Jamie Cullum: a chuva não parou a música

Era um dos nomes sonantes no cartaz da 10ª edição do EDPCoolJazz e justificou-o em palco. Não que fosse necessário convencer alguém – Jamie Cullum voltou a emocionar-se e a emocionar os fãs portugueses. Apresentou freneticamente o mais recente álbum, Momentum (2013), sem esquecer os êxitos mais antigos que misturam genialmente o melhor do jazz e do pop.

Foi num clima de verão ameno que começou o anoitecer do Estádio Municipal de Oeiras, no Parque dos Poetas. Antes de Jamie Cullum subir a palco, a banda Hugo Trindade e Quinteto animou um espaço cada vez mais composto à medida que se aproximava a hora do concerto.

A banda portuguesa presenteou-nos com um curto concerto de abertura. Um jazz suave, de músicas instrumentais que fizeram soar em conjunto o saxofone e o acordeão. Talvez demasiado suave e descontraído, tendo em conta o furacão que passaria mais tarde naquele palco.

Alguns minutos atrasado, desrespeitando a norma britânica, Jamie Cullum entra de rompante em palco para cantar The Same Things, um dos êxitos do novo álbum. E como a sua performance contrasta com o concerto anterior. Parecia possuído em palco – entrou na música a fazer percussão, atacou um teclado que fez soar durante a música e ainda teve tempo para improvisar um saxofone com a voz. Estava prometida uma noite de loucos, com Jamie Cullim ainda mais irrequieto que o habitual.

Foi logo na segunda canção, Get Your Way, que Jamie subiu para cima do piano que tocava entre os saxofones estridentes. Just One of Those Things, do álbum The Pursuit (2009) deixou o artista sentado ao piano durante mais algum tempo – mas nem por isso menos mexido. As notas aceleradas que tocava guiaram os crescendos e diminuendos da restante banda e sem interrupções, ouvimos Everything You Didn’t Do. Só conseguimos reconhecer a guitarra, bateria e piano. Confirmamos que o britânico tem optado por melodias mais pop – uma mudança bastante visível no último álbum que faz um desvio relativamente aos primeiros trabalhos.

Os artistas davam o seu melhor, mas a qualidade do som não era a desejada. Principalmente no início do concerto, as notas agudas do cantor não soavam bem ao microfone obrigaram-no a baixar de tom. O bater mais grave do contrabaixo também não foi o melhor, apesar da visível perícia de quem o tocava. Entretanto, um spot publicitário quase interrompeu a segunda ou terceira música. Outra dificuldade contornada.

Jamie Cullum relembrou entretanto o dueto com Luísa Sobral, She Walked Down the Aisle. Havia quem tivesse esperanças que a artista portuguesa subisse a palco, mas não aconteceu.

Não tivemos tempo para ficar desiludidos – começou imediatamente uma mistura muito bem conseguida entre All at Sea e Ordinary People, uma reminiscência para o concerto de John Legend, marcado para o dia seguinte naquele mesmo palco.

Sempre bem-disposto, tocou muito sorridente, ao piano, o single recente, Edge of Something. Seguiu-se uma música do mesmo álbum, bem menos mexida, Pure Imagination, naquele que foi um dos melhores momentos do concerto. Um cover perfeito e intimista q.b da música de A Maravilhosa História de Charlie (1978).

Depois da acalmia, não estávamos à espera de um Jamie a fazer precursão com as próprias mãos, nem de um beatbox intercalado com piano. Afinal, não é muito previsível ver um artista de jazz a fazer beatbox e a marcar as batidas de entrada na música seguinte – Love for $ale. Sinal da grande versatilidade e aptidão para num momento fazer um solo jazz impressionante ao piano, e no seguinte estar a vocalizar ritmos pouco previsíveis. Uma novidade que não foi depreciada por uma assistência jovem-adulta, na sua grande maioria.

Já ligeiramente cansado, aproveitou para ter uma grande conversa com o público. Agradeceu em português, “sinto-me como o Bon Jovi” perante um estádio praticamente cheio. Visivelmente feliz, por ser constantemente bem recebido em Portugal – esteve há dois anos no hipódromo de Cascais para o EDPCoolJazz e já garantiu um concerto no Coliseu do Porto no próximo mês de Novembro.

Jamie introduz o tema seguinte, When I Get Famous, e explica o seu sentido: é sobre um jovem que não conseguia conquistar raparigas na escola e agora lhes mostra, sentado ao piano, o que elas perdiam. “Vocês estão a aplaudir porque pensam que é sobre mim, mas não é!”, brincou.

A chuva ameaçava desde o início do concerto e começou realmente a cair, enquanto Jamie Cullum tocava as primeiras notas aquele que é talvez o tema mais repetido da sua discografia, a reinterpretação da música de Rihanna, Don’t Stop the Music.

Não se voltaram a ouvir as músicas do último álbum. O concerto terminou com um conjunto de temas dos álbuns The Pursuit (2009) e Twentysomething (2004). Esta maratona de êxitos antigos começa em tom épico, com I’m All Over It Now, com o público a tentar imitar os falsetes do refrão. Em These Are the Days, trauteou algumas partes da música, e o público, novamente, a tentar segui-lo na medida do possível. Não é fácil imitar uma voz assim, e a certa altura o estádio desistiu e ficou em silêncio para ouvir o verdadeiro talento.

Twentysomething trouxe um momento  de jazz genuíno. Foi só Jamie e o contrabaixo sozinhos em palco. Entretanto, a chuva era cada vez mais intensa e houve quem não resistisse e começasse a abandonar o recinto. Mesmo assim muitos ficaram para assistir aos momentos de euforia no fim do concerto.

Mixtape antecedeu o fim do concerto com encore anunciado. O entusiasmo foi tanto, do lado do artista e do público, que às tantas o britânico atirava com cadeiras. Abandonou o palco e deixou um estádio inteiro a cantar e a pedir por mais.

E ele voltou, claro. Sozinho ao piano a tocar e cantar If I Ruled the World, num registo calmo e nostálgico que encerrou o espectáculo. Jamie, completamente emocionado pela recepção calorosa a que Portugal já o habituou. O público, esse, completamente rendido a entoar as derradeiras notas.

* Por opção do autor, este artigo foi escrito ao abrigo do Acordo Ortográfico de 1945.

Fotografias: Sónia Pena

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