Os Azeitonas estão de volta às canções com AZ, o quarto álbum de originais da banda portuense. Apesar de ser o álbum que sempre quiseram fazer mas que nunca puderam, fica um pouco aquém do que esperávamos. No entanto, sempre num clima de festa e com o exagero bom a que já nas habituaram ao longo destes onze anos, Miguel AJ, Marlon, Nena e Salsa voltam a oferecer-nos um conjunto de músicas muito diferentes, que valem por si mesmas e cativam à primeira audição.

Pander dá o mote para a fanfarra, como alguém designava esta nova aventura da banda dos frutos de oliveira. Com um ritmo viciante, havendo ou não, todos ficamos a querer pander, num disco original que elevara as expectativas dos fãs ‘azeitolas’. Já o primeiro single, Ray-Dee-Oh, banalizou-se de tanto tocar nas rádios nacionais, mas o seu pop encaixa bem neste AZ. E é de todos os pais gostarem.

Bastante AZ tem também Whatever, Tanto Faz. Não há assim “tantas assim que há por aqui” como eles dizem, dizemos nós. Os ritmos fortes ganham claramente neste novo álbum, em prejuízo das letras brilhantes que, contudo, em temas como este, acabam por sobressair. Apetece sempre cantar bem alto com Miguel Araújo ou nos coros do resto da banda, como no Meu Travesseiro de Marlon. Há algo cativante nesta canção simples e, mais uma vez, não é propriamente o tom humorístico, mas sim a sonoridade forte, que nos agrada.

O alter-ego francês de Nena encanta em Showbizz. Sabe a burlesco, a uma Paris encenada e vintage. É diferente de tudo o que Os Azeitonas já nos mostraram. Ao mesmo tempo, este carácter aleatório é, na verdade, o que sempre os caracterizou. E deste ritmo de cabaré passamos rapidamente para um western que confunde propositadamente o deserto Sahara com uma “ferida que não sara” que é uma Sara na vida do nosso Marlon.

A maior presença de Miguel Araújo no álbum é notória logo a partir do primeiro tema, prolongando-se no resto de um álbum “amiguelado”, ao nível das letras e de alguns ritmos mais leves e tranquilos. Infelizmente, esta influência do autor de Cinco Dias e Meio nem sempre tem efeitos positivos. Sentimos a falta de mais Marlon em algumas das canções e um certo afastamento desta loucura saudável d’Os Azeitonas.

Do baú do fiambre musical de Miguel Araújo são recuperados e aproveitados Circo Zen e Lisboa Não É Hollywood. A primeira é a cara d’Os Azeitonas e beneficia largamente do maior orçamento que a banda teve neste disco, com um arranjo cuidado e circense, inteligente na forma como entra na festa e a prolonga com o seu instrumental vigoroso. Já Lisboa Não É Hollywood já era das minhas favoritas antes desta sua oficialização. Tem muito da fase Chico Fininho de Rui Veloso e, apesar do clima festivo, há algo de inexplicavelmente trágico nesta comparação. Pode vir a ser o próximo single e tem tudo para dar certo.

No meio está ainda Tonto por Ti, uma balada pop bonita do nosso Miguel, o romântico incurável que fica tonto, zonzo, perde o norte e sofre de amores. A par de Angelus e o seu pianinho suave, com a harmónica característica do cantautor, é talvez a que mais destoa no meio de tanta alegria, emoção e festa dos AZ. São canções que talvez melhor se integrassem num álbum a solo do azeitona mais famoso e não tanto numa aventura divertida e tresloucada como se espera d’Os Azeitonas quando se juntam para fazer música.

Ainda assim, quando chegamos ao fim do álbum e somos confrontados com Nanana, tudo o que ouvimos para trás parece pequeno e pouco significante. O Nanana que “não se acaba” recupera todas as boas influências da banda e faz-nos cantar, gritar, dançar e querer mais. Entramos literalmente num concerto e sentimo-nos a percorrer novamente a Marcha da Rua da Alegria, com uma alegria imensa e com uma letra que, finalmente, podemos chamar irónica, bem construída e viciante. É de longe a que mais representa Os Azeitonas que amamos e de que sentimos alguma falta em algumas das outras canções.

Há aqui este ‘mas’ no meio. O esforço musical é notável, mas nós que os conhecemos já tão bem – e não apenas como a banda do Anda Comigo ver os Aviões – não podemos deixar de pensar “mas eu quero mais…“. Porque AZ não é nenhum Salão América e é, aliás, menos ‘azeitonas’ do que os anteriores, com uma personalidade menos vincada. É uma espécie de circo zen, para aproveitar a alegoria; como se a alegria circense fosse mitigada pela tranquilidade das letras e de certos ritmos.

Mas – e este ‘mas’ aqui é bom – o balanço final é positivo: novas sonoridades, uma mistura de géneros feliz, um álbum que não é mais do mesmo e que, como sempre, traz frescura, espetacularidade e bom humor ao panorama musical português. Nunca não gostamos do que eles fazem, mesmo que não seja perfeitíssimo. E nos coliseus, em novembro, ao vivo e a cores, será certamente mais que perfeito.

Nota final: 7/10