Foi ontem que teve início o Optimus Alive’13, a 7.ª edição deste festival, que tem lugar todos os anos no Passeio Marítimo de Algés. O Espalha Factos está a fazer a cobertura do evento e preparou para aqueles que, infelizmente, não puderam estar lá (ou aqueles a quem o álcool apagou as boas memórias) uma reportagem de luxo. 

Ainda atordoados com o triste cancelamento dos Death From Above 1979, prontamente substituídos pelos Marky Ramone’s Blitzkrieg, chegámos ao recinto do Optimus Alive’13 e constatámos que também o sol decidiu fazer gazeta neste primeiro dia de festival, dando um toque de “Verão inglês” ao ambiente que certamente terá agradado, ou não, às imensas legiões de britânicos que se encontravam presentes. 

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A abertura foi logo a rasgar, com os Quelle Dead Gazelle a iniciar as hostes de uma forma intensa no Palco Heineken, às 17 horas. Com um indie rock vigoroso, repleto de cheiros a math rock e post-hardcore (a fazer lembrar uns Foals na fase de Antidotes, mas com mais força na verga), a dupla portuguesa composta por Pedro Ferreira (guitarra) e Miguel Abelaira (bateria) apresentou-se no palco secundário do Optimus Alive’13 já com um EP homónimo, lançado no ano passado, debaixo dos braços. Infelizmente, os 18 minutos da actuação não deram para muito e foram demasiado curtos e injustos para uma banda que estava a dar, apesar do pouco público, um belo show

De seguida, o Palco Optimus, inaugurado às 18 horas pelos galeses Stereophonics. Desfilando uma mistura inócua de cock rock genérico e britrock deslavado™, o grupo britânico actuou ao final da tarde para um público ainda morno, com excepção feita aos fãs ingleses e espanhóis que deliraram ao som do catálogo da banda, revisto desde os “clássicos” Local Boy in the Photograph e A Thousand Trees às mais recentes Indian Summer e Graffitti on the Train. Num concerto nem bom nem mau, destacou-se, já estávamos nós a rumar para outras paragens, o hit single de 2005, Dakota, que continua a ser uma bela canção. 

Entretanto, no Palco Optimus Clubbing, o britânico Gold Panda já se encontrava a dar espectáculo. Mago da electronica experimental dançável, na linha de nomes como Four Tet ou Shlomo, o produtor londrino veio apresentar o seu segundo LP, Half of Where You Live, lançado em Junho, e atraiu à tenda electrónica do Optimus Alive’13 um respeitável séquito de fiéis, ansioso por ouvir malhas como Brazil ou Mountain. É preciso referir, no entanto, a infeliz escolha de horário para esta actuação; Gold Panda teria ficado bem melhor a fechar a noite. 

Seguiram-se as Deap Vally, dupla feminina formada por Lindsey Troy (guitarra/voz) e Julie Edwards (bateria). Vestidas para um Verão que decidiu não chegar a Oeiras, as norte-americanas trouxeram na bagagem Sistrionix (2013), disco de estreia, e uma miríade de temas repletos de um garage rock com tomates (oh, a ironia) e cheio de blues, numa mistura que faz lembrar as já óbvias referências a The White Stripes e Led Zeppelin. Num concerto algo atabalhoado (por vezes as raparigas pareciam estar descoordenadas e fora de tempo) mas bem conseguido, as Deap Vally revelaram-se uma bela surpresa, tanto pela presença de palco e espírito de entrega como pela divertida desenvencilhada comunicação com o público. 

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De volta ao palco principal, apanhamos o início do concerto dos Biffy Clyro, trio escocês já repetente no Alive, depois de aqui se ter estreado em 2010. Do espectáculo, não há muito a dizer, pois limitou-se a ser uma repetição da fórmula já gasta: os troncos nus, as guitarras ao alto, os refrães épicos e emotivos na algibeira, todos os ingredientes se conjugam numa demonstração triste e que se limita a ser uma pálida sombra daquilo que o grupo já foi. Em relação ao alinhamento escolhido, este não fugiu muito da apresentação de Opposites, o mais recente disco da banda, o que só acabou por ser mais um prego no “caixão” do espectáculo. Contudo, creio que os milhares de “bifes” que vibraram ao som de Stingin’ Belle e derivados não concordarão com esta opinião. 

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De seguida, rumámos de novo para o Palco Heineken, onde os canadianos Japandroids se preparavam para dar início a um dos melhores concertos do festival até ao momento. A dupla, composta por Brian King (guitarra/voz) e David Prowse (bateria/voz), trouxe ao palco secundário do Optimus Alive’13 o seu garage rock/noise pop, sublimemente impresso na cera dos brilhantes Post-Nothing (2009) e Celebration Rock (2012), para uma plateia que, não estando cheia, se encontrava bem composta e sabia ao que vinha: um show enérgico e catártico, à semelhança daquilo que (dizem que) a banda deu no ano passado, no festival Paredes de Coura

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Depois de um começo algo tremido, devido a problemas técnicos na primeira canção (uma guitarra demasiado baixa e muito pouco distorcida), o grupo lá arrancou com as suas canções frenéticas e contagiantes, disparando riffs e gritos para os moches do tamanho do mundo que se foram formando. Autênticos hinos de juventude, Wet Hair, Young Hearts Spark Fire, Adrenaline Nightshift e Fire’s Highway encontraram eco nos corações dos fãs de Japandroids e deram um novo significado à expressão “ver a banda certa na altura certa”. Depois do final, com For the Love of Ivy (com os últimos versos dedicados aos Green Day), deu para ver pelas expressões da audiência (e por aquilo que diziam os nossos corações) que os Japandroids não são uma banda, mas sim uma religião. 

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Após a apoteose no palco secundário, nova migração ao Palco Optimus, onde os Two Door Cinema Club já actuavam. A indie pop alegre e festiva, ainda que um pouco insossa, do grupo oriundo da Irlanda do Norte foi bem recebida por parte do público, que “montou” na plateia um ambiente muito agradável, ao estilo do mítico Glastonbury, e fez a festa com I Can Talk, Undercover Martyn, This is the Life e Next Year, êxitos de Tourist History (2010) e Beacon (2012). Não foi um concerto brilhante, mas lá deu para fazer o gosto ao pé e ouvir refrães orelhudos e borbulhantes.

Voltámos ao Palco Heineken para apanhar um pouco dos portugueses Dead Combo, que muito hype têm atraído, à conta da banda-sonora do programa de Anthony Bourdain. Por isso mesmo, não é de estranhar a tenda cheia, bem cheiinha, ansiosa pelo fado blues rendilhado de Tó Trips e Pedro V. Gonçalves, neste concerto apresentado com a ajuda de um baterista. Contudo, há que admiti-lo: a música dos Dead Combo, com todas as suas texturas e singularidades, não se insere lá muito bem no contexto do Optimus Alive’13.

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Seguiu-se então o grande cabeça-de-cartaz da noite, Green Day, que entrou em palco ao som de The Good, the Bad and the Ugly, de Ennio Morricone. E o que dizer do concerto de uma banda que há uma década que deixou de ser relevante? Não muito, infelizmente. Num concerto em modo best-of onde os êxitos de Dookie (1994) e American Idiot (2004) eram os mais esperados, mas foram também os que mais tempo demoraram a sair do “baú”, os Green Day apresentaram-se iguais a si mesmos e trouxeram ao Passeio Marítimo de Algés a sua palhaçada pop-punk onde não faltou nada, nem mesmo pessoas vestidas de coelho nem medleys de canções como Always Look on the Bright Side of Life e (I Can’t Get No) Satisfaction. Até um pouco do single Hey Jude dos Beatles se ouviu naquela noite. Episódio caricato foi quando BJ chama alguém do público para tocar guitarra e, Manuel, um jovem desconhecido, foi ao palco e levou uma guitarra para casa, após ter tocado uns minutos com a banda (Há miúdos com sorte!).

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As “fardas”, os eyeliners, as palavras de ordem (incrivelmente vagas), tudo faz parte de um show que tenta transmitir uma aparência de autenticidade punk que, infelizmente, não deixa de soar a uma farsa forçada e estéril, enterrada num arena rock que, nos últimos álbuns, se tem vindo a deteriorar a passos largos. Contudo, é preciso dar crédito onde o crédito é merecido: estamos a falar de uma máquina competente e bem oleada, capaz de agradar aos milhares que vieram exclusivamente por eles. E, confessemos, Holiday, Burnout, Hitchin’ a Ride e Longview trazem à memória uma nostalgia de adolescência bem deliciosa.

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Fugindo dos Green Day, paramos no palco Optimus Clubbing, onde a britânica Jessie Ware já faz o seu espectáculo. Com uma forte presença em palco e acompanhada de uma banda muitíssimo capaz, Ware mostra-se dona e senhora de uma fabulosa voz, que se enquadra de forma perfeita na sensualidade do seu R&B. A apresentar Devotion (2012), o seu álbum de estreia, a londrina deu provas de ser uma aposta já ganha da nova pop britânica, e Running e Sweet Talk corroboraram isso mesmo.

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Seguiram-se os Vampire Weekend, no Palco Heineken. Num concerto feliz para pessoas felizes, a beleza contagiante da indie pop fresca dos norte-americanos atraiu ao palco secundário do Optimus Alive’13 uma enchente enorme, apenas comparável à dos The xx em 2010, provando aquilo que há muito já de adivinhava: o grupo de Ezra Koening e companhia tem estatuto para um espaço muito maior. Ainda assim, não foi isso que afectou a qualidade do espectáculo, que apresentou uma banda consolidada, a apresentar o seu mais recente disco, Modern Vampires of the City (2013), mas sem pejo de ir buscar ao baú êxitos tão grandes como Cousins, Horchata, A-Punk ou Oxford Comma. E Campus continua a ser, tal como foi em 2008, uma das melhores canções de amor universitário de que há memória.

Já estava Steve Aoki a escorrer azeite no palco principal quando nos deslocámos, no final de Vampire Weekend, para o Palco Optimus Clubbing, a fim de ver os britânicos Disclosure a apresentar Settle (2013), o seu álbum de estreia. E em boa hora o fizemos, pois ainda apanhámos uma mão cheia de temas, repletos de uma deep house e UK garage sensual e física. Com a ajuda de Jessie Ware para o papel de MC e intérprete em dois temas, Confess to Me e o remix da sua Running, a dupla dos irmãos Guy e Howard Lawrence assinou aqui um grande show, com um ambiente memorável e com pontos altos em White Noise e Latch.

Depois de um descanso merecido, que nos custou o concerto de Crystal Fighters no Palco Heineken (diz quem viu que foi muito animado), lá fomos lavar as nossas lágrimas para o concerto dos Marky Ramone’s Blitzkrieg, com a participação de Andrew W.K. nos vocais. E apesar de esta não ter sido, nem de perto nem de longe, uma substituição à altura dos Death From Above 1979, há que confessar que soube bem ouvir clássicos como Sheena is a Punk Rocker, Rock & Roll High School ou Beat on the Brat. E o fim, obviamente com Blitzkrieg Bop, quase que fez deste show a despedida ideal para a primeira noite do Optimus Alive’13.

*Este artigo foi escrito, por opção dos autores, segundo as regras do Acordo Ortográfico de 1945

Texto: João Morais e Susana Pacheco

Fotos: Catarina Abrantes Alves

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