O mundo seria um espaço mais belo, ou menos deprimente se noventa por cento das pessoas que lhe dão vida soubessem que visitar obras dos Blink-182 ou dos Sum 41 é uma das experiências mais execráveis que podem ter. Infelizmente, ou não, não é assim que as coisas se passam, e existe uma quantidade imensurável de pessoas que o fazem, para o bem e para o mal. Esqueçamos o mal; Colleen Green, miúda norte-americana, gosta de brincar com o legado de merda destas coisas. E tudo o que se pode dizer é “Ainda bem que passaste a tua adolescência a ouvir coisas de merda”.

É quase inevitável não nos lembrarmos dos nomes acima referidos quando escutamos Sock It To Me, o novo longa-duração da jovem americana. Os riffs são quase sempre confluentes com aqueles que marcaram o punk-rock da década de noventa, porém nada mergulhados em azeite. É como se Colleen Green fosse a super-mulher, entrasse numa máquina do tempo e regressasse à década do grunge na tentativa de salvar, ou tornar menos execrável, tudo aquilo que se fez de menos bom por esta altura. E a verdade é que consegue fazer isso de uma maneira quase exímia.

Se por um lado existem viagens que repescam aquilo que já se fez, bem ou mal, por outro nasce aquilo que torna Sock It To Me um dos mais viciantes discos do ano: a vertente electrónica. Beats pujantes que acompanham todas as dez faixas que constituem o disco. A receita, de aliar riffs enérgicos a beats que só nos despertam uma vontade quase espontânea de dançar, não é uma coisa propriamente inovadora, mas é algo que aqui é fermentado com uma qualidade admirável.

E se se mesclam tempos do ponto de vista instrumental, o que dizer acerca do resto? Bem, a verdade é que aqui que o disco triunfa ainda mais. Comecemos por falar daquilo que aconteceu na década de sessenta. A década de sessenta ficou intimamente marcada pela celebração da música pop, e se é verdade que para isso o contributo de nomes como The Beatles ou The Kinks foi fulcral, é importante referir que o surgimento de bandas compostas unicamente por elementos de sexo feminino também o foi. E não que elas não existissem antes, mas foi a partir daí que as girls bands começaram a dar que falar por aqui e por acolá, recitando estas o espírito e a perspectiva feminina dos problemas que as iam afrontando. Collen Green deixa-se influenciar pelos tempos primórdios da celebração feminina da pop e compõe segundo as doutrinas sessentistas que essas senhoras edificaram; as suas letras fazem com que se convirjam desastres amorosos com paixões (Close To You / Every Boy Wants a Normal Girl), problemas e vivências do quotidiano com a rebeldia juvenil (Time In The World / Heavy Shit), mas do ponto vista lírico Sock It To Me é, sobretudo, um disco para se ouvir e para se dedicar; é um disco de uma pessoa para outra, onde o ouvinte é um mero convidado.

Porém, um convidado especial, não fosse a vertente lo-fi da produção do disco, que é algo que torna o disco, indubitavelmente, um registo ainda mais agradável. Em suma, não é fácil abordar um disco como Sock It To Me; não é uma coisa totalmente inovadora, e tudo o que aqui foi feito já o tinha sido anteriormente. É uma pop alternativa. Contudo, impressiona o modo habilidoso como aqui tudo se interliga e se é verdade que existe alguma mesmice ao longo de todo o longa-duração, quão pouco monótona consegue ser a vida nas efemeridades que ela nos vai ditando? Ou ostentamos o desejo de as viver para o sempre ou ansiamos desmedidamente para que tudo passe num ápice, o que é certo que elas acabam por se esvair. Mas no caso de Collen Green não nos importaríamos nada que prevalecessem mais do aquilo que é o estipulado. Esperamos que esta menina nunca cresça, e que goste para sempre de Blink-182. Nós perdoamos-lhe. What a crazy world, Pretty Liitle Girl

Classificação final: 8.0/10

*Este artigo foi redigido, por opção do autor, ao abrigo do acordo ortográfico de 1945