No passado dia 29 de Junho, no Cine-Teatro de Corroios, deu-se o Tumulto Fest: uma celebração do Punk ao Metal e de tudo o que está entre esses dois géneros, sendo o claro destaque o concerto dos lendários Ratos de Porão, que mostraram uma vitalidade de fazer corar muita banda mais nova.

Com a chegada do Verão, as pessoas ficam mais desafogadas, livres para participar em actividades de lazer e cultura. Tal é visível pelo sem-número de eventos, concertos e espectáculos que surgem nesta altura do ano. Mas há aqui uma dualidade: se é verdade que isso possibilita uma realização mais profícua de eventos, também há o risco de uma menor adesão a essas iniciativas em prol de alternativas mais populares (e baratas, não esqueçamos) como ir à praia ou à piscina do melhor amigo. Foi por estas razões que os músicos participantes no Tumulto Fest não se cansaram de agradecer ao público presente pela boa adesão naquela que foi uma grande, se bem que insuportavelmente quente, noite de música pesada.

Sim, calor, muito calor. Os Ratos de Porão parece que trouxeram o calor tropical do Brasil com eles para dentro do Cine-Teatro de Corroios (se bem que nesta altura do ano é Inverno naquelas bandas, mas ignoremos esta minha incongruência, vocês compreendem). Para agravar esta situação de “termo-tortura“, a organização tomou a decisão de impedir a saída dos visitantes do recinto, confinando-os a um espaço muito limitado ao ar livre, aberto apenas nos intervalos dos concertos. Mas este foi um problema menor, falemos de música.

Para nossa grande infelicidade, não conseguimos assistir ao concerto dos Challenge. Esta coisa de depender em boleias alheias tem os seus “senãos”. No entanto, vários foram os presentes a envergar t-shirts de apoio à banda caldense, fazendo questão de representar o movimento Hardcore em crescendo das Caldas da Rainha. Quanto à prestação da banda, não podemos tecer grandes comentários, mas Hardcore old-school como mandam as regras deve ter sido servido com a entrega que a banda normalmente tem.

Já o concerto dos Utopium, esse sim foi degustado. A banda teve uma prestação muito sólida, apenas prejudicada pela qualidade de som sofrível no início (o Grind deve pulverizar ouvidos, mas não daquela forma). Sem comunicação entre as músicas, o colectivo lisboeta disparou petardo atrás de petardo para a ainda esparsa audiência que se ia aproximando do palco, variando entre momentos de alta rodagem e outros mais sludgy onde o vocalista R., prostrado de joelhos, demonstrou o registo mais agonizante da sua voz.

IMG_2617Utopium

Seguiram-se os For the Glory, e com eles voltou o registo Hardcore. Sem grandes demoras, atacaram com staples do género como Survival of the Fittest ou Some Kids Have No Face, provocando um maior alvoroço de hardcore dancing e 2step em frente ao palco. Com All The Same o vocalista Congas fez uma apologia para a unificação da cena pesada, valorizando o facto do Tumulto Fest reunir no mesmo espaço malta do Hardcore, do Metal e do Punk. Depois da participação de Hugo dos Switchtense na mais recente Life Is A Caroussel, os For The Glory terminaram o seu set em beleza com o sempre potente hino de valorização pessoal Armor of Steel.

A banda mais metálica da noite, os Switchtense, descarregaram o seu Thrash altamente groovy em Corroios, dando o tiro de partida com a confrontante Face Off. Como é costumeiro à banda da Moita, foi uma performance de enorme intensidade. Foram tocadas malhas mais antigas como Into The World of Chaos ou mais recentes como The Right Track, mas o resultado foi sempre o mesmo: mosh a toda a velocidade. Hugo falou dos fantasmas que ainda assombram o nosso país antes de Ghost of Past e o colectivo terminou a actuação com Infected Blood, deixando um sincero obrigado à organização por manter o movimento activo.

IMG_2867Switchtense

Parece estranho dizer que os Simbiose são autênticos veteranos da cena pesada quando comparados com os Ratos de Portão , mas a banda que mistura Death Metal, Crust e Grind de forma simbiótica já anda nisto desde 1991, um verdadeiro marco tendo em conta a dimensão da nossa cena. Foi com raiva e contundência que se apresentaram em Corroios, com Total Descontrolo e Reage À Tua Frustração, músicas que retratam bem a situação que o país atravessa. Esse foi, aliás, um dos pontos que mais transpareceram no discurso de Johnie Simbiose à audiência (“Eu não votei neles, vocês também não votaram e agora estamos a pagar na mesma”), considerando os portugueses Parados, Humilhados, Calados, a sofrer Terrorismo de Estado. Também neste concerto o stage diving começou a surgir, incentivado por Johnie, apesar de algumas tentativas infrutíferas (ainda estou para perceber porque é que uma pobre alma se estatelou no meio do chão sabendo que não estava lá ninguém para o agarrar). Enfim, mais um bom concerto, algo ao qual os Simbiose já nos habituaram.

Por fim, das profundezas do backstage saíram os Ratos de Porão. Os “poderosos chefões” do Crossover no Brasil já têm mais de 30 anos de estrada e continuam a espalhar demolição pelos palcos deste mundo, algo que se verificou em Corroios. João continua a disparar riffs com uma juventude impressionante e João Gordo continua, de facto, gordo. Os elementos da banda são os mesmos há 10 anos, o que contribui para a consistência instrumental que apresentaram em palco, sendo que o único elemento em falta é mesmo a voz de João Gordo, que pelos seus 50 anos já não consegue ladrar as letras com a mesma clareza de outrora. Nada de especialmente perturbante,  porque a força das músicas sobressaiu e João Gordo foi auxiliado pela audiência, que sabia grande parte das letras na ponta da língua.

IMG_3214Ratos de Porão

Arrancando com Contando os Mortos e Morte ao Rei do já velhinho Anarkophobia, os Ratos de Porão provocaram um frenesim selvático de mosh e stage diving, subindo ainda mais o calor da sala. O alinhamento tocado, esse foi bastante variado, percorrendo todas as fases da carreira, desde os inícios mais primitivos com Crucificados Pelo Sistema, Pobreza ou Morrer ao último álbum da banda, Homem Inimigo do Homem, com Testemunhas do Apocalipse e Expresso da Escravidão. Sendo toda a toada lírica dos Ratos de Porão de oposição ao poder instalado e às injustiças sociais perpetuadas, foi obrigatório João Gordo fazer uma referência à insurreição popular que se tem verificado no Brasil, introduzindo Suposicollor com um “vamos meter os nossos políticos na cadeia, vocês também deviam meter os vossos”.

A supostamente terminar a performance, os Ratos levaram a multidão à loucura com Beber Até Morrer, Aids, Pop, Repressão e Crise Geral.  Mas o povo queria mais, e os Ratos cumpriram, tocando uma cover de O Dotadão Deve Morrer (dos Cascavelletes), Nós Somos a Turma e Pedofilia Santa. As coisas não ficaram por aqui, porque depois de um longo período de espera (demasiado longo, diga-se), a turma Paulista voltou num segundo encore para encerrar as festividades com Periferia, música seminal da banda (apareceu na primeira demo em 1982), cantada em uníssono por todos os presentes. E assim se passou uma excelente tarde/noite de sábado, provando que apesar das qualidades sedutoras da praia e afins, a música afirma-se sempre como uma necessidade primal.

*Artigo redigido, por opção do autor, ao abrigo do acordo ortográfico de 1945

 Fotografias: Bárbara Sequeira