resultado é um reclamar de direitos de forma agressiva e faminta, o que é louvável mas a Mykki ainda tem de melhorar a sua actuação. Apesar de muita atitude e de bons beats, esta ficou sempre algo aquém, seja pelo baixo volume de toda a actuação ou pelo flow que ainda não convence totalmente. Não interessa, a malta curtiu e a Mykki também, tendo ido até dançar para o meio do público com total segurança e confiança na sua audiência. Onde mais é que isso poderia acontecer senão no Milhões?

* Por opção do autor, este artigo foi redigido ao abrigo do acordo ortográfico de 1945

 Fotos por: Miguel Refresco e Paulo Cunha Martins (Milhões de Festa)

Mais Artigos
Guia TV: As melhores opções para ver no fim-de-semana prolongado