SBSR, dia 19: Entusiasmo, euforia e espetáculo – digo eu!

O dia começa mais fresco que o de quinta-feira, todavia com mais calor de humano, enchente notada na entrada pelo lado do campismo, onde invadimos a casa dos festivaleiros, uns vindos do banho e outros de panelas na mão para o prato do dia – esparguete com atum.

Dirigimo-nos ao Palco EDP, onde Manuel Fúria atira uma cover de Tony Carreira. Sonhos de Menino, reforçada nas cordas e nos sopros, fica com um efeito semi-orquestral que lhe dá a consistência que nunca antes lhe tínhamos visto. Foi uma versão que «com a força de Deus venceu».

Somos informados que Manuel Fúria começou 15 minutos antes da hora marcada. Sendo que nós tivemos um atraso no estacionamento, já ouvimos pouca coisa. A setlist segue com Os Lírios do Campo, porque “o que importa são os lírios“. Estas canções soam a nova música portuguesa com um toque de tradição e velha senhora, ou será Vá Lá Senhora?

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Foto: André Cardoso

Perante um público não superior a 100 pessoas, até porque Black Rebel Motorcycle Club já começou a sua prestação no Palco Super Bock, a alegria continua. Alguns dançam na frente de palco, perante uma igreja que estava toda iluminada. ‘Canção para casar contigo’ deixou-nos a tempo de irmos ver outras paisagens.

E, do outro lado, já a procissão ia no adro. Black Rebel Motorcycle Club serviam rock rijo e a saber a whisky velho. Ficámos a assistir a um alinhamento que conhecemos mal com o deslumbre de quem vê alguém que sabe o que faz. Ain’t No Easy Way, num tom bucólico e com direito a harmónica, coloca-nos em frente à porta do saloon, algures no Faroeste.

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Foto: André Cardoso

Aproveitamos o fim do concerto para visitar outras paragens. Na tenda Antena3@Meco os Octa Push. Promessa cumprida da eletrónica nacional, já se fazem ouvir pelo mundo. Somos recebidos por sotaque francês e com o palco em desalinho. A voz que acompanha o duo português salta e cai do palco, provoca feedback nas colunas, canta loucamente. Ficamos só mesmo um bocadinho, o suficiente para ouvir Françoise Hardy, e achamos que esta adição internacional não beneficiou em nada a atuação. Vamos continuar a ouvir, em casa ou na pista de dança, a versão em estúdio.

A eletrónica também domina no Palco EDP. Midnight Juggernauts oferecem o último concerto da digressão perante uma plateia pouco entusiasmada. O tom atmosférico, as harmonias e os sintetizadores em batidas lentas não convencem. É tudo tão cósmico que parece longínquo. Há uma tentativa de interação com o público, mas os temas, maioritariamente dos dois últimos álbuns, não nos dão a dança ou o frenezim que havia em Dystopia.

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Foto: André Cardoso

Tomahawk avançam, com o instrumental mais pesado da noite. Mike Patton é a voz que conduz as cerimónias, num rock cheio de agressividade e sem regras. Em muitos momentos, parece-nos desinspirado e longe do virtuosismo que lhe atribuímos. A noite chegou e o ambiente também ficou mais negro. Soltaram-se muitas palavras em português e chegou a musicar-se “Porra caralho”. Estamos só a citar. No alinhamento, alguns temas do novo álbum, mas também clássicos como God Hates a Coward.

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Foto: André Cardoso

Seguimos o passo a muito do público e vamos novamente até à tenda Antena3. Samuel Úria dá um grande concerto perante uma tenda bem cheia, de alguns fãs mas também espectadores menos admiradores do peso dos Tomahawk. Peso que quase ia esmagando as pedras rolantes de Espalha Brasas, sem fúria suficiente para segurar a interferência sonora de “Mike Patton a estrebuchar” (Úria, 2013). Deu tempo para ouvir, calma ou aceleradamente, todos os temas de O Grande Medo do Pequeno Mundo.

Contou com as adições de Miriam Macaia, de doce voz e mão ágil no violino e Manuel Fúria, que deu voz a um grande momento rock partilhado em Ninivitas. O instrumental atingiu vários momentos de brilhantismo, o fim foi escaldante e ruidoso.

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Foto: André Cardoso

Temos de passar por Clã. Já tocam no Palco EDP, com uma plateia numerosa e ainda a ganhar com alguns descontentes do palco principal. Apresentam Fahrenheit quando chegamos. O fogo a arder e o recinto a encher. A banda portuguesa tem pela frente o maior público, até agora, neste palco secundário.

Manuela Azevedo é um animal de palco e anuncia H2omem perante aclamação geral da assembleia. Segue-se Sangue Frio, com refrão pegadiço a valer um belo coro. A vocalista parece mesmo num dia feliz. Regressam aos festivais para um concerto com alinhamento diferente do que têm tido os últimos, também a testar alguns temas para o próximo álbum, ainda sem data de lançamento. A paz não te cai bem, composta com John Ulhoa dos Pato Fu, é um desses novos temas. Segue-se, perante gritos e o nosso entusiasmo a incontornável Problema de Expressão. E a plateia permanece acima do copo meio cheio, Clã resistem bravamente aos Kaiser Chiefs.

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Foto: André Cardoso

E a banda britânica já vai tocando, cá em baixo. A plateia está bem preenchida, já com mais gente do que Arctic Monkeys contou no dia anterior. É um rock cheio de propriedades energéticas e vitamínicas. Dizem que é bom estar de volta a casa e os presentes recebem-nos como os primos fixes que regressam no verão.

Ricky Wilson é uma figura carismática, que joga bem com as câmaras e com o público. É entertainer e frontman competente, num alinhamento estrategicamente decidido e muito baseado em temas antigos, mas que teve tempo para apresentar Misery Company e Comin’ Home. Esta última ainda serviu de momento quase-baladeiro. Estoira um very light, que não seria o último. Ruby e Predict a Riot também fariam uma dupla estrondosa. O final é apoteótico, com Oh My God a ser interpretada em cima de uma barraca da Super Bock. Portugal gosta dos Kaiser Chiefs.

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Foto: André Cardoso

E é com tudo em pulgas para os Killers que vamos ao encontro de Miguel, que iniciou quase meia-hora de atraso no EDP. Uma estratégia para fugir à banda do Palco Super Bock, talvez. Esta revelação do R&B não nos entusiasma muito, apesar do coro de críticas positivas. Faz-nos lembrar Usher, mas sem a mesma pica. Saca de falsetes e vocalizos enquanto apresenta alguns dos temas de Kaleidoscope Dream. Ao nosso lado alguém comenta “Nem sabia que isto ainda se fazia”. Ensaia diálogos filosóficos com o público e não consegue estancar a fuga, os rapazes de Las Vegas estão a chegar.

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Foto: André Cardoso

Somebody Told Me é o tiro de partida, um clássico de abertura. E o público continua aos saltos com Spaceman. À segunda música já dá para entender bem em que termos este concerto se vai manter. Brandon Flowers é eficaz e os vocais agudos ajudam a construir os ápices necessários num repertório rock-pop de hinos para concertos de estádio. The Way it Was acende um coro afinadinho.

Segue-se Smile Like You Mean It. O concerto abranda, pela primeira vez, com um aperitivo de Human, numa versão ao piano que dura apenas alguns segundos. Há Bling e depois é momento para receber a entusiasmada Miss Atomic Bomb, segundo single de Battle Born. Teve direito a fogo de artifício e logo a seguir vem a versão completa de Human, perante uns 30 mil coristas afinados.

Dustland Fairytale, um conto de fadas pouco convencional, oferece o momento mais queridinho da noite. Derretemo-nos, vemos beijinhos, abraços e isqueiros no ar. Não nos deixemos envolver em momentos lamechas. Voltamos a ganhar ritmo com Read My Mind, tema mais rockeiro, vindo de 2006. All These Things That I’ve Done, na sequência, soou bem alto no Cabeço da Flauta.

E, num saltinho, estamos no encore. Jenny Was a Friend of Mine, When You Were Young e Mr. Brightside, a música que faltava, encerram uma noite de grande festa. O sorriso de Brandon Flowers não para. Houve fogo de artifício. Hoje há mais uma noite de arraial e Luís Montez promete gente pendurada nas árvores.

Texto: Pedro Miguel Coelho

Fotos: André Cardoso

* Por imposição da banda nenhum órgão de comunicação social foi autorizado a tirar fotografias ao espetáculo de The Killers.