Apanhamos o nosso último autocarro para o Super Bock Super Rock. Sem ar condicionado, mas cheio de frescura e fãs de música, é já com nostalgia que embarcamos para o desfecho do festival.

À hora marcada estamos lá. A primeira paragem é o Palco [email protected], no qual deviam estar os Surveillance. Não estavam, aproveitamos o tempo para recolher declarações para o Espalha-Factos Rádio desta segunda-feira. Os festivaleiros elogiam a organização pelas melhorias e dão dicas para o cartaz do próximo ano.

Entretanto Tara Perdida abre as hostilidades para um dia de emoções fortes. A banda liderada por João Ribas entra, ao som de Requiem for a Dream, numa abertura a querer ser épica. O Palco EDP está repleto de gente e “O que é que eu faço aqui?” dá o mote. Após mais algumas músicas e os apelos do vocalista, começa a levantar-se pó – no único palco que não tem qualquer mecanismo para evitar as celebrizadas nuvens do Super Bock. As limitações vocais do frontman da banda são perdoadas, até porque já estamos todos habituados. Na plateia, nomes bem conhecidos, como Joaquim Albergaria e Paulo Furtado.

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Os Surveillance chegaram entretanto, com quase uma hora de atraso. O duo português, que está aqui porque venceu o 9.º Concurso de Bandas de Garagem de Setúbal, atua perante uma tenda compostinha, iniciando com temas unicamente instrumentais. Misturam apenas baixo e bateria, numa atuação que os favorece relativamente ao que tínhamos ouvido no seu bandcamp. Fridig Hair está a ser tocada quando descemos ao palco principal para nos entregarmos à vertigem rock dos Miss Lava.

Uma já numerosa mancha negra permanece em frente ao Palco Super Bock. O stoner rock dos portugueses resulta muito bem, mesmo para quem não é fã do género. Desfilam vários temas de Red Supergiant, como Desert Mind, Crawl ou Scorpio, esta última a lucrar bastante com a adição de um coro de três elementos nos quais se contava Diana Silveira. Johnny Lee é um intérprete seguro e é a voz do contentamento da banda. Agarram com unhas e dentes, literalmente, a oportunidade de estar no maior recinto do festival, agradecem o apoio da Super Bock, enquanto Don’t Tell a Soul e Sleeping With the Angels servem para fechar. O mosh já anda lá pelo meio e nós saímos plenamente convencidos de que ocuparam bem o lugar.

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Altura de subir novamente até à tenda da Antena 3. Os Quartet of Woah estão a dar um concerto estrondoso, com evidente protagonismo do teclado. O rock clássico da banda portuguesa leva-nos, com grande gosto, até aos anos 70, com laivos de progressismo, melodia e peso em igual medida. Domínio instrumental e vocal absolutamente acima da média. Muitas horas depois ainda estou a pensar no falsete de Rui Guerra, que além de ter dado momentos de verdadeiro delírio nas teclas, foi impressionante como vocalista numa música de grande classe como The Path Of Our Commitment. Sem qualquer demérito para Gonçalo Kotowicz, que é um mestre de cerimónias impecável. Quando se atirou depois da tresloucada U-Turn para o público, ainda foi agarrado por António Moura dos Santos, jornalista do Espalha-Factos que estava de folga mas continuou a salvar vidas.

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É com pena que damos um saltinho ao Palco EDP, só para ver quem são Asterisco Cardinal Bomba Caveira. Banda nacional de Pedro, Tomás, Vasco e . Não são especialmente originais ou inovadores e a linguagem aproxima-se de quase tudo o que foi feito nos últimos três anos na ‘jovem’ música portuguesa. Ouve-se bem, até porque tem refrões orelhudos, melodias simpáticas e soa a finais de tarde e festas no quintal, mas não nos deixa grande marca ou memória.

No Palco Super Bock, Ash iniciam a sua passagem, iniciando o concerto com aproximação à estética mais agressiva que domina cartaz neste terceiro dia. A evolução para um registo mais pop vai-se fazendo ao longo do concerto, que vai passando ao lado de grande parte da multidão. Ninguém conhece os irlandeses, cuja carreira recente tem sido relativamente oculta, embora tenha sido bom ouvir ao vivo a colante Shining Light.

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Tempo para visitar We Are Scientists no Palco EDP. Os músicos apresentaram-se divertidos e com diálogos absolutamente non-sense com o público, que apesar de não os conhecer bem, foi reagindo calorosamente. As canções não se destacam, mas eles saem favorecidos pelo desinteresse geral do público em relação aos protagonistas do palco principal. Foi enérgico e cativante, chegando a momentos de alguma intimidade em Rules Don’t Stop e Nobody Move, Nobody Get Hurt, com um riff cantado em alguns na na na’s.

Ainda antes de irmos ver Gary Clark Jr., tempo para passar por Sam Alone & The Gravediggers. Apolinário Correia, também conhecido por Poli, diz que a verdadeira música se faz ali, em palco, com instrumentos e gente de carne e osso, não é com portáteis e iPods. E tem toda a razão. Apresenta-se em palco com um folk rock que às vezes cheira a country e que está cheio de coração. O vocalista é carismático e Youth in the Dark, o primeiro single do projeto, põe toda a gente – que ainda é muita – aos saltos. O ambiente é de uma noite em festa num bar com boa bebida e boa companhia. Vamos esforçar-nos por orientar a nossa agenda para, em breve, vermos um concerto inteiro.

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Gary Clark Jr. dá entrada aos blues no palco principal, num concerto que destoa do domínio rock do dia. Está cheia de fulgor a voz negra e plena de melodia do intérprete. Há gente sentada na relva, ao estilo de pequenos piqueniques noturnos, e há conversa mole entre as músicas, até para compensar o pouco diálogo de Gary com o público. A meio caminho saltaram umas bolas feitas com copos de plástico, o que parecia muito bonito e relaxante, não fossem os copos tão rijos. Os bons solos de Gary sobressaltam levemente aqueles instantes, enquanto bons falsetes e vibratos de sabor a mel vão deixando a noite correr por entre êxitos como Things are Changin’, Give it Up ou a enternecedora Please Come Home.

O concerto, que passou num instantinho, acabou. Não saímos do nosso sítio, não queremos perder lugar para Queens of the Stone Age. Há todo um festival em suspenso, houve um dia inteiro de espera e alguns anos de intervalo desde que vimos estes amigos.

A acumulação de tensões permite uma explosão aos primeiros segundos de You Think I ain’t Worth a Dollar, But I Feel Like a Millionaire. Ele são chapéus, ele são copos de cerveja, tudo voa e o público também inicia um caminho rumo às alturas. No One Knows vem para continuar a vertigem, com os riffs iniciais a serem comemorados como se fossem golos. E eles marcam, marcam ainda mais pontos. Só por duas músicas parece que já valeu a pena a espera.

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My God is the Sun, primeiro avanço para o novo álbum, foi mais um tema celebrado, mostrando que temos aqui fãs que vão muito além dos clássicos e acompanham com avidez a carreira dos Queens. Um pouco mais à frente, Sick, Sick, Sick, outra canção aclamada pela plateia. Os momentos épicos são tantos que parece que este é um concerto sem um clímax definido. Um desfile de boa música, num repertório completamente eclético e que pode servir bem aos fãs de qualquer um dos outros nomes do cartaz. Outro excelente momento foi Vampyre of Time and Memory, que antecipou a sexy If I Had a Tail.

I Appear Missing, I Think I Lost My Headache e The Lost Art of Keeping a Secret formaram um primeiro trio demolidor, que deixou os ânimos bem acelerados. Mas estavam para vir mais três, o número que Josh Homme fez, para acabar com qualquer dúvida sobre o power a que estávamos a assistir. Feel Good Hit of the Summer, Go With the Flow e A Song for the Dead serviram para fechar, numa noite que pedia encore ou mesmo mais uma hora e meia de ataque fortíssimo. Um concerto para novos e antigos fãs, um concerto de Super Rock.

Texto: Pedro Miguel Coelho

Fotos: André Cardoso