O Teatro Nacional 21 apodera-se da Sala Estúdio do Teatro Nacional D. Maria II para fazer uma exortação à violência, entrecortada por momentos de crítica ao mundo ocidental. Talvez seja um espetáculo que comprove a nossa pertença a uma sociedade onde se bebe violência à refeição – e gostamos disso. Violência – Fetiche do Homem Bom está em cena até dia 21 de julho.

A Violência é o fetiche do homem bom, independentemente do que isso seja. O palco transforma-se num ambiente fechado sobre si mesmo, sobre o lado mais animalesco do Homem, uma esquizofrenia talvez, que todos os dias percebemos que é real. Nós nunca podemos ser como eles, porque somos sempre racionais – não é isto que todos pensamos? Pois então talvez seja por isso que já não é assim: na plateia, há risos do surreal que aquilo é, do ‘underground’ em que o mundo se tornou enquanto no palco há um Deus plural auto-afirmado que inquieta.

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Ao entrar, percebemos que estamos a ser filmados, como numa casa em que somos controlados por câmaras e alguém nos vê – e gosta disso. Vários espaços num só, uma visita guiada aos camarins e ao Teatro Nacional, uma luz que nos ofusca: uma câmara alta-definição e uma tela de cinema – um começo fulgurante se à imagem juntarmos o som, não da normal projeção da voz, tão elogiada em teatro, mas daquela que é transmitida por amplificadores. A contemporaneidade tem lugar no palco da casa clássica.

A movimentação em cena é cuidada, tranquila, calma. Uma tranquilidade que nos inquieta. Talvez demais. Todos os movimentos são criteriosamente estudados, feitos em simultâneo entre os dois irmãos sem nome, porque não precisam dele. É uma encenação simples, como se pede neste tipo de espetáculos. O tempo parece não passar enquanto todo o elenco nos olha fixamente, a meio do espaço cénico. Contudo, torna-se difícil interligar as cenas. Há cenas sem sentido que parecem simplesmente encher de tempo um espetáculo que podia ser curto mas igualmente forte. Quando se quer fazer coisas novas, cai-se no risco de cair no exagero – e há momentos em que Cláudia Lucas Chéu se exalta demais na encenação. Não é preciso tanto para provocar a tão importante transformação no espetador.

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Trata-se de um espetáculo principalmente visual, é claro. Embora o texto de Cláudia Lucas Chéu permita uma variedade de interpretações, críticas e exortações, são as imagens que tornam este espetáculo isso mesmo. Passou um início arrebatador e assim continua: é altura de usar a lama, ou a terra, como um adereço essencial ao espetáculo. Juntamente com as luzes há uma espécie de magia, uma espécie de Poesia que percorre sobre os corpos iluminados e violentos – cada vez mais filosóficos.

É um espetáculo para quem gosta de coisas novas. É a nova tendência do mundo teatral. Cenários não muito complexos, manobrados sob os olhos do público e pelo próprio leque interpretativo, luzes de várias cores e elementos multimédia – se hoje isto é possível, há-que aproveitar.

Os atores são bons e sabem o que estão a fazer. Um espectáculo que conta com tanta dedicação visual, só seria possível com uma interpretação soberba por parte dos atores e disso não nos podemos queixar. Não há, de facto, sangue pulverizado que mate o teatro – ele nasce, sempre diferente, fruto da criatividade de quem gosta de pensar.

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Afinal de contas, só uma mesa, dois microfones e uma bateria, juntamente com os diversos materiais audiovisuais, um misto do cinema com o teatro, conseguem criar no espetador a sensação mais profunda, o sentimento mais repugnante, a vivência mais real daquilo que se passa no palco. É hora de acabar. A boca está aberta e sem palavras para descrever. É um esforço soberbo descrever imagens com tamanha complexidade. O palco está sujo e a nossa alma também. Tratamos rapidamente de a limpar com a racionalidade. Não estamos longe de ser Deus como os irmãos – tratemo-nos.”

A violência é o Fetiche do Homem bom e o Teatro Nacional 21 trata de a mostrar, em forma de Arte – seja lá o que isso for.

Fotografias de Rita Sousa Vieira