Viajar pode ser uma doença. Quando damos por nós já só pensamos nisso, passamos a trabalhar apenas para viajar, à procura da próxima aventura e isso foi o que levou o realizador Gonçalo Luz a largar o sofá e a fazer das viagens o seu trabalho. 

Foi em 2011 que Gonçalo Luz, realizador e fotógrafo com trabalhos em publicidade, peças de teatro e com exposição internacional, viajou até à Índia. Foi quando regressou que percebeu que o seu futuro seria viajar para trabalhar, e não o contrário. Foi assim que decidiu vender tudo, mobília, dvd’s, carro e, até o seu sofá, para ter dinheiro para a sua próxima jornada por lugares distantes.

Em Fevereiro deste ano, subiu ao Monte Evereste e este mês partiu de novo para a expedição de moto de Delhi (Índia) a Srinagar, intitulada “Para Além das Nuvens“, que dura até setembro. Esta será a primeira vez que um português traça este caminho de 2500 km, passando pela desafiante Manali-Leh Highway, a estrada mais alta do mundo. A viagem terá um cariz fotográfico e resultará num livro e exposição de fotografia. O EF esteve à conversa com o realizador que contou o seu desejo pelas viagens e as histórias que daí resultam.

EF: De onde vem este tal projeto de viajar e o que é que deixaste para trás?

Gonçalo: O projeto vem de trás, em que sonhava já com lugares longínquos.  Já em vida adulta senti que tinha deixado para trás uma essência que em muito tinha a ver com uma necessidade de estar em movimento constante. Sentia-me como se me tivesse desviado do meu caminho. Depois, uma sucessão de acontecimentos desembocaram na decisão de fazer a primeira viagem: à Índia. Finalmente, e depois de regressar da primeira viagem, surge-me naturalmente o pensamento de concretizar o sonho maior: viver a viajar, viajando para viver. Vendi a mobília, livros, dvd’s, o carro e lá fui de novo. Larguei acima de tudo uma certa ideia projetada que tinha de mim mesmo. Optei por ouvir mais o instinto e deixei para trás o “tem que ser”.

Luang Prabang 2012

Gonçalo em Laos, 2012

 EF: Subir ao Evereste era um sonho antigo?

Gonçalo: Subir ao Evereste era uma fantasia saída dos livros de exploradores. Por isso achei que haveria de ser uma das primeiras viagens. Voei de Kathmandu até Lukla e, com a ajuda de um carregador local, caminhei durante dez dias até chegar ao campo base do Evereste, no glaciar de Khumbu. Foi uma experiência maravilhosa e inesquecível. Frio, oxigénio rarefeito, muitos quilos perdidos. Como sou budista, fui recebido e convidado para acompanhar algumas práticas num mosteiro local e acabei ainda por pernoitar dois dias num outro mosteiro, mais abaixo, em modo de retiro. Fazia dois meses que o meu pai falecera. Precisei de parar um pouco para me centrar. E ajudou-me também a enraizar mais a consciência do lugar onde estava e daquele momento que estava a viver.

 EF: Como planeias cada viagem?

Gonçalo: As viagens são planeadas de início com a decisão do país para onde vou. Depois de comprada a passagem, pesquiso normalmente sobre o país e decido sobre a zona que vou fazer. Defino dois ou três pontos de paragem e o resto decido durante a viagem. Tento, sempre que posso, fugir dos lugares mais turísticos, pois dificilmente conseguimos ali um contacto mais próximo com os locais, para além de quem vive do turismo. O resto do trajeto, deixo correr ao sabor dos dias, dos lugares, das pessoas que encontro, de como me sinto. Não tenho pressa para chegar a lado nenhum.

Khumbu Glacier - Everest 2013Evereste, 2013

EF: Consegues descrever o que sentes no final de cada dia?

Gonçalo: Nunca me senti tao preenchido. Em viagem vivo mais pois cada viagem é como viver mais uma vida mas depois vem uma rotina, o que pode não ser necessariamente mau mas depois vêm os dias bons e os dias maus e nesse sentido, viajar não é estar constantemente em êxtase, mas acima de tudo tenho dias muito preenchidos. E como viajo sozinho, conheço muita gente, entre viajantes e locais.

EF: E viajas sempre sozinho?

Gonçalo: Sim. Por duas vezes tentei fazê-lo com pessoas que queriam acompanhar-me parte da viagem mas dei-me sempre mal. Os ritmos, os objetivos, as expetativas eram diferentes.

EF: Qual a memória mais marcante?

Gonçalo: Cada viagem tem uma série momentos que me marcam mas alguns fazem parte desta última viagem ao Evereste, com tudo aquilo que implicou chegar até ali com a falta de oxigénio e a dificuldades a nível físico. Também a minha experiência a dar aulas como voluntário no norte da Tailândia e talvez a minha primeira chegada à Índia, que é sempre uma coisa impactante pois a Índia é sempre diferente. Costumo dizer que quando saio da Índia vou com uma vontade enorme de sair dali mas depois tenho enorme vontade de regressar.

EF: Em termos de comida, foi difícil?

Gonçalo: Eu gosto imenso de comida e até agora nunca deixei de comer nada. Sempre tive um pouco mais de cuidado por motivos pessoais e faço o possível por não comer animais, pois tornei-me vegetariano. Mas na escola onde me voluntariei, na Tailândia, no meu dia de anos os professores compraram duas ou três iguarias como lagartas do bambu. São cozidas ao vapor dentro do bambu e transformam-se numa espécie de puré branco que se mistura com a salada e não posso dizer que foi o prato que mais adorei, mas comi. Aliás, na Índia o que me espantou não foi a higiene foi a quantidade de óleo com que se cozinha.

EF: Gostarias de levar este tipo de vida durante mais tempo?

Gonçalo: Sim. Enquanto eu conseguir, esta é a minha vida. A vida é muito transitória mas se depender de mim esse é o meu objetivo de vida e fazer da viagem o meu modo de vida também.

Lumbini 2013

Nepal, 2013

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