O Espalha Factos recarregou bem as baterias e esteve no terceiro e último dia do Optimus Alive’13, um domingo que prometia ser o melhor dia em quantidade e qualidade. E assim foi.  Descobrimos que os Alt-J são a mais recente paixão do público português, que encheu pelas costuras o palco Heineken para os ver; também os islandeses Of Monsters And Men deram um concerto estrondoso no mesmo palco, com o público a cantarolar quase todos os refrões e aos pulos (algo que fez lembrar um pouco Mumford & Sons o ano passado no palco principal). Kings Of Leon não desiludiram quem foi só para os ver e os franceses Phoenix contagiaram o palco Optimus com a sua alegria indie pop.

Uma nota de abertura para o concerto de Tribes, pelas 17h40, no palco secundário. A banda britânica indie rock teve menos público do que merecia, devido à hora e, claro, ao facto de serem menos relevantes por cá. A verdade é que surpreenderam muito pela positiva. Esforçaram-se por falar português, “tudo bem?” perguntou-nos o vocalista Johnny Lloyd, que nos contou que o baterista Miguel Demelo nasceu em Portugal, apesar desta ser a primeira vez que visita o país. A reacção de apoio do público, aos gritos, foi imediata; afinal de contas é sempre bom saber estas curiosidades. Tocaram alguns temas bem interessantes como Corner Of An English Field, sobre a terra de onde vieram, explica o vocalista.  Estes Tribes são bem simpáticos!

Não conseguimos ouvir todo o concerto, pois os portugueses Linda Martini estavam a começar no Palco Optimus e para lá nos dirigimos a passo rápido. Mal chegámos lá ouvimos o som inconfundível da bateria de Hélio Morais e as vozes de Claudia Guerreiro e Pedro Geraldes no tema Dá-me a Tua Melhor Faca, que já conhecemos desde Olhos de Mongol (2006), mas que é uma constante nos concertos. O mesmo acontece com Amor Combate, que também se fez ouvir. Esteve lá um pouco de tudo, apesar de sentirmos que o concerto soube a pouco (durou menos de uma hora) ainda ouvimos a participação massiva na letra de 100 Metros Sereia, como já é habitual. Ainda do álbum Casa Ocupada (2010) ouvimos Juventude Sónica e sim, “parecemos putos, não temos aulas amanhã” ecoou bem alto. Claro está que muitos dos “putos” presentes se identificaram com a letra.

Hélio Morais, baterista e comunicador da banda, agradeceu ao público: “Obrigado por nos fazerem felizes”, garantindo que sem nós nada daquilo era possível, palavras que sabem sempre bem ouvir. O baterista ainda se lançou ao seu público, num momento emotivo de crowdsurfing (parece que estávamos do lado errado do palco!). Ratos também se fez ouvir, este novo single que fará parte do novo álbum a ser lançado brevemente, agora com carimbo da Universal Music. Em Outubro chegam novos concertos em Lisboa e no Porto, anunciou Hélio perto da despedida.

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Sabemos que Linda Martini foi pouco tempo quando às 18h40 já estávamos no palco Heineken outra vez a ver os portugueses Brass Wires Orchestra, não podemos passar ao lado deste concerto, já que teve uma audiência relativamente grande e estiveram à altura do desafio de actuar num grande festival como este. A alegria que emanavam era visível e contagiante, apetecia dançar e sorrir ao ritmo do folk com muita garra destes 8 elementos, que ainda preparam o álbum de estreia, mas já causam uma boa impressão a muita gente. Que continuem assim!

Chegamos a um dos momentos altos da noite: no palco Heineken com os islandeses Of Monsters and Men, que claramente ficaram surpreendidos com a recepção calorosa do público português, que mosntrou que sabia as letras de uma grande maioria das canções do álbum de estreia My Head Is An Animal (2011). O concerto foi imperdível e vibrante, tanto que nos prendeu a atenção e houve quem não arredasse o pé para ir ver Tame Impala, que começou entretanto, às 20h10. Uma decisão difícil. (Isto de ter dois amores que nada são iguais é sempre um dilema…).

Dirty Paws, Six Weeks, Mountain Sound, King and Lionheart e a belíssima Slow and Steady marcaram presença, mas foi com o single Little Talks (mais conhecido da generalidade) que o público vibrou mais, fazendo coros e pulando sem parar ao som da batida da bateria e das vozes intercaladas de Nanna Bryndís Hilmarsdóttir e Ragnar Þórhallsson. Os islandeses seguiram um repertório clean do seu indie folk dançável, agradeceram ao público e Ragnar atou ao seu microfone uma bandeira portuguesa que dizia qualquer coisa como “Welcome Of Monsters and Men”. Alguma coisa nos diz que eles apreciaram a nossa receptividade calorosa e voltam em breve.

O relógio bate as 20h10 e os Tame Impala, projecto nascido da mente de Kevin Parker, sobem ao palco do Optimus Alive’13, apresentando-se em formato de quinteto perante uma plateia recheada de melómanos, amantes dos estupefacientes e betinhos de Cascais. Consigo, os australianos fizeram questão de trazer o seu psychedelic rock de baixa fidelidade das canções de Innerspeaker (2010) e Lonerism (2012), apresentado num pôr-do-sol que, apesar das desconfianças iniciais, acabou por ser o mais adequado.

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Num show curtinho, que serviu para encerrar a tour europeia de apresentação do segundo álbum do grupo, faixas como Mind Mischief (aqui em versão “encurtada”), Feels Like We Only Go Backwards e Elephant (que riff tão paquidérmico) fizeram as delícias dos fãs do grupo, que muitas vezes pareciam verdadeiramente hipnotizados, tanto pelas densas camadas de distorção disparadas pelos amplificadores como pelos psicotrópicos efeitos visuais que foram apresentados nos ecrãs laterais. Após o encerramento, com a portentosa jam de Half Full Glass of Wine (e juramos por tudo que um dia destes os Cream ainda processam os Tame Impala à conta daquela guitarra blues verdadeiramente insana), não pudemos deixar de sentir que soube a pouco, mas foi bom termos sido abençoados pelo génio de Parker.

Phoenix são aquela banda que sabemos que vamos gostar mas não temos expectativas muito elevadas. O que fizeram no Palco Optimus foi bom e suficiente para nos deixar satisfeitos. Apresentaram um pouco do novo álbum deste ano, Bankrupt!, como a Entertainment, com um som “asiático” e boa escolha para introduzir novidade. Passaram por êxitos esperados como Lasso e  Lisztomania do álbum de 2009 Wolfgang Amadeus Phoenix, um dos mais apreciados (se não o mais apreciado de modo geral). Deste disco tocaram ainda a fortíssima 1901, mais perto do fim, um single que causa sempre impacto com o seu ritmo acelerado, que nos faz querer sair do lugar. Mais ou menos nesta altura o vocalista Thomas Mars estava já junto do público a ser levado por mãos, bem adequado, pois são momentos como este que dão pontos extra aos concertos que inicialmente poderiam não ser nada de especial. Gostamos desta alegria genuína e desta confiança.

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Depois de Phoenix foi a debandada geral para ver os Alt-J, o quarteto promissor do indie rock, que venceu o Mercury Prize em 2012 com o álbum An Awesome Wave, o foco desta noite. O problema foi chegar até perto do palco Heineken, sim porque a vaga de pessoas em movimento à mesma hora foi excessiva, deixando quase desertos os outros recintos do festival mas tornando difícil dirigirmo-nos para onde queríamos. Estava tudo concentradíssimo para ouvir e cantar com os ingleses. Esta paixão vem desde o Vodafone Mexefest do ano passado (onde já tinham marcado presença)  mas, por aquilo que se presenciou ontem, achamos que o sentimento veio para ficar.

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Passaram pelos singles Something Good, Taro e Tesselate, enquanto muitos fãs eram filmados a fazer o símbolo triangular com os dedos (∆), em homenagem à imagem de marca da banda. Foi com Breezeblocks e Matilda que a euforia se fez sentir ainda mais.  Mas quem pensava que iam ser certinhos e tocar só músicas do álbum estava bem enganado, a verdade é que também tocaram, para nossa surpresa, uma versão muito própria da Slow de Kylie Minogue. Saímos do palco como entrámos, também devagarinho e a custo, mas com satisfação de ter assistido um bom concerto, ainda com a melodia única dos Alt-J na cabeça “Please don’t go, please don’t go, I love you so, I love you so”.

Seguimos de encontro ao momento em que queremos perceber o que valem os cabeças de cartaz que ficaram para último: Kings Of Leon. Começam às 23h00, isto porque o reportório ainda seria longo e, para uma total sinceridade, tem de se dizer que não deslumbraram a maioria, nem pouco mais ou menos. Claro que os fãs vibraram com as aguardadas Use Somebody ou Sex On Fire (ambas de Only By The Night – álbum de 2008), deixadas estrategicamente para o fim, mas o restante tempo havia uma enorme quantidade de gente inquieta e distraída, uns olhavam para o telemóvel, outros falavam com colega do lado, outros estavam notoriamente à seca e tinham de ir beber uma cerveja para animar. Tudo isto nos faz pensar que outras bandas que actuaram esta noite podiam ter fechado melhor o festival, mas tudo bem, o que foi bom não se perde.

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A banda dos irmãos Followill passou por inúmeros temas do álbum de 2010 Come Around Sundown (ex: Radioactive, Pyro, The Immortals e Back Down South), mas muitos também de Only By The Night, isto além dos dois singles mais comerciais, apresentaram também Notion, Closer, Crawl, Be Somebody e Cold Desert no seu alinhamento, algo entediante para quem não fosse propriamente fã. A noite seguiu e foi no encore, após Knocked Up e Black Thumbnail, que se ouviram os gritos no refrão “You… Your sex is on fire”. Assim se despediram os “leões” e  encerraram o palco principal do festival Optimus Alive’13.

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Porém, nos palcos secundários a festa ainda estava longe de terminar, e após contemplarmos por momentos a decisão de assistir aos “panados com pão” do Palco Optimus Clubbing, decidimos rumar de novo ao Palco Heineken, para apanhar o concerto dos norte-americanos Band of Horses. Com uma plateia ainda a recompor-se dos destroços deixados pelos Alt-J, o grupo liderado por Ben Bridwell brindou os presentes com um competente espectáculo de indie rock e alternative country que, à medida que o tempo foi passando e a tenda foi enchendo, foi aumentando o nível de melancolia. Destaque para No One’s Gonna Love You e The Funeral, pontos altos de um concerto em que as emoções chegaram à flor da pele (que o digam as lágrimas de muitos dos presentes).

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Após isto, seguiram-se os britânicos Django Django, última banda a sério do festival, que trouxeram ao Palco Heineken as canções do seu disco de estreia, homónimo, lançado em 2012. Adaptando as singularidades do seu experimentalismo pop às vicissitudes do contexto de festival, o quarteto trouxe ao palco secundário do Optimus Alive’13 uma versão mais mexida e dançável de peças como Hail Bop, WOR e Love’s Dart, temas que não deixaram ninguém quieto na plateia e que espalharam um bom ambiente, muito veraneante, por toda a tenda. Finda a última canção do alinhamento, indecisos entre Alex Metric no Palco Optimus Clubbing e The Bloody Beetroots no Palco Heineken, acabámos por escolher o conforto da nossa cama, dando assim por terminada uma jornada de três dias incríveis que, segundo a organização, trouxeram ao Passeio Marítimo de Algés perto de 150 mil pessoas. Para o ano há mais!

*Este artigo foi escrito, por opção dos autores, segundo as regras do Acordo Ortográfico de 1945

Texto: João Morais e Susana Pacheco

Fotos: Catarina Abrantes Alves