Bizarria total: Foi neste registo que Otto Von Schirach incendiou o palco Vice e fechou um dia de festival onde a chuva chegou a ameaçar e a estragar a diversão mas não passou de gotículas esporádicas que apoquentaram os presentes. Apesar dos vários atrasos e contratempos, foi um dia onde de grande variedade musical onde Yonatan + Igor partiram a loiça na Piscina, Black Bombaim + La La La Ressonance transportaram-nos numa viagem, Jacco Gardner destilou Verão com a sua actuação e Ufomammut devastaram o palco Milhões sem precisar de vocalizações.

Obrigado a ceder perante a tirania do factor tempo para escrever o artigo do dia anterior, era esperado perder o concerto dos Juba no palco Piscina. Nada disso, houve um atraso de quase uma hora, o que, vá, foi de extrema conveniência. De calção de banho curto e alguma timidez na postura, os Juba não se fizeram rogados e estrearam o palco Piscina com categoria, com um Rock mais experimental que puxa pelo Surf, pelo orientalismo, pelo Pós, enfim, pelo Verão. Com coros afinadinhos, melodias etéreas e momentos de peso quando necessário, os Juba, prestes a lançar o seu primeiro álbum, tocaram Hindu, Maria (esta dedicada a uma “rapariga gorda com bigode”) e acabaram com Thai.

Quem desejava que a banda seguinte fosse mais calma para ir descansar para a toalha ou ir beber uns mojitos pôde tirar o proverbial cavalinho da chuva, já que Yonatan Gat e Igor Domingues partiram tudo. Assente na guitarra rítmica imparável de Yonatan e nos já conhecidos dotes percussionistas de Igor, a actuação do duo foi de grande intensidade e demonstrou sinergia, raramente havendo desencontros entre os dois músicos. A cereja foi colocada no topo do bolo quando Igor chamou pessoal da audiência (incluindo Diron, também dos Throes + The Shine) para o ajudarem a desancar o kit de bateria.

O clima tropical seguiu-se com os Adorno imiscuídos na banda-irmã Papaya, assumindo uma postura mais desafogada e quente. Três guitarras a soltar melodias com teclado a reforçar, um baixo em grande plano e uma bateria sem parar quieta compuseram o sexteto com elementos espalhados entre Portugal, Espanha e Nova Iorque. Essa internacionalidade foi, aliás, denotada pela banda, que falou em como várias experiências em diferentes partes do mundo ajudaram a criar o puzzle musical que as duas bandas constroem. Já o registo vocal bastante agudo de Bráulio Amado, bem, esse é um acquired taste, ou se gosta ou não, mas no cômputo geral foi mais um bom concerto.

Era então altura de deslocação para o Taina. Esperando ver o concerto de dUAS sEMIcOLCHEIAS iNVERTIDAS, eram no entanto os Waste quem se encontrava a tocar, já que as duas bandas trocaram a ordem. Death/Thrash Metal foi o prato servido, com a banda a provocar algumas movimentações, se bem que ligeiras, em frente ao palco. O som estava um bocado embrulhado e pouco claro mas isso não impediu o colectivo vianense de thrashar com Freezing Sun e Hanged by Nails, demonstrando todo o poderio do baterista Flávio Martins. As guitarras por vezes ouviram-se mal, mas os solos da última música (não sei o nome, me desculpem) demonstraram todo o potencial que esta jovem banda apresenta.

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Mr. Miyagi

Para encerrar as festividades da tarde chegaram os Mr. Miyagi (com algum atraso), com o seu divertido Crossover a provar que não interessa o ponto de chegada mas sim a viagem. Foi com Nothing Else Matters (não, não é a dos Metallica e ainda bem) que deram início ao concerto, tendo o vocalista Ciso assumido uma postura confrontante, rumando aos encontrões para o meio da plateia em mosh enquanto gritava hinos de juventude. Os problemas de som continuaram mas não foi suficiente para impedir a banda, que deve tanto ao Thrash Metal como ao Skate Punk, de fazer a festa com Destruction Party, Enjoy Freedom ou uma cover de Kiss Me, I’m Straight Edge dos Surf Nazis Must Die.

O atraso dos Mr. Miyagi significou, infelizmente, perder os concertos de Papir e Mikal Cronin, já que comer é uma necessidade imperativa e o cloro faz mal à pele. Jacco Gardner subiu ao palco Milhões na sua primeira vinda a Portugal e com ele surgiram ares dos 60’s, da psicadélia e de substâncias psicotrópicas no seu Pop Barroco. Cabinet of Curiosities é o mais recente álbum do conjunto e foi essa faixa introdutória que nos conduziu até One Eyed King. A sonoridade até pode ser derivativa e tresandar a Syd Barrett, mas a qualidade das sua composições é inegável e a banda porta-se muito bem ao vivo. Confessando que cá vem muitas vezes no verão, Jacco declarou-nos Summer’s Game com o seu cheiro a relva fresca mas depois limpou os odores com Clear the Air. O concerto acabou com Chameleon, ficando no ar uma promessa de retorno.

Ao fim ao cabo, toda esta profusão de cheiros só nos estava a preparar para a viagem sensorial que os Black Bombaim, em conjunto com os La La La Ressonance, nos levaram. Já no ano passado a coisa tinha corrido bem com os Gnod, e este ano voltaram a premiar a audiência do Vice com um fantástico concerto onde a improvisação foi rainha, o riff o seu fiel servo e o saxofone com espaço para brilhar como o bobo que encantou as massas. Ambas as bandas surpreenderam não pela qualidade da sua prestação (porque isso já se sabia que ia ser boa), mas na forma como conseguiram mesclar tão bem as suas sonoridades num misto de tribalismo, negritude e intensidade.

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Austra

A seguir deu-se um concerto que podia ter sido, mas ficou só a meio. Os canadianos Austra eram uma das bandas mais esperadas do festival e, tendo tido uma boa prestação, não passou disso. A voz da espampanante Katie Stelmanis roçou o desafinanço mas manteve-se agradável e a Synth Pop com as suas batidas e melodias brilhantes do grupo levou as filas da frente a um alvoroço de excitação e dança, mas deu a ideia que o resto da audiência se manteve em frente ao palco com relativo desinteresse. É no entanto de valorar a simpatia da vocalista e a entrega que teve para com a prestação.

Uma das belezas do Milhões é a sua capacidade de surpreender com projectos relativamente desconhecidos e o palco Vice é sua a clara arena de experimentação por excelência. Os Camara, projecto de Michael Rother dos Neu!, foram um exemplo de como se pode fazer muito com pouco. Com a bagagem que as actuações de rua lhes conferiram, os três músicos conseguiram deixar o público em transe com uma guitarra, um computador e um kit de percussão com apenas um timbalão, uma tarola e um prato. Ali algures entre um Pós e um Kraut Rock, a prestação do grupo foi mágica, sendo hipnotizante o estardalhaço rítmico capaz de fazer corar muitos bateristas com os seus kits completos de bateria.

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Ufomammut

Depois dos Camara era então o momento de trazer a cavalaria pesada. Com uma artilharia de guerra carregada não por cavalos, mas por mamutes, os Ufomammut descarregaram obuses de peso sobre Barcelos com o seu Stoner/Doom psicadélico quase instrumental. Diga-se quase, porque o baixista Urlo de vez em quando decide bramir aos céus palavras apocalípticas. Por de trás encontravam-se projecções bem trippy que ajudaram ao ambiente funesto que a banda italiana criou. Os riffs seguiram-se em cadadupa, entre progressões trepidantes cheias de feedback e avalanches sónicas com o baterista Vita a servir de metrónomo trucidante. A banda ficou sinceramente agradecida pela recepção calorosa, com Urlo a levantar o seu baixo, como quem diz “Agradeçam-lhe a ele, não a mim”.

Apesar de White Haus, projecto de João Vieira (X-Wife) ter tocado depois, a apoteose da noite deu-se com Otto Von Schirach. IDM, breakcore, rapping, samples atrevidos e berraria por parte do Otto, estes foram alguns dos elementos que compuseram uma hora de pura fritaria mental. Com uma energia incrível, o americano deu um espectáculo para maiores de 18, com uma vestimenta que fazia lembrar um fato de ninja comprado na loja dos trezentos. O público, apesar de já serem 3:30 da manhã, correspondeu por completo, com moshes e danças espásmicas, criadas pelo balanço dos baixos quentes. A performance soube a pouco, com o Otto a desculpar-se que tinha de apanhar um avião para as Bermudas. “Blessed by the Bermuda Triangle you have been” disse ele, e ninguém discordou.

* Por opção do autor, este artigo foi redigido ao abrigo do acordo ortográfico de 1945

Foto de destaque: Black Bombain + La La La Ressonance – Hugo Agualusa (Milhões de Festa)

Fotos: Miguel Refresco (Milhões de Festa)