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MdF 2013 – Dia 27 – Take as Needed for Fun

Pedimos desculpa aos Eyehategod, o trocadilho não está grande coisa, mas serve para descrever como é que foi o dia 27 do Milhões de Festa: diversão das mais variadas formas e feitios. Novamente poupados (em parte) pela chuva que se previa, os presentes foram fustigados pelo peso abrasivo dos Process of Guilt e dos Eyehategod, deram os seus passinhos de dança com Dam Mantle e Octa Push, testemunharam a demência dos Za!, tiveram em Egyptian Hip-Hop momentos de pura parvoíce e abanaram a bunda com o kuduro do DJ Marfox.

O dia começou mais tarde por estes lados (não conseguir adormecer até às 7 da manhã por causa dos vizinhos do lado, vicissitudes da vida) e não foi possível assistir às performances de Surya Exp Duo e Cuzo junto à Piscina. Às 17:00 estavam os Besta a repetir a fórmula “Castanhada + Ambiente de Piscina” que tanto sucesso fez com os Revengeance no ano passado. Outlaw Roque, possesso e a revirar os olhos, deu início à sessão de porrada sonora com Já Foi Tudo Dito mas a malta foi se mantendo calminha até um rapaz de metro e meio começar a provocar o mosh. O concerto terminou com a arrastada e pesadíssima O Céptico, O Crente E O Bode e à falta dum palco para fazer stagedive, a malta fez só dive… para a piscina.

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A passo rápido dirigismo-nos para o Taina, apanhando o concerto de The Quartet of Woah! a meio. Os lisboetas têm estado em altas mas este seu concerto foi mais morno do que o costume, sobretudo devido à acústica do Taina que não permitiu ouvir maior com clareza as idiossincrasias do seu Rock à 70’s. No entanto, aqueles que estavam a apreciar a tarde barcelense junto ao rio aderiram bem ao quarteto fantástico que teve em The Path Of Our Commitment e U-Turn alguns dos momentos mais bem conseguidos da sua prestação.

Era necessário estar na banca de merch do recinto às 20:00 para falar com os Process of Guilt mas ainda deu tempo para ver um pouco de Perro Peligro. Os espanhóis fecharam o Taina, espalhando raiva e outras doenças canídeas junto a uma plateia que se ia reduzindo devido ao frio que se abateu. A performance do sexteto ressentiu-se um pouco pela falta de soundcheck, mas garra do seu rock experimental instrumental fez-se sentir, particularmente pela utilização de dois baixos.

Num registo de conversa informal, os Process of Guilt aceitaram falar com alguns membros da imprensa numa iniciativa promovida pela organização do Milhões na qual os Besta e os Octa Push também participaram. A banda eborense revelou-se expectante quanto à prestação mais tarde no palco Vice e disse-se orgulhosa pela forma como o seu último álbum, Fæmin, ainda consegue atrair datas de concertos. Pelo meio surgiu também o tópico da sua ida ao festival Roadburn, onde a logística é tão apertada que nem tiveram tempo de assistir a nenhum concerto e houve um desabafo quanto à forma como o público português ainda demonstra desprezo pelas bandas de abertura quando se dirige a um espectáculo.

A logística estava contada ao minuto para ir à tenda mudar de roupa e apanhar o início dos HHY & The Macumbas mas, como qualquer pessoa com experiência de festivais deve saber, há sempre espaço para o imprevisto. Falamos em particular quando o nosso colega de tenda nos ensopa a colchonete e algumas peças de roupa com Iced-Tea de pêssego e nos obriga a perder tempo. Mesmo assim ainda deu tempo para assistir um bom bocado a um concerto ainda com pouca gente mas pleno de ritmos tribais, onde não faltaram reco-recos, trompetes, tambores, percussão e maracas para ajudar ao ritualismo.

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Process of Guilt

No palco Vice, ao cair da noite, os Process of Guilt manteriam o clima de transe mas através de um medium bem diferente: Death/Doom Metal. Assente na repetição de riffs mais pesados do que o mundo, o som dos Process assemelha-se a um rolo de compressão insensível àquilo que esmaga, seja sucata ou crânios, e provoca headbanging incontrolável. A prestação dos Process baseou-se no álbum Fæmin, começando com Empire e acabando com a inacreditável faixa-título, onde Hugo Santos (com a voz algo fragilizada) rugiu as palavras distópicas “Nothing breeds, Nothing heals, Nothing ceases” para fechar a loja.

A toada negra continuou com os Loosers no palco Milhões. O seu elevado experimentalismo não foi totalmente consensual, sendo que houve muita gente a ignorar o concerto e os aplausos foram parcos. Foi, no entanto, interessante observar a dualidade entre o som instrumental a um ritmo lento e meio funky, se bem que ameaçador, e a veemência com que Jerry the Cat proclamava quase em Spoken Word palavras sobre a condição social e a atracção dos corpos. Se gostarem de músicas sobre golden showers, sigam este conjunto com atenção.

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Dam Mantle

A coisa lá ficou mais ligeirinha com Dam Mantle no Vice. A sua segunda actuação no Milhões de Festa, depois de estar na piscina no dia 26, primou-se sobre tudo pelo House à Detroit. A cidade até pode estar a cair de podre, mas o género musical que fecundou permanece vivo através de produtores como o escocês. Apesar de algo deslocado a nível de horários (talvez fizesse mais sentido ficar para o início ou para o fim da noite), Dam Mantle mesmo assim meteu a malta a mexer, incluindo um grupo de pessoal a curtir a sua trip no cimo do prédio que dá para o palco Vice.

De volta ao Milhões, os Egyptian Hip-Hop tiveram um dos concertos mais divertidos da noite. Sendo provenientes de Manchester, não foi de estranhar que o som do Egyptian Hip-Hop tivesse como pedra basilar um baixo infeccioso e groovy em músicas como Wild Human Child e SYH. A voz do Alex Hewett não é grande coisa, mas é compensada pela sua disponibilidade enquanto show-man e isso viu-se pelos seus passinhos de dança e pelo tempo que andou a vaguear pela audiência com um segurança atrás. “So many babes” e “More people should be flirting on each other” dizia ele com uma garrafa de tintol na mão. Num insólito momento, durante a actuação começa a rebentar fogo de artifício no centro de Barcelos, parecendo uma estranha disputa de atenção. O público, esse, na galhofa, não estava nem aí, mais entretido a fazer crowdsurf (viram-se mãos marotas), chegando mesmo ao exagero quando dois surfers se embrulharam e caíram no chão.

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Za!

No Vice, muitos devem ter ficado surpreendidos quando viram um catalão de calções curtos e camisa havaiana na muralha a tocar trompete enquanto um outro estava a fazer batidas nas grades de segurança. Os dois malucos são os Za!, duo cuja demência parece não ter limites. “Encantados de volver” e empenhados em serem o mais bizarros o possível, os Za! usaram efeitos de voz e pedais de loop com batidas e gritos desconexos a belprazer para criar um estranho panorama musical que ultimamente acabava por fazer sentido e quase sempre ia descambar numa rockalhada furiosa. Desde utilizando desde o som de Hammond à The Doors a Beatbox, passando por múltiplos movimentos pélvicos, os Za! assinaram provavelmente a prestação mais original do Milhões de Festa.

Um dos pontos fortes do Milhões é que no recinto os concertos do Vice e do Milhões não se costumam sobrepor, mas houve excepções. Os Eyehategod já estavam em palco a destilar ódio quando muita gente estava a chegar de ver os Za!. Sulista de gema, a banda de Jimmy Bower e companhia tem uma relação de amor/ódio com a sua cidade natal de Nova Orleães, algo bem patente na nova música New Orleans is the New Vietnam. O seu Sludge Metal é como se tivessem atirado os Black Sabbath e os Lynyrd Skynard para um esgoto cheio de seringas provenientes de heroinómanos e isso resultasse numa banda. Blank, Sister Fucker e White Nigger foram alguns dos clássicos que provocaram os moshes mais intensos do Milhões, sendo que a nuvem de pó provocada tornou-se quase insuportável. Algo a rectificar para o ano. O pobre do Mike Williams continua com o mesmo ar absolutamente miserável, apesar de se mostrar bem-disposto e comunicativo (se bem que muito sarcástico) e a banda assinou até agora o melhor concerto do Milhões.

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Octa Push

Para mudar totalmente de panorama, os Octa Push tornaram o Vice numa pista de dança com o seu electro pop feito para bombar no Lux. Contando com a participação especial de Alex Klimovitsky, o duo de Dizzycutter e Mushug tocou Françoise Hardy, Monsta e Please, Please, Please, esta última com a voz de Catarina Moreno, que, disseram eles, não era nascida quando o antigo mago do Gil Vicente, Cacioli, andava para as curtas. Os três em palco estavam fixados na ideia de que toda a gente devia ficar nua e pediram-no repetidamente. A tentativa foi infrutífera mas isso não os impediu de se despirem até ficarem de mankinis e prosseguirem sem vergonha com a actuação. Para fechar o noite, o DJ Marfox trouxe o seu kuduro directamente de Lisboa (mais especificamente da Portela) para abanar o rabo e contou com a presença de Diron em palco (está em todas ele).

* Por opção do autor, este artigo foi redigido ao abrigo do acordo ortográfico de 1945

Fotos: Hugo Agualusa e Miguel Refresco (Milhões de Festa)

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